A manhã seguinte chega com uma sensação de inquietação que pesa sobre os meus ombros. O dia anterior mudou o rumo da minha vida e agora, enquanto me visto diante do espelho, sinto que a minha realidade deu uma reviravolta irreversível. O vestido que escolhi é simples, de um tom creme que realça a palidez da minha pele. Hoje não é um dia para celebrações, mas também não é para descuidar. Não sei quando voltarei a me sentir segura novamente, mas estou decidida a enfrentar o que vier com a maior dignidade possível.
Alex chega pontual ao escritório do advogado, como se fosse mais um dia na sua rotineira vida empresarial. Ele, por outro lado, veste-se com uma elegância imponente, um terno cinza-escuro sob medida que acentua a sua figura. Ao entrar no escritório, os seus olhos encontram-me frios e calculadores. Por um instante, sinto um arrepio percorrer a minha coluna. O ar entre nós continua carregado de tensão, como se o ódio latente tivesse se instalado entre nós dois de forma permanente.
— Espero que esteja pronta para isso. Diz Alex com o seu tom habitual de desprezo, enquanto se acomoda na cadeira em frente à mesa do advogado.
Sento-me sem dizer uma palavra. Não confio na minha própria voz para responder com calma, e os olhares que Alex me lança só aumentam o meu nervosismo. No entanto, não é o momento de demonstrar fraqueza.
— Bem. Interrompe o advogado, quebrando a tensão com a eficiência fria de um homem acostumado a lidar com disputas familiares.— Como sabem, estão aqui para formalizar o seu casamento. Legalmente, será válido por um ano, conforme as cláusulas do testamento de Fernando. Após esse tempo, poderão solicitar o cancelamento, se assim desejarem.
O advogado tira uma pilha de documentos da maleta que está sobre a mesa. As folhas parecem intermináveis, cheias de termos legais que para mim só soam como correntes invisíveis. Alex as assina sem hesitar, como se estivesse assinando um contrato de rotina, enquanto eu pego a caneta com um leve tremor nos dedos. Este simples ato, o traço da minha assinatura no papel, marca o início de algo que nunca pensei viver.
Quando finalmente o último papel é assinado, o advogado levanta-se e observa-nos com um sorriso cortês, mas vazio de verdadeira emoção.
— Meus parabéns. Agora são legalmente marido e mulher.
A frase ressoa na minha cabeça. Marido e mulher. Nada poderia estar mais longe da realidade. Alex nem sequer olha para mim ao sair do escritório, deixando-me para trás como se tivéssemos acabado de fechar um simples negócio. Sigo-o em silêncio, sentindo o peso da frieza com que ele me trata. Ambos entramos no carro que nos levará à mansão, mas a viagem transcorre num silêncio desconfortável que nenhum dos dois parece disposto a quebrar.
Ao chegar à imponente mansão que um dia foi meu refúgio junto com Fernando, sinto-me deslocada. A casa, que costumava ser um lar acolhedor, agora parece mais uma prisão. Alex entra primeiro, os seus passos ecoando no mármore polido do saguão. Eu o sigo, mas não consigo evitar sentir-me como uma estranha na minha própria vida.
— Espero que não esteja esperando uma recepção de casamento. Diz Alex, enquanto deixa a sua maleta sobre uma das mesas próximas. — Isso não é mais do que uma formalidade. Você dormirá no quarto de hóspedes e, durante este ano, não haverá mais interação entre nós além da estritamente necessária. Não me interessa ter você por perto.
Eu olho para ele em silêncio, tentando fazer com que as suas palavras não me afetem. Aprendi a lidar com o desprezo dele, mas, no fundo, dói mais do que eu quero admitir. Não consigo entender como uma pessoa pode ser tão cr*uel, tão implacável no seu ódio.
— Não esperava menos de você. Respondo calmamente. — Não quero fingir algo que não sou. Só quero cumprir o que Fernando deixou estipulado e depois seguir com a minha vida. Não se preocupe, não vou interferir na sua.
Alex me olha por um momento, os seus olhos escuros cheios de desconfiança. Parece estar procurando algo na minha expressão, algum sinal de engano, mas finalmente desvia o olhar com uma careta de desprezo.
— Muito bom. A sua voz é cortante, quase desdenhosa. — Então, nos entendemos.
Me viro e dirijo-me para as escadas que levam aos quartos. Os meus passos são lentos, como se o peso da situação estivesse me afundando a cada passo que dou. Quando chego ao quarto de hóspedes, fecho a porta atrás de mim e me jogo na cama. O lugar é frio, impessoal, apesar de ser um dos quartos mais luxuosos da casa.
Percorro o quarto com o olhar, notando os detalhes que Fernando havia projetado com tanto esmero. Cada canto desta casa tinha o seu toque, seu estilo. Agora tudo parece vazio, despojado de qualquer calor. Deito-me na cama, olhando para o teto, sentindo uma profunda solidão apoderar-se de mim.
Os dias passam lentamente. Alex quase nunca está na mansão. Passa a maior parte do tempo no escritório ou viajando. Quando ele está em casa, me ignora completamente. Mantemos as aparências quando necessário, como nas reuniões com o advogado ou diante dos funcionários da casa, mas, de resto, é como se vivêssemos em mundos separados.
O único lugar onde encontro um pouco de paz é no jardim dos fundos da mansão, onde Fernando havia construído uma estufa. Ali passo horas cuidando das plantas que meu marido tanto amava, perdendo-me no aroma das flores e na tranquilidade que a natureza me proporciona.
Uma tarde, enquanto estou na estufa, Alex aparece sem aviso prévio. Os seus olhos me observam com uma intensidade que me desconcerta. Ele parece tenso, como se algo o estivesse corroendo por dentro.
— O que você está fazendo aqui? Ele pergunta com frieza.
Olho para ele, surpresa pelo seu tom acusador.
— Só estou cuidando das plantas. Fernando costumava passar muito tempo aqui, é... relaxante.
Alex franz o cenho, como se as palavras "Fernando" e "relaxante" não pudessem estar na mesma frase.
— Você não pode continuar vivendo no passado, Sofia. Meu pai não está mais aqui. Isso é apenas um jardim.
Sinto um nó se formar na minha garganta. Para mim, este lugar é muito mais do que um jardim. É uma das últimas lembranças tangíveis da minha vida com o Fernando, mas sei que tentar explicar isso para o Alex seria inútil. Ele nunca entenderá o que Fernando significou para mim, e o que este lugar significava.
— Não estou vivendo no passado. Respondo suavemente. — Só tento lidar com isso da melhor maneira que posso.
Alex me olha por mais alguns segundos, como se estivesse avaliando as minhas palavras, e então se vira, pronto para ir embora. Mas antes de ir, ele diz algo que me deixa gelada.
— Isso não passa de uma farsa, Sofia. Não se esqueça que quando tudo terminar, você e eu ainda seremos inimigos.
As palavras pairam no ar muito depois de ele ter ido embora. Fiquei na estufa, olhando as flores com uma sensação de tristeza profunda. Não sei por quanto tempo conseguirei suportar essa situação, mas tenho certeza de uma coisa: não vou permitir que Alex me destrua.