CAPÍTULO 20

1457 Words
Acordei com um aperto estranho no peito. A cama estava fria. Na minha cabeça, ele tinha ido embora. Sem aviso. Sem beijo. Sem despedida. Era a cara dele. Frio, direto, solitário. Meu coração apertou tanto, que precisei fechar os olhos com força. Mas aí... eu ouvi. Risadinhas. Vozezinha fina. Cadeiras arrastando. E o barulho do fósforo riscando o fogão. Levantei devagar, ainda com a camiseta amarrotada, o cabelo uma bagunça e o coração batendo rápido. Fui pé ante pé até a cozinha. E quando cheguei ali, tive que segurar o riso e as lágrimas. Marcelo. Delegado. Carrancudo. Olhar afiado. Estava ali... com uma frigideira na mão e o olhar desconfiado, tentando virar uma fatia de pão com uma espátula torta. Arthur sentado na cadeira, o julgando como um crítico gastronômico. - Você sabe que o pão tá virado do lado errado, né? - Arthur disse, de braço cruzado. Marcelo olhou pra ele com seriedade. - Sou especialista em pão errado. Foi engraçado demais. Mas ao mesmo tempo... eu congelei. Uma parte de mim queria correr, sumir, tirar o menino dali. Porque e se ele achasse que eu tava jogando a responsabilidade em cima dele? Que eu queria que ele fosse pai? Dei um passo pra trás, assustada com meus próprios sentimentos. Mas ele me viu. Me pegou em cheio com o olhar. E foi como se dissesse tudo... sem dizer nada. Quando diz que somos deles. Senti o chão sair. Me derreti. Quis dizer tanta coisa, mas meu corpo só soube calar. Fiquei ali, assistindo os dois comerem e brincar como se tivessem uma rotina de anos. E então... o celular vibrou. Eu conhecia esse homem o suficiente, mesmo com tão pouco tempo pra saber que aquele toque tinha mudado tudo. Vi a expressão dele endurecer. Os olhos perderam o brilho, os ombros pesaram. Fingiu que estava tudo bem. Mas eu vi. Eu sempre veria. Fui até o quarto, troquei de roupa, tirei o pijaminha do Arthur. Quando voltei pra sala… meus olhos queimaram. Marcelo, de pé, colocando o colete preto. Pesado. **DELEGADO ÁVILA.** O distintivo brilhando no peito. A arma na cintura. O homem que, mesmo inteiro de guerra, me fazia desejar a paz dentro dele. Se Arthur não estivesse ali, eu juro por tudo… sentava com força nesse homem. Me aproximei devagar. - Tá tudo bem? - Tá. - ele respondeu, com um meio sorriso. - Coisa rápida. Já volto. - Tem certeza? - insisti. Ele tirou um cartão do bolso e colocou na minha mão. Era de banco. - Vá até o mercado. Compra tudo que você e o pequeno precisarem. - Marcelo, não precisa, não posso aceitar. - Precisa sim. Eu vou voltar. E já que vou ficar por mais tempo… - ele deu um sorriso torto - …também preciso comer, né? Você não quer que eu roube pão de novo. Ri, mesmo com o peito apertado. Vejo que ele anota algo e também me entrega o pequeno papel. - Tome, este é meu número. Para que tudo precisar, não hesite, me ligue. - Promete que volta? Ele me puxou pela cintura. Um beijo leve no canto da boca. Mas com gosto de coisa grande. - Você já sabe a resposta. E saiu. Levando junto o ar dos meus pulmões. A vida tem dessas coisas que ninguém ensina. Eu nunca pensei que fosse passar por isso: um homem me bancando… sem querer nada em troca. Com o Canário, era tudo dívida. Até o que parecia carinho, vinha com cobrança no final. Às vezes precisava “pagar” de formas que me deixavam vazia. Me sentia um objeto de uso momentâneo. Mas com o Marcelo… Marcelo não me pediu nada. Apenas me olhou com aquele jeito de quem já tinha decidido que eu e Arthur éramos parte dele. E isso me confundia. Me desmontava. Fui ao mercado com Jaqueline. Ela já chegou soltando piada: - Ué, virou madame agora, é? - Para, Jaque. É só uma ajuda… - Ajuda que vem com cartão? Mulher, acorda! Isso aí já é quase uma união estável. Caímos na gargalhada. Enquanto Arthur pulava de corredor em corredor, a gente escolhia arroz, feijão, sabão, tudo com cuidado. Mas aí ele parou, colocou a mão na cintura e fez a voz mais fofa do mundo: — *“Mamãe, posso levar esse? - apontando para um pote de Nutella. - Arthur, isso é muito caro… - Mas o tio disse que é pra comprar tudo… — ele rebateu, abaixando a cabeça e fazendo aquele biquinho que desarma qualquer exército. Olhei pra Jaqueline. Ela já ria com a mão na boca. - Leva, Bruna. Se o Marcelo reclamar, você mostra a etiqueta e diz que foi um investimento emocional. Peguei o pote e coloquei no carrinho. Mas mentalmente preparei a justificativa pro “luxo”. E se ele quisesse, eu pagaria. Em dinheiro, viu? Porque nesse caso, nem olhar dele eu queria de cobrança. Depois da compra feita, nos sentamos pra comer um lanche ali mesmo no mercado. Arthur se lambuzando com batata frita, ketchup até no nariz. Foi quando Jaqueline teve a pior ideia do século. - Vamos passar ali naquele sexshop? - disse, apontando com os olhos. - Você tá louca, Jaque? Com Arthur junto ainda? - Mulher, ele tá vidrado no brinquedo dele. Nem nota! Fui empurrada. Literalmente. Entramos. Eu já tava vermelha da cabeça aos pés. E pra piorar, Jaque achou uma calcinha. Preta. Pequena. Com glitter. Até a atendente sugerir que poderia ser colocado um nome ou frase: Não deu outra, a mente perversa de Jaqueline me solta bem alto e bom tom: “DELEGADO ÁVILA” bem no centro em dourado. - Essa aqui! Ele vai infartar, Bruna! Imagina só você de quatro, usando isso. O homem nunca mais volta pra delegacia. - Jaqueline, pelo amor de Deus! - Ah, para! Um agradozinho. Ele merece. Você também. Imagina a cara dele? Na verdade, eu só conseguia imaginar a minha. Queimando. Antes mesmo dele ver. Mas confesso… comprei. Enfiei numa sacola preta. E jurei guardar até esquecer. Mas no fundo, a ideia não era tão absurda. No fundo, uma parte de mim queria mesmo ver o Marcelo perdendo o controle. Só comigo. Voltamos do mercado rindo igual duas adolescentes. Carregamos as sacolas escada acima, e antes de qualquer coisa, deixei o pote de Nutella na mão do Arthur como se fosse um troféu. Ele deu um beijo na minha bochecha e correu pro sofá, abraçando o pote como se fosse um presente de aniversário. - Ele vai querer comer isso até de colher escondido. - Jaque comentou, já indo abrir a geladeira. Começamos a guardar tudo. Sabão em pó, arroz, macarrão, iogurte, as frutas... tudo no lugar. Era a primeira vez que a cozinha parecia cheia de verdade. E por um segundo, eu senti… que aquele lar tava nascendo. Até que lembrei dela. A calcinha. Olhei em volta, como se fosse uma criminosa. Peguei a sacolinha discreta preta, sem marca e andei com ela colada no corpo até o quarto. Abri a gaveta de calcinhas. Olhei pro tecido ousado. Pequena, rendada, com “DELEGADO ÁVILA” estampado sem vergonha nenhuma. - Você é um perigo, sabia? - murmurei baixinho. Enfiei ela num saquinho, depois no fundo da gaveta, debaixo dos sutiãs que nunca uso. Guardei como se fosse uma joia rara. Quando voltei pra sala, ouvi uma batida leve na porta. Era Ayla. - Meninas, com licença… - entrou com aquele sorriso calmo que acalma até terremoto. - Trouxe uma proposta. - Arthur, vem cá! - ela chamou com carinho - A dinda quer te levar pra conhecer uma pessoa muito especial: Dona Lúcia. - Vovó? - ele perguntou, com os olhinhos brilhando. - É, uma vovó do coração. Ele já foi correndo pra pegar o tênis. Eu olhei pra Ayla, confusa. - Tem certeza? - Bruna, minha mãe vai adorar. E acho importante pra ele também. É só uma horinha ou se quiser ele fica conosco hoje e vocês tem um tempo para descansar. Jaqueline como num raio grita da cozinha - Ótimo. Era disso que precisamos, Bruna comprou uma calcinha que vai tombar o grandão lá. - Cala boca Jaqueline. A vergonha me consumiu. Ayla cai na gargalhada. Respirei fundo. Me parecia certo. Mas doía. Era meu menino. E era a primeira vez que ele sairia com outra pessoa sem mim. - Tá bom. - murmurei. - Mas se ele pedir pra voltar, me avisa. - Sempre. - Ayla respondeu, já segurando a mãozinha dele. Arthur deu um tchauzinho animado, sorrindo com todos os dentes. E eu fiquei parada ali. Com Jaque do meu lado, sorrindo. Com o armário cheio. A alma meio cheia também. E a gaveta… uma declaração ousada de amor.
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