Três dias depois do ataque, Dante me chamou ao escritório.
— Vista-se — ordenou, sem olhar do relatório que lia. — Há um jantar às oito. Você vai estar lá. Com Sofia.
— Por quê?
Ele levantou os olhos, azuis e frios como lâminas.
— Porque os lobos querem ver a presa. E eu quero que vejam que ela tem garras.
Marta me ajudou a vestir um vestido preto simples, mas elegante demais para mim. Nenhuma maquiagem além de rímel. “Você precisa parecer forte, não bonita”, ela murmurou.
Quando vi Sofia, meu coração partiu.
Ela usava um vestidinho branco de renda, os cachos presos com uma fita dourada. Mas os olhos… estavam apagados de novo. Como se o ataque tivesse apagado a centelha que minha presença acendera.
— Oi, pequena — sussurrei, ajoelhando-me.
Ela não respondeu. Só segurou minha mão com força, os dedos finos como galhos secos.
— Ela não falou desde que você foi isolada — disse Marta, baixinho. — Chora à noite. Pede por você.
As palavras me cortaram mais que uma lâmina.
O salão de jantar era uma catedral de poder.
Mesa de carvalho para vinte, lustres de cristal, quadros de caça observando tudo com olhos vazios. Oito homens sentados, todos de terno, as mãos perto dos bolsos — onde, eu sabia, estavam as armas.
Dante estava na cabeceira, impassível.
— Elena Santos — anunciou, a voz ecoando. — A babá de Sofia.
Todos os olhos se voltaram para mim. Avaliadores. Famintos.
Um homem alto, cabelos grisalhos, sorriso que não chegava aos olhos, levantou-se.
— Vane, você contrata crianças agora?
— Ela salvou minha filha de três homens armados — Dante respondeu, sem tirar os olhos de mim. — Algo que nenhum de vocês fez quando minha esposa foi assassinada.
O silêncio que se seguiu foi mortal.
O homem — Moretti — apertou os lábios e voltou a se sentar.
O jantar começou.
Sopa de lagosta. Carne assada. Vinho tinto caro.
Ninguém falava comigo diretamente, mas os olhares eram constantes. Um russo de olhos frios sorriu para Sofia e disse em português arrastado:
— Que menina linda. Seria uma pena se algo acontecesse a ela.
Minhas unhas cravaram nas palmas das mãos.
— Ela está sob minha proteção — respondi, mantendo a voz calma.
— Ah, sim — ele riu. — A babá heroína. Dizem que você lutou como uma leoa.
— Dizem a verdade.
Dante observava tudo, impassível, cortando sua carne com precisão cirúrgica.
Foi durante a sobremesa que vi.
Preso sob a borda da mesa, quase invisível: um microfone preto.
Meu sangue gelou.
Levantei-me devagar, a colher na mão.
— Sofia está cansada — anunciei, firme. — Vou levá-la para a cama.
Moretti riu.
— Já? Mas a noite está só começando, querida.
— Crianças precisam dormir — respondi, segurando a mão de Sofia com força. — Especialmente as que vivem em casas cheias de lobos.
O silêncio caiu como uma lâmina.
Dante se levantou.
— Deixe-a ir — disse, a voz baixa, perigosa. — A noite dela terminou. A nossa… está só começando.
No corredor, minhas pernas quase cederam.
— Tem um microfone na mesa — sibilei para Dante assim que ele nos alcançou.
Ele não demonstrou surpresa. Só assentiu.
— Eu sei.
— Você sabia?
— Eu plantei.
Fiquei paralisada.
— Por quê?
— Para ver quem morderia a isca. — Ele parou diante de mim, tão perto que senti o calor do terno. — Moretti contratou um espião dentro da minha casa. Agora, graças a você, eu sei onde procurar.
Olhei para Sofia, agarrada à minha saia.
— E se eles tentarem levá-la de novo?
— Então você fará o que fez da última vez.
— E se eu não conseguir?
— Você vai conseguir. — A mão dele subiu, quase tocando meu rosto, mas parou no ar. — Porque agora você sabe: esta família é sua também.
Naquela noite, não houve pesadelos.
Sofia adormeceu nos meus braços, exausta, mas segura. Fiquei acordada, ouvindo os sons abafados do andar de baixo — vozes tensas, passos rápidos, o estalo de um soco sendo dado.
Dante estava limpando sua casa.
E eu… eu estava dentro dela.
Não como empregada. Não como refém.
Como parte.
Quando o sol nasceu, Dante parou diante da porta do quarto de Sofia.
— Por que me trouxe ao jantar? — perguntei baixinho.
— Porque queria que eles vissem o que eu vi. Uma mulher que não foge. Uma mulher que fica.
— E se eu tivesse fugido?
— Você não é esse tipo de mulher, Elena.
Houve uma pausa. O sol iluminou o lado do rosto dele, suavizando as linhas duras.
— Você me surpreende — admitiu, quase contra a vontade.
— Isso é bom ou r**m?
— No meu mundo, surpresas geralmente são mortais. — Ele finalmente me olhou. — Mas a sua… é a única que eu quero manter viva.
Naquela manhã, Marta trouxe café e pão fresco.
— O senhor Vane mandou dizer que você pode circular livremente pela casa.
— Obrigada.
— E… — ela hesitou — ele também disse que Sofia pediu por você. Em voz alta.
Meu coração saltou.
— O que ela disse?
— “Lena.” Foi só isso. Mas foi a primeira palavra em dias.
Segurei a xícara com as duas mãos, sentindo o calor se espalhar.
Fora da janela, Chicago acordava. A cidade de concreto e sangue, de promessas quebradas e segundas chances.
Dentro da mansão Vane, algo novo estava nascendo.
Não era amor. Ainda não.
Era lealdade.
Era confiança.
Era o começo de uma guerra que não seria travada com balas, mas com escolhas.
Eu bebi o café, amargo e quente, e soube:
Não havia mais volta.
Eu era deles.
E eles… eram meus.