Voltamos para a mansão. Ambos saímos do veículo em silêncio.
Lá fora, a noite está gelada e, embora, num gesto de cavalheirismo por parte de Alex, eu esteja usando o casaco dele sobre os ombros, está frio, então, ao passar pela soleira da porta, fico parada em frente à lareira, observando o fogo com uma sensação de vazio crescente.
Apesar de tudo, o evento tinha corrido à perfeição, mas a carga emocional de manter a farsa está começando a passar-me a conta. As suas mudanças de humor me desestabilizam. Por momentos, ele é um iceberg de frieza, impossível de penetrar e ver além dos seus olhos, e por outros, é uma pessoa vulnerável, que sofreu. Já não sei o que esperar dele e isso me deixa em suspense continuamente.
Alex está nervoso. Posso notar como ele se move pela sala com sua graça habitual, sem emitir nenhum som. Não disse uma palavra desde o seu último comentário mordaz dentro do carro e sinto que esse silêncio aparente é apenas a superfície de uma tempestade interior. A forma como ele me observou durante a noite e o momento intenso dentro do veículo, quando pensei que ia me beijar, me deixou muito inquieta, impossível de disfarçar.
— Você está bem? Pergunta Alex, quebrando o silêncio. O seu tom é baixo, mas carregado de uma preocupação que me confunde.
Este momento de vulnerabilidade me pega de surpresa.
— Sim. Minto, embora saiba que ambos podemos perceber a falsidade na minha resposta.
Alex se aproxima mais alguns passos. O som dos seus sapatos ecoando pelo chão de madeira interrompe o silêncio da sala. Agora ele está a poucos metros de mim, perto o suficiente para que eu sinta a sua presença avassaladora. Ele me olha diretamente, os seus olhos escuros buscam algo em mim que não consigo descrever.
— Você está? Insiste, a sua voz desta vez mais grave, quase um sussurro. Os seus olhos continuam fixos nos meus, desafiando-me a dizer a verdade.
Naquele instante, cruzo os braços, como se assim pudesse me proteger da intensidade da situação. Algo dentro de mim se contorce. Aquela sensação de estar presa numa tempestade que não consigo controlar.
— Não, não estou. Admito finalmente, soltando um longo suspiro. Sob o olhar, sentindo que o peso da farsa está começando a me esmagar.
Alex assente lentamente, como se estivesse esperando por essa resposta. O seu olhar suaviza por um instante, mas logo retoma aquele ar distante que tanto caracteriza o seu trato comigo.
— Isso não é fácil para nenhum de nós dois. Ele diz, aproximando-se um pouco mais. A sua voz fica mais baixa, mais pessoal. — Mas devemos lembrar o que está em jogo.
Olho para ele, sentindo um acúmulo de emoções que nunca havia experimentado antes. Eu tinha assumido que Alex me odiava, que me desprezava pelo meu papel na vida de Fernando, e por muito tempo eu mesma cultivei um profundo ressentimento em relação a ele. No entanto, em momentos como este, em que Alex se mostra mais humano, é difícil manter essa hostilidade.
— Eu sei. Respondo, tentando ver além... tentando ver se é o verdadeiro Alex quem, por momentos, aparece, deixando para trás o frio e calculista. — Mas isso não torna mais fácil suportá-lo.
Ele franze a testa e, por um breve instante, parece estar prestes a dizer algo mais, algo importante. Mas ele para, como se estivesse lutando com as suas próprias emoções. Apesar da proximidade física entre nós, há um abismo que nos separa, um abismo construído pelo rancor, desconfiança e os segredos que ambos guardamos.
— Há mais coisas do que qualquer um de nós quer admitir. Diz Alex num murmúrio, como se estivesse a falar mais para si mesmo do que para mim.
Sinto um arrepio percorrer a espinha. A natureza das suas palavras só aumenta a sensação de que há algo mais que não foi revelado. Alex sempre foi um homem difícil de ler, e este momento não é exceção. Ainda assim, há algo na maneira como ele me observa, algo que sugere que, apesar das nossas diferenças, há uma conexão subjacente que nenhum de nós dois quer reconhecer.
— O que você quer dizer? Perguntei, dando um passo em direção a ele, desafiando-o a ser mais claro.
Alex permanece em silêncio por mais alguns segundos, antes de desviar o olhar para o fogo.
— Só que, às vezes, as coisas não são como parecem. Responde enigmaticamente.
Agora sou eu quem franze a testa, frustrada com a sua ambiguidade. Estou prestes a insistir para que ele seja mais direto, quando ele dá um passo para trás, afastando-se novamente.
— Deveríamos descansar. Ele diz, mudando de assunto bruscamente. — Amanhã será um dia longo.
Concordo lentamente, embora sinta que a conversa ficou inconclusa.
Mas por mais que eu tente, as horas passam e sou incapaz de conciliar o sono. As palavras de Alex continuam a ressoar na minha cabeça. Às vezes, as coisas não são como parecem. O que você quis dizer com isso? Ele estava insinuando que havia algo mais por trás de tudo isso, algo que eu não sei?
A minha relação com ele foi complicada desde o início. Ele me considerava uma intrusa na sua vida, alguém que havia chegado para destruir o equilíbrio que ele tinha com o pai. Mas, por acaso, havia mais por trás da sua hostilidade?
Finalmente, levanto-me da cama, incapaz de suportar a confusão que sinto. Saio para o corredor em silêncio, caminhando descalça pela madeira fria enquanto a minha mente continua a girar. Ao passar perto do escritório de Fernando, a porta está entreaberta, e uma luz fraca filtra-se pela fresta.
Paro, sentindo um nó na garganta. Não entrava naquele escritório desde que Fernando faleceu. Aquele lugar está cheio de lembranças, de promessas não cumpridas e de segredos. A curiosidade me consome, e embora uma parte de mim saiba que não deveria, dou um passo em direção à porta e a empurro lentamente.
O cheiro de couro e madeira me envolve imediatamente, e o ar parece pesado, como se as paredes guardassem o peso das decisões que foram tomadas naquela sala. Observo o quarto em silêncio, sentindo-me intrusa num lugar que, de alguma forma, nunca foi meu.
Mas algo na mesa chama a minha atenção. Um envelope marrom, selado e sem abrir, repousa sobre a mesa de mogno. O meu nome está escrito à mão na frente, com a caligrafia elegante e firme que reconheço imediatamente: é do Fernando.
Com o coração na garganta, pego o envelope e o abro com mãos trêmulas. Tiro uma carta, e enquanto os meus olhos percorrem as primeiras palavras, sinto que o meu mundo cambaleia.
Fernando sabia mais do que me tinha dito. E, de alguma forma, a sua carta contém as respostas a todas as perguntas que me atormentaram desde a sua morte.