Descanso

1891 Words
Lorenzo narrando. Após o almoço eu me retirei para a sala, tentando colocar minha cabeça no lugar, eu tenho que ficar longe dessa menina, fecho os olhos buscando pensar melhor. Sou muito velho para ela, e parece ter uma atração entre nós dois… algo que não sei explicar e só sinto aumentar a cada momento, não dará certo essa convivência, mas como eu poderia mandar ela embora? Não faz sentido essa sensação que cresce em meu peito que aperta cada vez que ela baixa a cabeça ou me chama de "padrinho". Eu sou muito velho pra ela. E ela... é jovem demais, inocente demais, pura demais. Não combina comigo. Não combina com a minha vida. Mas parece que quanto mais eu penso isso, mais meu corpo quer provar o contrário, eu já tive tantas ereções nesse tempo,em que me aliviei sozinho que é vergonhoso dizer. Raiva. É o que sinto. Dessa situação, de mim mesmo, dessa casa grande demais pra uma menina pequena assim. Talvez eu devesse arrumar uma casa na cidade pra ela. Um lugar seguro, com outras mulheres, com trabalho simples. Longe daqui. Longe de mim. Mas mesmo enquanto imagino isso, sei que não vou fazer. Não quero que ela vá. E, pra piorar, ela não dá um passo sem ser pra mais perto. Minutos depois, abro os olhos ao ouvir o som da água sendo colocada no chão. Olho pro lado e vejo aquela menina vindo na minha direção com uma bacia de porcelana azul clara, ela tomou banho, agora usa outra roupa. Um vestido novo, rosa, justo na cintura, no quadril, em seus s***s… as mangas da peça são em algo leve que não entendo, ela está segurando um pano branco no ombro e se aproxima com cuidado. — Deseja ajuda? — ofereço mas a merda da ereção me faz apenas colocar um travesseiro acima de meu colo. Ela se ajoelha na minha frente sem pedir permissão e apenas piora tudo. Coloca a bacia no tapete grosso com tanto cuidado que não faz barulho algum. Depois se senta de joelhos, ajeita o vestido ao redor das pernas cobrindo a pele nua que me foi revelada e põe as mãos sobre a água quente como quem se prepara pra um ritual. — O que você tá fazendo, Angel? — pergunto, a voz saindo mais rouca do que eu queria. Não gosto que ela fique tão perto assim, sem eu conseguir impedir. — Escalda-pés, padrinho. — O tom de voz dela é sereno, quase doce. — Faz bem pra circulação. Pra descansar, você andou muito por mim hoje, é o minímo que posso fazer. — Vai estragar as unhas. — Digo só pra afastá-la disso. Não tem sentido ela me servir desse jeito. Não quero isso... não quero precisar disso. Mas ela apenas sorri pequeno, os olhos abaixados. — Eu não ligo pra essas coisas. Não faço questão. — Ela fala como se fosse óbvio. Como se eu não estivesse ali tentando entender onde é que isso vai parar. — O padrinho já é muito bondoso comigo. Mais do que eu mereço, eu quero cuidar de você, por favor. Ela espera alguma reação, e com os olhos azuis tão pidões eu não resisto, confirmo com a cabeça claramente abatido e ela sorri orgulhosa. Com mais cuidado que jamais tive ela pega meus pés com aquelas mãos pequenas, firmes, mas gentis, ergue a barra da minha calça a dobrando. Meus calcanhares tocam a palma das mãos dela antes de deslizarem para a água quente e fico sem jeito, ninguém cuidou de mim dessa forma em anos, eu sou homem, não preciso disso. — Isso me faz menos macho. — resmungo e ela ri baixo negando. — Não, isso apenas me deixa mais feliz por poder retribuir um pouco a você, gostaria de fazer até mais padrinho. — Ah menina, você nem imagina o que eu gostaria. Fecho os olhos por um instante sem querer quando realmente sinto a água me tocar. O calor relaxa, e os dedos dela, finos e hábeis, massageiam os pontos certos. O polegar desliza em círculos pelo arco do meu pé, enquanto ela cuida como se eu fosse um santo no altar, eu mesmo não teria esse cuidado comigo. — Angel... já tá bom. — Forço a dizer depois de alguns minutos, a garganta seca e um nó preso nela, como essa p***a de massagem pode me deixar mais e******o? Ela levanta o rosto, me olha com um brilho calmo que me desconcerta ainda mais. — Tem certeza padrinho? Você está tão tenso. — ela nem imagina o quanto. — Sim, melhorar parar. — ela me solta secando suas mãos no pano e me olha triste. — Então vou limpar os quartos agora. — Responde, recolhendo as mãos com a mesma calma.. — Não. — Falo antes de pensar. — Fica aqui. Vamos ver TV. Ela parece não entender. Franze o cenho, ajeita o vestido e diz: — Isso é coisa que atrai preguiça. Não é permitido pra mim, é a ordem, padrinho. Só pra quem tem posses... e quem não tem a quem servir. — E quem manda em você agora para ter essa regra? — pergunto, mais direto do que eu deveria. Ela hesita. — O padrinho. — Responde, com simplicidade. — Não. — Corrijo. — Você decide o que deve fazer, eu não mando em você Angel. Ela balança a cabeça, sem aceitar. — Mas eu estou aqui pra servir o senhor. Foi pra isso que me acolheu, você é meu senhor, meu dono, a Madre me permitiu ser sua. Suspiro fundo, com o peito pesado. Passo a mão pela barba, controlando a impaciência e sentimento que isso me traz. — Tudo bem. Então quero que você fique aqui e assista TV. Essa é a sua função por agora. Ela abre a boca pra dizer mais alguma coisa, mas levanto a mão antes. — Senta aqui. — Dou um tapa leve no sofá ao meu lado. Depois de um segundo de hesitação, ela se levanta, devagar, como quem pisa em terreno proibido. Senta na beirada do sofá, o corpo rígido, os dedos entrelaçados no colo. Pego o controle e ligo a TV. A tela enche de cores, mas ela nem olha. Continua com os olhos baixos. — Que tipo de programa você gosta? — pergunto. Ela move a cabeça devagar. — Eu nunca assisti, padrinho. Fecho os olhos um instante, respiro devagar. A lembrança da minha mãe me vem, com ela rindo de umas comédias bobas na televisão quando a vida ainda fazia sentido nessa casa. — Tá bom. Então vamos ver uma coisa que a minha mãe gostava. — Falo, procurando algo leve, bobo. Um filme de romance, cheio de piadas sem graça. Ponho qualquer um. O filme começa e ela olha a tela com atenção, mas não entende nada. Fica dura como tábua, sem rir de nada. Eu quase sorrio disso, mas me contenho. Passam-se alguns minutos. Percebo que o corpo dela vai relaxando, e logo depois, a cabeça pende pro lado. Encosta no encosto do sofá, e ela adormece mais rápido do que eu achava possível. A boca entreaberta, os cílios longos sobre as bochechas. Uma paz tão serena que me sinto culpado por estar olhando tanto. Mas não paro. [...] Após trinta minutos de filme e eu ainda observo Angel dormir, toda sua delicadeza, observei cada detalhe do rosto dela. A pele macia, as sardas discretas, a curva da boca. Não deveria, mas não consigo evitar de olhar. Uma explosão irritante na televisão faz ela despertar sobressaltada. Ela se ajeita rápido, com os olhos arregalados. — Você dormiu — digo divertido, mas ela parece constrangida. — Me desculpe! — diz, a voz apressada. — Eu... eu vou trabalhar agora padrinho, obrigada pela oportunidade, mas não sirvo para esses luxos. Antes que eu diga algo, ela se abaixa ao chão, tenta tirar meus pés da água já fria mas eu a impeço, tiro eu mesmo e seco no pano que ela segurava antes . Ela recolhe a bacia e o pano de mim, levando tudo para fora em pressa. Eu fico ali, sem saber pra onde olhar. Quando percebo, já se passaram alguns minutos e ela não voltou. Levanto e vou atrás. Encontro a cozinha em silêncio, mas logo vejo o vulto dela perto do fogão. Está preparando café, os movimentos precisos e suaves. — Angel. — Chamo. Ela se vira, o rosto limpo de qualquer expressão. — Padrinho, o senhor prefere que eu limpe os quartos de cima de dentro pra fora ou de fora pra dentro? — pergunta, como se fosse a pergunta mais simples do mundo e eu não entendo nada do que ela quis dizer. — Eu vou te mostrar, nunca te apresentei direito a casa, vem. — Falo, passando a mão na nuca, sem entender por que ainda tô nessa casa com ela aqui, eu tenho que tomar jeito. Subimos as escadas. Vou explicando devagar, apontando os cômodos, ela olha tudo encantada e atenta. — Esse quarto é de princesa? — questiona no antigo quarto da minha irmã e n**o com a cabeça, ela observa a penteadeira branca, com espelhos e luzes. — O quarto era da minha irmã, pode pegar o que quiser aqui, tem coisa vencida de maquiagem, creme, pode limpar e jogar fora, ninguém veio atrás. — ela não diz nada, apenas olha o estado de limpeza das estantes e prateleiras, a Neide nunca as limpava em um certo momento, quando percebeu que ninguém viria. — Eu posso ler esses livros? — ela questiona e confirmo com a cabeça, só tem romance bobo, Lívia nunca foi leitora séria, gostava dessas coisas de herói, príncipe… Saio do quarto feminino e logo ela me segue, andamos um pouco até a última porta do segundo andar, o quarto em que eu reformei e ampliei, a porta é aberta e tenho que acender a luz para melhorar. — Esse é o meu quarto. Só toalhas pretas. Lençóis pretos. Você só limpa. Não mexe nas gavetas, nem limpa todo dia. — Posso arrumar sua cama toda manhã? — ela questiona se aproximando e tenho que olhar para o chão evitando que minha imaginação a pense deita em meu colchão. — Apenas quando eu sair de casa, é melhor. Ela assente, respeitosa. — Os outros quartos pode usar como quiser. Só mantenha limpo. Pode abrir janela, trocar cortina, o que achar melhor. Ela para um instante. — E o escritório, padrinho? Tem muitos papéis lá. — Tenho que organizar em algum momento, vá mexendo no que conseguir. Abro a porta da varanda para mostrar a ela, e quando indico que ela passe vejo sua expressão, surpresa pela vista, realmente é bonita, a melhor coisa que eu posso ver pela manhã. — Padrinho, eu posso ir naquela água tomar banho depois? — pergunta apontando o lago, eu n**o com a cabeça e sua tristeza é evidente no olhar, lá é onde os animais ficam, mas ela não questiona. Eu olho pra ela. E pela primeira vez, sem pensar tanto, digo: — Posso te levar na cachoeira, é aqui perto em minhas terras, lá você pode tomar banho. — eu digo e ela me abraça contente. Ela sorri de leve. E pela primeira vez no dia, sinto que talvez isso não seja um problema. Ou talvez seja o maior deles.
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