A Última Babá

1210 Words
O médico foi claro: — Sem o tratamento, Lúcia não passa do mês que vem. Eu tinha R$ 37 na carteira. Contas vencidas. Um aviso de despejo pregado na porta. E uma irmã de dezenove anos, pálida na cama de hospital, me olhando com olhos que diziam: “Não me abandone.” Foi por isso que aceitei o emprego. Não por luxo. Não por escolha. Por desespero. O anúncio era vago: “Babá para criança especial. Salário alto. Discrição exigida.” Nem perguntei o que “especial” queria dizer. Nem quis saber quem eram os pais. Só vi o número no final: R$ 25.000 por mês. Dinheiro suficiente para salvar Lúcia. Mesmo que eu tivesse que vender minha alma. A mansão Vane parecia um túmulo com paisagismo. Gramado perfeito. Nenhum pássaro. Silêncio pesado, como se a terra estivesse prendendo a respiração. Dois homens de terno me cercaram antes que eu desse dois passos. — Braços abertos. Revistaram-me como se eu fosse uma ameaça. Como se eu já estivesse morta. As portas se abriram com um rangido metálico — como dentes mastigando ar. Dentro, cheiro de cera, café queimado… e algo metálico. Ferro? Sangue? No alto da escada, ele estava. Dante Vane. Camisa preta entreaberta, mangas arregaçadas, tatuagens subindo pelos braços como raízes negras. Não sorriu. Não franziu. Só me avaliou — como quem decide se algo merece ser queimado. — Ela é? — perguntou. A voz não era bonita. Era pesada, como se cada palavra carregasse pedra. — Elena Santos — respondeu o segurança, como se eu não existisse. Dante desceu. Lento. Cada passo ecoava no mármore. Quando parou diante de mim, o cheiro bateu: sândalo, uísque… e algo seco, como terra de cemitério após a chuva. Seus olhos não eram azuis. Eram vazios. Como se já tivesse visto tudo — e achado pouco. — Você sabe onde está entrando? — Vim pela vaga de babá — respondi. Minha voz saiu fina. Trêmula. Patética. Pare de tremer. Ele riu. Um som curto, seco. Sem graça. — Aqui, babá não existe. Só existe sombra. Você anda onde ela anda. Come quando ela come. Morre se ela morrer. Fez uma pausa. Inclinou a cabeça. — Entendeu? — Sim. Ele se aproximou. Tão perto que senti o calor da camisa dele. Pensei que fosse me tocar. Em vez disso, arrancou minha bolsa, virou de ponta-cabeça. Meus documentos caíram no chão com um baque ridículo. — Se você mentir — sussurrou no meu ouvido, hálito de café e cinzas —, se olhar onde não deve, se vazar uma só palavra… Fez uma pausa. Meus joelhos quase cederam. — Eu não vou te matar. Vou te fazer pedir para morrer. Meu estômago embrulhou. Foi então que a vi. No fim do corredor, escondida atrás de uma coluna de mármore, uma menina. Cabelos pretos em cachos soltos, vestido branco amarrotado, pés descalços. Segurava um urso de pelúcia surrado, com um olho arrancado e o outro costurado com linha preta. E os olhos dela. Deus. Não eram tristes. Eram apagados. Como se alguém tivesse soprado a chama por dentro. Dante seguiu meu olhar. — Sofia não fala. Desde que a mãe morreu. — Engoliu seco. Por um segundo, a máscara rachou. — Ela é a única coisa boa da minha vida. Virou as costas. — Venha. Andei. Pernas de algodão. Quando passei por Sofia, forcei um sorriso. Fraco. Quebrado. Ela não retribuiu. Só me olhou. Como se visse uma pessoa de verdade pela primeira vez. Na sala, Dante jogou um papel sobre a mesa de madeira escura. — Assine. É confidencialidade. Pra mim? É sangue. Quebre, e eu pego o seu. Olhei para o documento. As letras nadavam. É loucura. É suicídio. É a única chance que você tem. Pensei em Lúcia tossindo na cama de hospital. No aluguel vencido. Na conta zerada. Olhei de novo para Sofia. Ela ainda estava lá. Sozinha. No meio de um mundo que devora os fracos. Meus dedos pegaram a caneta. Não tremiam mais. Assinei: Elena Santos. Firme. Direto. Sem florir. Dante ergueu o contrato. Nossos olhos se encontraram. E, por um instante — só um —, vi algo que não era frieza. Era fome. Fome de alguém que também quer ser visto. — Bem-vinda ao inferno — disse, quase sorrindo. — Tente não queimar demais antes do amanhã. Naquela noite, fiquei acordada no quarto que Marta me mostrou — luxuoso, mas com janelas blindadas e portas com travas eletrônicas. Liguei para o hospital. A enfermeira atendeu. — Elena? A Lúcia perguntou por você. Disse que sonhou que você voltou com boas notícias. — Diga a ela que sim. Diga que vai ficar tudo bem. Desliguei. Olhei pela janela. A cidade brilhava lá embaixo, cheia de promessas quebradas e segundas chances. Sabia que tinha entrado numa gaiola de ouro. Sabia que Dante Vane era um monstro. Mas também sabia: Enquanto eu respirasse, Lúcia viveria. E aquela menina muda… talvez um dia voltasse a falar. Mais tarde, ouvi passos no corredor. Dante parou diante do quarto de Sofia, como se vigiasse um tesouro. Não entrei. Só observei. Ele se agachou, falou algo baixinho. Sofia não respondeu, mas estendeu a mão. Ele segurou. Por um longo momento. Vi o homem por trás do monstro. E soube: ele também estava preso. Na manhã seguinte, encontrei Sofia no jardim interno, desenhando com giz no chão de pedra. Ela havia desenhado três figuras de mãos dadas. — Somos nós? — perguntei, ajoelhando-me. Ela assentiu, apontando: — Papai. — Eu. — Lena. Meu coração doeu. — Sim, somos nós. Ela me entregou o giz. — Desenha você também. Desenhei uma casa ao redor das três figuras. Uma casa com janelas grandes, portas abertas, sem muros. Sofia tocou o desenho com o dedo, como se memorizasse. À tarde, Dante me chamou ao escritório. — Ela falou com você? — Sim. Disse “Lena”. Um quase sorriso tocou seus lábios. — Primeira palavra em meses. — Ela precisa de normalidade. De alguém que a veja como criança, não como herdeira. — E você? — Ele me encarou. — O que você precisa? Pensei em Lúcia. No tratamento. Na dívida que nunca termina. — Só tempo. Para provar que posso protegê-la. Dante estudou meu rosto por um longo momento. — Você não é como as outras. Elas tinham medo de mim. Você tem medo por mim. — Talvez eu seja só mais uma tola. — Ou talvez — ele inclinou a cabeça — você seja exatamente o que esta casa precisava. Naquela noite, fiquei na varanda, ouvindo o vento bater nas árvores. Dante se aproximou, trazendo dois copos de uísque. — Beba. Você merece. Destra vez, não recusei. O líquido queimou, mas o calor era bem-vindo. — Por que me escolheu? — perguntei. — Entre tantas, por que eu? Ele olhou para a cidade lá embaixo, luzes piscando como olhos vigilantes. — Porque você não veio por dinheiro. Nem por poder. Você veio por necessidade. E ainda assim, escolheu proteger. Isso é raro. Isso é… sagrado. — Não sou santa. — Não. Você é melhor. É real. Ficamos em silêncio, bebendo, observando a noite engolir Chicago. Sabíamos que a paz era frágil. Mas, pela primeira vez, não estávamos sozinhos nela.
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