O interrogatório… bom, foi tranquilo dentro do possível.
Mas o que realmente me dilacerava por dentro eram as p************s, arrogantes e calculadas daquele homem c***l, Arnaldo.
Como eu poderia me afastar do Marcelo?
Se ele já era meu mundo inteiro?
Se Arthur já corria pela casa gritando “meu amigãozão”?
Era impossível.
Mas doía pensar que eu poderia ser a razão de tudo desmoronar.
Eu sabia o quanto Marcelo suou, o quanto ele enfrentou, o quanto se blindou do mundo pra chegar onde chegou.
E agora... eu era o motivo de sua possível queda?
Não.
Não podia ser.
Tomei um banho longo, daqueles que a gente se apoia na parede pra não desmoronar.
O chuveiro quente batia nas minhas costas, mas a dor vinha de dentro.
O silêncio gritava. A culpa pesava. O medo sufocava.
Enrolei o cabelo numa toalha, me vesti devagar, e sentei na beira da cama.
Não aguentei.
Peguei o celular e disquei.
- Fala, minha deusa, tava sumida! - Jaqueline atendeu no segundo toque, sempre animada.
Minha voz saiu baixa.
- Preciso falar com você…
Ela ficou em silêncio um segundo, mas entendeu na hora.
- Tô indo aí. Agora!
Uma hora depois, ela chegou. Me abraçou, me olhou de cima a baixo e disse:
- Tá com uma cara péssima. O que tá acontecendo, Bruna?
Respirei fundo, sentindo a garganta arder.
- Aquele tal de Arnaldo… o chefe do Marcelo.
- O brutamontes da delegacia? O armário? O tanque de guerra?
Assenti, sem graça. E deixei sair tudo de uma vez, num jorro de angústia:
- Ele me chamou pra uma conversa antes do interrogatório.
Falou que se eu amava o Marcelo de verdade…
tinha que sair da vida dele.
- O QUÊ?! - ela se levantou da cadeira, incrédula.
- O que ele te disse, Bruna?
- Que eu sou o motivo da ruína do Marcelo. Que ele nunca trouxe mulher nenhuma pra perto, que nunca perdeu o foco. Que a carreira dele tá em risco. E que eu sou uma mulher ‘como eu’... - engoli seco. - E que se eu tivesse dignidade, sumia da vida dele antes que ele se afundasse comigo.
Jaqueline estava em choque. Os olhos marejados, o rosto em fúria.
- Você tá brincando comigo. Isso é crime! Isso é abuso de poder!
- Ele falou que Marcelo não pode saber da conversa.
- E você vai obedecer? Bruna… olha pra mim. Você tá mesmo pensando em sair da vida do cara que te ama e ama o seu filho por causa de um tirano machista com ego inflado?
Eu não respondi.
Só chorei.
Porque meu coração dizia não, mas o medo… o medo grita mais alto que o amor às vezes.
- Ele não merece pagar por algo que ele não fez, Jaque…
e eu também não suportaria ser a pedra no sapato dele.
- Bruna, você é o colo, não a pedra.
Você é a calma dele.
Você é o lar que ele nunca teve.
E o Arthur… o Arthur é a prova viva de que o Marcelo quer mais do que só uma noite contigo.
Me joguei no colo dela, como uma criança.
- Eu tô com medo, amiga. Tô com tanto medo…
- E eu tô aqui.
E ele também.
E se esse Arnaldo achar que pode destruir o que vocês estão construindo… ele não conhece a força de uma mulher que ama de verdade.
Ficamos abraçadas ali por longos minutos.
Porque às vezes, a gente só precisa de alguém que olhe pra gente e diga: você não está sozinha.
Embora Jaqueline tivesse razão em tudo o que disse,
eu sabia que…
talvez a minha maior prova de amor por Marcelo…
fosse justamente desistir dele.
Talvez amar seja também saber sair de cena.
Fechei os olhos, tentando empurrar pra longe o pânico que batia no meu peito.
Era como se um aperto invisível estivesse fechando minha garganta.
- Não conta pra ninguém, Jaque… por favor. Nem pro Marcelo. - pedi, com a voz fraca.
Ela franziu o rosto, se virou de costas, mas não respondeu.
Sabia que estava indignada, mas no fundo… entendia meu medo.
Quando ela foi embora, a casa pareceu ainda mais silenciosa, ainda mais sufocante.
Minha cabeça girava, os pensamentos batendo como marteladas.
Como contar pra ele? Como dizer que fui ameaçada?
Que me pediram pra sair da vida dele?
Que talvez ele tenha que escolher entre mim e a carreira?
E pior...
Pra onde eu iria?
O barraco na favela… já era.
Tinha sido invadido logo após a mudança.
Ali não era mais seguro, nem mais meu.
Meu Deus, eu vou morar na rua com meu filho?
As mãos começaram a suar. A respiração acelerou.
Senti minha cabeça latejar.
Eu estava à beira de um surto.
Me deitei. Fiquei em silêncio.
Encolhi o corpo sob o lençol como se aquilo pudesse esconder a bagunça dentro de mim.
Fechei os olhos, mas o sono não vinha.
O quarto estava escuro…
e só o som do trinco da porta me despertou da confusão interna.
Antes mesmo de levantar, senti um peso leve pular na cama.
- MAMÃE!
Era ele.
Meu menino.
Arthur.
Se agarrou ao meu pescoço, me encheu de beijos e riu alto.
E ali… ali eu senti tudo.
O amor. A culpa. O medo.
A coragem misturada com o desespero.
- Meu Deus, o que eu vou fazer? - sussurrei, apertando ele forte.
Marcelo entrou logo atrás, com aquele olhar cansado… e ainda assim, tão cheio de vida quando olhava pra mim.
E eu pensei:
Os próximos dias não serão fáceis.
Aliás, vão doer.
Vão ser um teste.
Talvez eu precise mentir, me afastar, inventar desculpas.
Mas o que mais vai me doer… é seguir sorrindo enquanto tudo em mim estará morrendo.
Sim…
os dias que viriam seriam de desafio.
Mas também seriam dias de escolhas.
E mesmo que me custasse tudo…
eu estava pronta pra proteger aqueles que eu mais amava.