CAPÍTULO 28

1336 Words
Eu já estava aflita. Não sabia dizer porquê exatamente… talvez por tudo. Talvez pela saudade, talvez pela intuição de mulher. Mas a verdade é que quando falamos e ele disse: “precisamos conversar”, meu estômago embrulhou. E cadê esse homem que não chega nunca? Arthur dormia tranquilo no quarto, eu já tinha revirado o cabelo três vezes, andado pela casa igual barata tonta. Ouço os passos dele no corredor… e quando a chave gira, meu coração vem na boca. Quando ele abre a porta, não penso. Só vou. Corro. Me jogo. Me penduro. Me sinto uma menininha apaixonada, dessas que sorriem de olhos fechados. Mas ele precisava de banho. E eu precisava me acalmar. Deixei ele ir. Enquanto isso, aqueci a jantinha, ajeitei a mesa… e tentei fingir que não estava esperando o pior. Logo ele aparece na porta da cozinha. Só de toalha, aquele corpo úmido e aquele olhar que me desmonta. - Esse cheiro tá bom demais… Tô com uma fome daquelas. Sorrio, tentando parecer natural, mas não aguento. - Marcelo… Você disse que queria conversar… O que é? Ele para. Sério. Percebo o olhar dele varrendo o ambiente, depois pousando em mim com cuidado. Ele sabe. Ele sempre sabe quando eu tô tremendo por dentro. Ele se senta e estende a mão por cima da mesa, com calma. - Amanhã… você vai ser chamada pra prestar depoimento. Sinto o chão sumir. Literalmente. Engulo em seco. - Eu? Mas… mas eu não tenho nada com isso mais, Marcelo! Eu já saí daquela vida, eu só queria paz, só queria cuidar do meu filho. Ele aperta minha mão, sem força, mas com firmeza. - Ei. Calma. Bruna, olha pra mim. Levanto os olhos devagar, e os dele são abrigo. - Você não tá sendo investigada. Você é uma peça importante, só isso. Conviveu com Canário, sabe coisas que podem ajudar a derrubar ele e proteger você e o Arthur. - E se acharem que eu tava envolvida? E se me julgarem? Eu tenho medo… Ele se levanta, vem até meu lado na minha frente, com a toalha ainda enrolada na cintura e aquele rosto de pedra transformado em ternura. - Você não tá sozinha, Bruna. Eu vou estar lá. Arnaldo também. Você vai ser ouvida com respeito. E quando sair de lá… vai ser ainda mais livre do que já é. Sinto as lágrimas nos olhos. Ele beija minha mão, como se selasse uma promessa. - Confia em mim? - Confio. - digo baixinho, entre lágrimas. Ele sorri de canto. - Então agora me dá minha janta porque esse delegado tá morrendo de fome. Soltei uma risada entre o choro. E soube, ali, que mesmo que o mundo inteiro desabasse… se ele segurasse minha mão assim… eu ficaria de pé. Depois daquela conversa, eu me sentia mais leve. Ainda com medo, claro. Mas quando ele me olhou e disse que tudo ficaria bem… eu quis acreditar. E a verdade? Quando se tem um homem como o Marcelo por perto, é quase impossível não acreditar. Servi o prato dele e sentei ao lado. Ele comeu devagar, mas com gosto. De vez em quando me olhava com aquele sorrisinho torto, como se estivesse agradecendo em silêncio por tudo: pela comida, pelo carinho, pela casa que agora era dele também. Depois, lavamos a louça juntos. Quer dizer, eu lavei, ele secou daquele jeito todo desengonçado que me fazia rir. Aquela era a nossa paz. A primeira em muito tempo. Fomos pro quarto. Arthur dormia feito um anjinho no outro quarto, e nós… Bem, nós só queríamos descansar. Mas juntos. Ele deitou primeiro, de cueca box branca, ainda com o cabelo úmido. Me esperou escovar os dentes, ajeitar as coisas, apagar as luzes. Quando voltei, ele abriu os braços e eu mergulhei neles sem pensar duas vezes. Deitei no peito dele, escutando o som do coração batendo. Calmo. Forte. Como se dissesse: "tô aqui. - Tá com sono? - perguntei baixinho. - Não. Mas tô em paz. - ele respondeu, passando os dedos nos meus cabelos. - Obrigada por cuidar de mim… Ele me apertou mais forte, me cobrindo com o corpo quente e o cobertor. - Não precisa agradecer. É meu dever. É meu prazer. É meu amor. Fechei os olhos. Acho que dormi sorrindo, escutando a respiração dele ficando mais lenta. Às vezes ele se mexia, como se ainda estivesse em alerta, instinto de policial. Mas naquela noite, mesmo com o mundo do lado de fora querendo ruir, o nosso universo cabia entre dois corpos cansados, uma cama quente… e um silêncio que abraçava. O dia amanheceu. E logo estávamos todos em pé. Marcelo dizia que ia dar tudo certo, que o depoimento seria rápido, protocolar, e que depois almoçaríamos com Dona Lúcia. Mas eu sabia. Intuição de mulher sente quando alguma coisa está prestes a desmoronar. Deixamos Arthur com Dona Lúcia, feliz da vida. Marcelo dirigia tranquilo, mão firme no volante, e de vez em quando me olhava e sorria. Aquele sorriso era meu alívio. Mas a sensação de estar indo pro abate não me deixava. Chegamos na delegacia. Ambiente gelado, cheiro de papel e tensão no ar. Foi então que conheci Arnaldo. Senhor Arnaldo, o tal homem de confiança do Marcelo. Ele era um armário humano, com olhos pequenos e cortantes, como faca cega. Quando apertou minha mão, senti que não era recepção. Era aviso. Marcelo me disse que ele me orientaria antes do depoimento. E quando Arnaldo pediu pra falar a sós, olhei pra Marcelo. Ele assentiu, e eu fui. Entrei na sala pequena, sem janelas, só com uma mesa no meio. Ele fechou a porta devagar, sem pressa. Se encostou na parede. Não se sentou. E não sorriu. Fiquei parada no canto oposto. A garganta seca, as mãos geladas. - Vamos direto ao ponto, garota. - ele disse. A voz dele parecia vir do fundo de um porão. - O Marcelo é um dos meus melhores homens. E eu estou prestes a perdê-lo… por causa de uma mulher como você. Engoli em seco. Ele se aproximou lentamente. - Você sabe o que eu vejo quando olho pra você? Problema. Sinal de alerta. Uma tragédia esperando acontecer. - Senhor, eu não... - Cala a boca. Você só escuta. Meu coração batia alto. Doía no peito. - Você já conviveu com bandido, tem tatuagem com nome de traficante. Você carrega esse passado e agora quer enfiar o delegado mais promissor da minha equipe nesse lamaçal? Marcelo é respeitado, condecorado… E você é o tipo de mulher que estampa noticiário de escândalo. Me senti encolher por dentro. - Se você o ama mesmo, como diz, dê um jeito de sair da vida dele. Agora. Enquanto ainda pode. - Eu… não tô aqui pra atrapalhar ninguém… - minha voz saiu fraca, sem força. Ele se aproximou mais. Tão perto que senti o bafo de cigarro misturado com ameaça. - Se esse relacionamento seguir adiante, Bruna, você vai ser exposta. Arthur vai ser citado. E se eu tiver que mover forças pra proteger a reputação de Marcelo… eu vou fazer. Nem que pra isso eu precise te descredibilizar, ou cavar bem fundo o que sobrou da sua dignidade. Meus olhos arderam, mas não deixei cair uma lágrima. Não ali. Não na frente dele. - Essa conversa fica entre nós. O Marcelo não sabe. E não vai saber. Faça a coisa certa. E suma da vida dele. Me calei. Mas por dentro, tudo em mim gritava. Fui chamada de ameaça. De escândalo. De erro. Mas a única coisa que eu sentia naquele momento… era que o maior perigo ali, não era eu. Era ele. Arnaldo abriu a porta com a mesma calma com que a fechou. E quando olhei pro lado, Marcelo ainda conversava com Rafael. Passei a mão no rosto pra retomar minha dignidade que aquele homem havia arrancado naquela sala, respirei fundo e voltei. Porque se tinha algo que a favela me ensinou, era resistir. E hoje… mais do que nunca… eu precisava ser forte.
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