3 O preço de um amor proibido

1300 Words
Capítulo 3 Kássia narrando Dizem que o tempo cura tudo. Mas há dores que o tempo apenas ensina a esconder. Meu nome é Kássia, sou mãe da Gabi — minha menina, meu orgulho, minha força. Nossa história nunca foi fácil… e talvez nunca seja. Lembro perfeitamente do dia em que descobri que estava grávida. Fiquei apavorada, mas também com o coração cheio de esperança. Decidi contar pro meu namorado, achando que ele ficaria feliz. Fui até a loja dele, com as mãos suando e um nó na garganta. Mas quando entrei, o mundo desabou. Ele estava com outra. Rindo, abraçado, sem nem imaginar que eu estava ali. Esperei ele sair e fui até o balcão. — Quem é aquela mulher que estava com o Paulo? — perguntei, tentando disfarçar a voz trêmula. — A esposa dele — respondeu o rapaz, sem saber que acabava de destruir o meu chão. Senti o corpo gelar. Tudo ficou embaçado. Fui embora sem olhar pra trás, jurando pra mim mesma que ele jamais saberia da gravidez. Mas o tempo, irônico, me fez mudar de ideia. Quando estava prestes a ter a Gabi, ele acabou descobrindo — e ainda teve coragem de me dizer: — Quem garante que esse bebê é meu? Chorei como nunca. A dor daquele dia ficou guardada comigo por anos. Mesmo assim, ter minha filha foi a melhor decisão que já tomei. Nos primeiros anos foi tudo uma luta: provar que ele era o pai, correr atrás da pensão, sustentar sozinha. Até que um dia olhei pra Gabi e pensei: não preciso dele pra criar você. Arrumei emprego, batalhei, e aos poucos, a vida começou a andar. O tempo passou, e uma amiga — Lidiane — me chamou pra ser sócia dela numa galeria de arte. Foi o início de uma nova fase. Dois anos depois, ela me convidou pra viajar. Eu aceitei. Avisei a Gabi, que logo disse: — Vai tranquila, mãe. Fico na casa das meninas. Ela sempre foi tão independente, quase adulta. Durante a viagem, numa noite no restaurante do hotel, vi um homem. Um pouco mais novo que eu. E foi estranho — uma troca de olhares que me tirou o ar. Coisa de adolescente, pensei. Mas o rosto dele não saiu da minha cabeça. Uma semana depois, no dia da inauguração da galeria, lá estava ele. — Boa noite — disse, se aproximando. — Nos vimos no restaurante, lembra? Senti o coração acelerar. Conversamos, ele elogiou meus quadros, comprou dois. Quando percebi, já tínhamos trocado números. Começamos a nos ver com frequência. Ele era gentil, divertido… parecia sincero. Contei pra Gabi, empolgada. — Mãe, só toma cuidado — ela disse, séria. — Você já se machucou uma vez. — Eu sei, filha. Mas dessa vez é diferente. — Se você está feliz, então tá tudo bem. Só não corre, tá? Ela recusava conhecer ele no início. Dizia que ainda não era hora. Mas o tempo passou, e eu estava apaixonada. Quando completamos quase dois anos juntos, insisti novamente. — Gabi, ele quer te conhecer. — Quando for pra acontecer, vai acontecer, mãe. Só… tem que ter certeza do que sente por ele. Ela falava com uma maturidade que me deixava sem palavras. Mesmo assim, marquei um encontro. Um sorvete no domingo, no shopping. — Tudo bem, eu vou — ela disse por fim. Fiquei radiante. No dia marcado, ela acordou tarde, reclamando de dor de cabeça. — Tá tudo bem, filha? — Estou… só meio angustiada, mãe. Mas pra não te deixar na mão, eu vou. Chegamos ao shopping. Ele se atrasou um pouco. Gabi foi ao banheiro. Logo depois, Isaac chegou, sorridente, segurando um suco. — Cadê sua filha? — Foi ao banheiro — respondi. Quando ela voltou, ele levantou os olhos. Por um instante, tudo parou. O copo tremeu nas mãos dele. Ela ficou pálida, respirando fundo. — Filha, esse é o Isaac, meu namorado. — Oi, Isaac, tudo bem? — disse ela, forçando um sorriso. — Tudo ótimo… e você? — ele respondeu, meio sem voz. — Estou bem, só com ressaca — brincou ela, tentando disfarçar o desconforto. O clima ficou estranho, mas seguimos a tarde conversando. Ele me deixou em casa, e tudo pareceu normal. Até que, mais tarde, ouvi o choro dela no quarto. Entrei preocupada. — O que foi, meu amor? — Estou com dor de cabeça, mãe. Uma dor… horrível. — Ela respirou fundo, com os olhos marejados. — Mãe… você ama mesmo ele? — Amo, filha. Sou a mulher mais feliz do mundo. Ela ficou em silêncio. Respirou fundo. — Amanhã vou pra casa da Ruiva, tá? Não me espera. — Tudo bem, filha. — Sorri. — Depois me manda mensagem. Mas quando fechei a porta do quarto dela, senti um arrepio estranho. Era como se algo tivesse mudado naquele encontro. Gabi Narrando Acordo cedo, mas o sono ainda pesa nos olhos e na cabeça. A dor que senti ontem à noite não era só física — era um nó no peito que insiste em apertar. Tomo um banho demorado, deixo a água cair no rosto como se pudesse lavar as lembranças daquele encontro. Isaac. Só de pensar no nome dele, sinto o estômago revirar. Pego minha mochila, respiro fundo e decidi ir caminhando até a escola. Preciso pensar. Preciso entender o que aconteceu — e o que vou fazer com isso. O vento da manhã é leve, mas minha mente está uma tempestade. Estou tão distraída que só percebo alguém gritando quando escuto: — Gabi! Viro e vejo o Heitor, meu melhor amigo, correndo até mim. — Tá indo sozinha pra escola? — ele pergunta, ofegante. — Estou sim. Preciso pensar em umas coisas — respondo, tentando soar normal. Ele me encara curioso, com aquele olhar que sempre parece enxergar mais do que eu digo. — Posso saber no que tá pensando? Fico em silêncio por alguns segundos. Não posso contar. Não agora. Já basta as meninas saberem demais — e isso já me tira o sono. — Estou pensando em mandar uns currículos, arrumar um emprego... e sair de casa — minto, tentando disfarçar o nervosismo. — Daqui a pouco minha mãe casa, né? E eu ainda estou morando com ela. Heitor me olha desconfiado, mas apenas dá um meio sorriso. — Hum... tá. Se precisar de ajuda, me avise . Seguimos caminhando lado a lado. O silêncio entre nós é confortável, mas minha cabeça não pára um segundo. Quando chegamos na escola, as meninas já estavam lá. — Olha só quem veio de parzinho hoje! — brinca a Mika, com um sorriso travesso. — Que que o Heitor resolveu te acompanhar, Gabi? — Ah, ele me encontrou no caminho — respondo, rindo fraco. — A gente veio conversando, só isso. Você sabe que somos melhores amigos. Mesmo quando ele se afasta, a gente nunca perde o contato. Entramos juntas, e antes mesmo de sentar na sala, ela me olha com aquela expressão séria que não engana ninguém. — Tá com uma carinha estranha, amiga. O que aconteceu? Sinto a garganta apertar. Por um segundo penso em contar tudo — o olhar de Isaac, a sensação estranha, o arrepio que não me deixa desde aquele dia. Mas respiro fundo e desvio o olhar. — Depois te falo, Mika. Agora não. Vamos pra sala. Ela cruza os braços, mas concorda. — Tudo bem. Então faça assim: depois do almoço você vai lá em casa. A gente precisa conversar. Assinto, sentindo o peso do segredo me esmaga por dentro. — Preciso mesmo, senão eu vou explodir… Sento na carteira, olhando pra janela. Lá fora, o dia está lindo — mas por dentro, tudo parece escuro. E quanto mais eu tento esquecer o olhar de Isaac… Mas ele volta. Como se o destino estivesse só começando a brincar.
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