A manhã seguinte finalmente chega, apesar de não ter conseguido dormir a noite toda. À medida que os primeiros raios de sol infiltram-se pelas janelas dos corredores, levanto-me da cama sentindo um nó no estômago. Hoje é o dia do jantar. Um jantar que não é apenas uma reunião familiar ou um evento social qualquer, mas uma demonstração pública de que Alex e eu cumprimos os termos do testamento, que estamos casados e que tudo está sob controle.
Ao entrar no banheiro para tomar banho, observo o meu reflexo no espelho. Os meus olhos estão cansados. A falta de sono se nota demais. As palavras de Alex da noite anterior continuam a assombrar a minha mente: a sua atitude entre a fúria contida e a vulnerabilidade, a sua resistência em aceitar o que havia entre seu pai e eu. Ele é um homem cheio de contradições, e isso me desconcerta. Durante semanas tenho tentado encontrar uma maneira de coexistir com ele, mas cada passo em direção a algum tipo de trégua parece resultar num retrocesso maior. Ao sair do banheiro, envolta num roupão branco de algodão, um dos últimos presentes de Fernando, percebo uma caixa sobre a mesa, uma caixa que, juro, não estava ali antes de eu entrar.
Abro-a com cuidado para encontrar um vestido azul-escuro incrível e lindo, com certeza para usar esta noite. Procuro uma nota dentro dela, mas não existe, então fecho a caixa novamente e me visto com algo confortável para começar o dia.
Quando desço para a sala de jantar para o café da manhã, Alex já está lá, sentado na cabeceira da mesa, como é seu costume. Sem poder evitar, fico tensa ao vê-lo. Mesmo quando está em silêncio, parece emitir uma energia de autoridade que domina a sala. Ele vestia um terno cinza-escuro, impecável como sempre, e segurava um jornal nas mãos, embora m*al parecesse lê-lo. O café fuma na sua xícara, mas ele não a toca.
— Bom dia. Cumprimentei com voz tranquila, tentando manter a compostura. Embora a tensão entre nós seja palpável, não posso me dar ao luxo de perder a calma.
Alex levanta os olhos, apenas inclinando a cabeça em saudação. Os seus olhos fixam-se nos meus por um breve segundo antes de voltar para o jornal.
— Bom dia. Ele responde com um tom neutro, sem levantar totalmente o olhar.
Sento-me na outra extremidade da mesa, sentindo a imensidão da distância que nos separa, não só física, mas também emocionalmente. Um par de funcionários do serviço me serve o café da manhã, mas eu m*al tenho apetite. Cada mordida parece forçada, como se um peso invisível estivesse pressionando o meu estômago.
— Está tudo pronto para esta noite? Pergunta Alex de repente, interrompendo o silêncio desconfortável.
Olho para ele, surpresa pelo interesse repentino. Embora seja claramente uma pergunta de cortesia, a preocupação com o jantar está latente em ambos.
— Sim, já está tudo organizado. Respondo. — Tenho um encontro com os estilistas em casa em duas horas e o vestido que você me deu chegou, obrigada. Acrescento ainda surpresa por encontrar aquele pacote sobre a cama.
Alex acena com a cabeça, mas não parece totalmente satisfeito. Deixa o jornal sobre a mesa e cruza os braços, observando-me com uma intensidade que me incomoda.
— Lembre-se que este jantar não é apenas um evento social. Ele diz com um tom mais sério. — Todos estarão nos observando, nos julgando. Eles têm que acreditar que este casamento é real, que funcionamos como um casal. E esse presente... é só um detalhe para que você fique bem e tire o luto. Não pense outra coisa.
Solto um suspiro interno. Sempre a mesma coisa. Alex não perde a oportunidade de me lembrar que, para ele, tudo isso é um simples acordo, uma farsa. Um trâmite que devemos cumprir para o bem da herança, para o controle das empresas. Mas o que mais me frustra é como ele se recusa a reconhecer que, apesar de tudo, estamos mais conectados do que ambos gostaríamos de admitir.
— Eu sei. Respondo sem me intimidar. — Farei o que for preciso para que todos acreditem que este é um relacionamento normal.
Alex me olha em silêncio por alguns segundos antes de se levantar bruscamente. A sua cadeira range contra o chão, quebrando a tensão do momento. Ele coloca o paletó do terno e se dirige para a porta sem dizer mais uma palavra.
— Nos vemos no jantar. Ele diz sem me olhar, e desaparece da sala de jantar.
Fico sentada, observando a porta se fechar atrás dele, com a sensação cada vez mais avassaladora de que Alex é um enigma impossível de decifrar. Conseguiremos nos dar bem algum dia? É tão intenso o seu ódio por mim que não percebe que eu não sou sua inimiga? Quantas vezes mais poderemos manter essa fachada antes que a tempestade emocional que se aproxima nos devore a ambos?
A tarde passa com uma lentidão exasperante. Enquanto os estilistas cuidam do meu cabelo e da maquiagem, o relógio avança para a hora do evento e o meu nervosismo aumenta, assim como o nó na minha barriga.
Não posso ne*gar que o vestido que Alex me deu é simples, mas elegante, de um azul-escuro que contrasta com a minha pele pálida. Finalmente, prenderam o meu cabelo num coque baixo, deixando algumas mechas soltas ao redor do meu rosto para suavizar a expressão, e finalizaram com uma maquiagem delicada que combina com a cor do vestido. Quando terminam de me arrumar, observo o meu reflexo no espelho. Pareço calma por fora, mas por dentro a minha mente é um turbilhão.
Um toque suave na porta me faz virar.
— Sim? Perguntei, com a voz embargada pelo nó que se formava na minha garganta.
A porta abre-se lentamente e Alex aparece no limiar, vestido com um terno preto que realça as suas feições angulosas e o seu ar de autoridade. Ao me ver, ele fica em silêncio por um momento, os seus olhos me percorrendo de cima a baixo com uma mistura de admiração e desconfiança.
— Está pronta? Sabia que não me enganaria com o vestido. Ele diz, mais como uma constatação do que como um elogio. A sua voz é baixa, quase rouca, e não consigo evitar notar o leve brilho nos seus olhos, embora ele rapidamente o esconda.
Sento-me, tentando parecer calma.
— Sim. Você também?
Alex dá um passo para dentro, fechando a porta atrás de si. Ele fica de pé na minha frente, tão perto que consigo sentir a sua colônia, uma mistura sutil de cedro e almíscar. Observa-me em silêncio por alguns segundos que parecem eternos.
— Lembre-se. Ele murmura, a sua voz mais suave do que o normal. — Esta noite, tudo é uma atuação. Não se deixe levar pelo que os outros pensam. Só siga o roteiro.
Franzo a testa, confusa com a proximidade repentina e a mudança no seu tom. Algo nele parece diferente, mas não tenho certeza do que é. No entanto, concordo.
— Eu sei. Podemos fazer isso.
Alex me olha nos olhos por mais alguns segundos, como se procurasse algo dentro de mim, antes de se afastar bruscamente.
— Nos vemos lá embaixo. Ele diz, virando-se para sair do quarto.
Fico parada, olhando a porta se fechar atrás dele. O meu coração bate forte no peito, mas não tenho certeza se é pela tensão do jantar ou pela estranha conexão que, por um instante, pareceu surgir entre nós.