Desconfiança

933 Words
O silêncio depois do m******e era pior que os tiros. Cheirava a sangue seco, pólvora e medo. Eu estava sentada na poltrona de couro do escritório de Dante, encolhida, o frio do ar-condicionado batendo no suor seco do meu rosto. Minhas mãos tremiam. Escondi-as sob as coxas, mas o tremor vinha dos ossos. Dante não parecia afetado. Estava de costas para mim, observando os jardins através da janela à prova de balas. A camisa branca estava arruinada — manchas vermelhas escuras espalhadas pelo tecido, como mapas de violência. Ele não era só um homem rico em perigo. Era o próprio perigo. — Beba — ordenou, sem se virar. Caminhou até o bar, serviu dois copos de uísque âmbar e empurrou um na minha direção. — Eu não bebo — minha voz saiu um fio, patética. — Beba, Elena. Suas pupilas estão dilatadas, seu pulso acima de 120. Você vai desmaiar no meu tapete se não acalmar o sistema. É uma ordem, não um convite. Peguei o copo. Meus dedos bateram no cristal, tilintando. Dei um gole. O líquido queimou como brasa, descendo rasgando, mas o calor no estômago me deu algo em que focar além do rosto do homem que Dante matara na minha frente. Ele finalmente se sentou atrás da mesa. A luz do abajur criava sombras duras no rosto dele, fazendo-o parecer uma escultura de mármore c***l. Os olhos azuis, antes gélidos, agora brilhavam com intensidade predatória. — Como eles souberam, Elena? — Do que você está falando? — Como souberam que meu sistema tem uma brecha de quatro minutos durante a troca de turnos? Como souberam que eu estaria fora? — Ele se inclinou, as tatuagens no pescoço parecendo se mover. — Na minha linhagem, quem acredita em coincidências morre antes dos trinta. — Eu não sei! — Minha voz subiu. — Eu estava dormindo! Só pensei na Sofia. Juro por tudo que é sagrado… — Não jure. — A voz dele cortou como lâmina. — O sagrado não entra nesta casa. Aqui, a única verdade é a lealdade. E você ainda não me provou ter. Levantou-se e caminhou ao meu redor. Senti o som dos sapatos no chão, contando os segundos da minha vida. — É um disfarce brilhante — continuou, a voz vindo de trás da minha cabeça. — A babá inocente. A moça desesperada que vira heroína por acaso. É o tipo de história que ganha a confiança de um homem. E homens confiantes são vulneráveis. Parou ao meu lado, apoiou as mãos nos braços da poltrona, prendendo-me. — Quem enviou você? Foi Moretti? Os russos? Alguém de dentro da minha organização? — Ninguém me enviou! — Lágrimas transbordaram. — Eu sou só a Elena. Aceitei esse emprego porque ia ser despejada. Protegi Sofia porque ela é uma criança inocente sendo criada por um monstro! Se eu fosse traidora, teria deixado aquele homem levá-la! Dante não se afastou. Pelo contrário, pareceu fascinado pelas minhas lágrimas. Seus olhos desceram para minha boca, que tremia. O polegar subiu para meu lábio inferior, puxando-o levemente. O contato foi como um choque. O medo começou a se transformar em algo mais denso, mais sombrio. Uma tensão s****l nascida da proximidade da morte. — Você é um mistério irritante — sussurrou, a voz rouca. — Ninguém é tão puramente bom neste mundo. Todo mundo tem um preço. Qual é o seu? — Eu não tenho um preço. Só quero que ela fique bem. Dante aproximou-se mais. Por um segundo eterno, o mundo parou. Vi o desejo cru nos olhos dele. Ele ia me beijar. E eu ia deixar. O telefone vibrou. Um som estridente que quebrou a bolha. Dante fechou os olhos, encostou a testa na minha, soltou um suspiro pesado. Depois, afastou-se abruptamente. A frieza voltou. — Vá para o seu quarto — disse, sem olhar para mim. — Marta levará Sofia para o meu quarto esta noite. Você está proibida de sair da ala leste até que eu termine de verificar cada detalhe do seu passado. Se eu encontrar uma única mentira… uma única vírgula fora do lugar… Ele não terminou. Não precisava. O aviso estava implícito na arma que deixou sobre a mesa. Saí do escritório com as pernas bambas. Entrei no meu quarto, tranquei a porta, desabei contra a madeira. Eu deveria planejar minha fuga. Deveria pensar em como sair daquele castelo de sangue. Mas tudo que sentia era a pressão do polegar de Dante no meu lábio. Tudo que ouvia era a voz dele prometendo que eu não sairia dali ilesa. Não era mais só a babá. Era a obsessão de um predador. E o medo de ser descoberta era menor do que o medo de me perder completamente nos olhos azuis de Dante Vane. Mais tarde, ouvi passos no corredor. Era ele. Parou diante do quarto de Sofia, como sempre. Fui até lá. — Ela perguntou por você — disse, sem se virar. — Disse “Lena” três vezes hoje. Meu coração doeu. — Ela me aceitou. — Ela te escolheu. — Finalmente me olhou. — Assim como eu. Naquela noite, fiquei acordada, pensando em Lúcia no hospital, em Sofia dormindo em segurança, em Dante vigiando no escuro. Sabia que a guerra estava só começando. Mas também sabia: eu já tinha escolhido meu lado. No amanhecer, encontrei um envelope sob minha porta. Dentro, uma foto de Lúcia saindo do hospital. E um bilhete: “Ela está segura. Mas não por muito tempo. — D.” Não era ameaça. Era proteção. E pela primeira vez, acreditei: talvez eu não estivesse presa. Talvez eu tivesse escolhido ficar.
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