Capítulo 5
Gabi Narrando
Tem coisa melhor do que saber com quem a gente realmente pode contar? Ouvir vocês me faz bem, meninas. Mas esse segredo não vai ficar só entre a gente.
Eu preciso contar pro meu melhor amigo. Hoje mesmo tive que mentir pra ele, e eu odeio mentir.
— Então vou fazer o seguinte — falo, respirando fundo. — Vou guardar isso até ter certeza do que realmente está acontecendo. Se ele vier falar comigo, converso numa boa, mas só se ele tocar no assunto.
Só queria entender o que aconteceu de verdade... Mas chega disso, né? Vamos mudar de assunto.
Priscila abre um sorrisinho malicioso.
— Meninas, sábado é dia de balada! Gabi, chama o Heitor pra ir. Vai que a Mika finalmente resolve ficar com ele, hein?
— Só no meu sonho mesmo pegar aquele gostoso — Mika ri alto. — Aí sim a gente ia se divertir de verdade!
— Vocês não prestam, sério — rio também, balançando a cabeça. — Vou ver com minha mãe se posso ir. E mudando de assunto, estou pensando em mandar uns currículos.
Preciso arrumar um emprego logo... Não aguento mais ficar em casa vendo aquelas cenas.
Quando chego em casa, minha mãe tá toda animada na cozinha.
— Mãe, o que tá fazendo tão animada assim?
— Estou preparando um jantar. Ele já tá pra chegar — responde, sorrindo.
— Ele quem?
— Meu amor — diz com aquele brilho nos olhos.
Meu estômago embrulha. Uma parte de mim quer fugir, outra quer entender o que sente.
— Ah... tá. Vou deitar um pouco então.
— Nada disso, mocinha. Você vai jantar com a gente — fala, apontando a colher pra mim.
— Tá bom, mãe. Só vou trocar de roupa. Me chama quando tiver tudo pronto.
Fecho a porta do quarto e suspiro. Não acredito que ele vai vir aqui de novo. E pior: não sei se quero que ele venha. Meus sentimentos são um labirinto — e se o que sinto não for amor, mas uma fantasia perigosa? E se minha mãe descobrir? Será que vai me perdoar?
Esses pensamentos me acompanham até eu pegar no sono.
Isaac
Passei o dia atendendo clientes, fechei um novo contrato e voltei pra casa exausto.
Deitei no sofá, tentando relaxar, mas a cabeça não parava. Penso na minha viagem com minha namorada... e, do nada, o rosto da Gabi me invade.
O que eu estou fazendo? Só posso estar ficando louco.
Por que logo ela tinha que ser filha dela? Por que sinto isso por você, Gabi? Eu não posso…
O celular vibra, me tirando dos pensamentos.
— Oi, amor.
— Oi, querido — ela responde animada.
— O que vai fazer mais tarde?
— Nada, por quê?
— Quero fazer um jantar hoje. Você vem?
— Claro — respondo rápido, sem pensar.
— Sua filha não vai achar r**m?
— Imagina. Ela vai jantar com a gente.
Ela desliga antes que eu diga qualquer coisa. Fico encarando o teto, tentando entender o que está acontecendo comigo. Penso nas duas, e a culpa me corrói. Tenho que decidir... uma hora isso vai explodir.
Quando vejo, já são seis da tarde. Pulo do sofá, tomo banho, passo perfume e saio. O jantar é às sete e quarenta. No caminho, o coração dispara — e não é por causa dela. É por causa da filha.
Gabi
— Acorda, menina! Já são seis e vinte! — minha mãe me sacode.
Levo um susto.
— Nossa, mãe! Tá cedo ainda!
— Cedo nada. Vai se arrumar, ele já tá vindo.
Entro no banho e tento me distrair. Coloco um vestido leve, short por baixo, salto e uma maquiagem bem simples.
— Mãe, como eu estou? — pergunto, aparecendo na sala.
— Uma princesa — ela diz, emocionada.
Quando o interfone toca, o coração quase sai pela boca. Ele entra com um buquê de flores e uma caixa de chocolates. Sinto uma pontada de ciúmes e disfarço, mexendo no celular.
— Gabi, vem aqui cumprimentar o Isaac
— minha mãe chama.
Vou até ele. Ele me olha dos pés à cabeça, com aquele sorriso de canto.
— Tá linda.
— Obrigada — respondo, tentando parecer natural, mas minha voz falha um pouco.
Enquanto minha mãe organiza a mesa, lembra de algo.
— Esqueci a Coca-Cola! Gabi, fica fazendo sala pro Isaac. Já volto.
— Tá bom, mãe.
Assim que a porta se fecha, o ar pesa. Vou até a pia pegar um copo d’água, mas percebo que ele se aproxima. O perfume dele me envolve, e minhas mãos tremem.
— Melhor você ficar longe — murmurou. — Se minha mãe subir agora, vai achar estranho.
— Ela não tá aqui — ele diz baixo, se aproximando ainda mais. — Me diz que você também sente isso... mesmo que seja errado.
— Eu não estou sentindo nada, Isaac. Não faz isso — tento recuar, mas ele toca meu rosto. O toque dele me paralisa.
— Por que você falou pra eu te esperar? Que quando voltasse ia me procurar... e agora tá com a minha mãe?
Ele desvia o olhar.
— Eu não sabia que ela era sua mãe. Juro. Eu não sabia que ia gostar dela.
Ele se aproxima mais, os rostos quase se tocam. O coração dispara. Eu tô prestes a...
O celular toca.
Me afasto num pulo, atendo no viva-voz.
— Alô?
— Alô, minha vida, tudo bem? — é o Heitor.
Meu corpo inteiro relaxa.
— Oi, amor. Tudo sim, e você?
— Estou bem. O que tá fazendo?
— Jantando com a minha mãe.
— Queria te ver. Posso ir?
— Claro, amor. Vem — respondo, sem pensar.
Olho pro Isaac, que agora me encara com raiva. Não digo nada. Talvez seja melhor assim.
Minha mãe chega logo depois, sorridente. Heitor entra, me dá um abraço apertado e cumprimenta o “namorado” dela. Mas percebo seu olhar em mim — algo nele muda.
— Gabi, depois do jantar, a gente precisa conversar — diz ele, em tom sério, com os olhos fixos nos meus.
— Mãe, posso ir na casa do Heitor depois?
— Pode, claro. Eu ia adorar se vocês dois ficassem juntos um dia — ela brinca.
— Mãe, pára com isso. O Heitor é só meu melhor amigo.
Isaac ri.
— Achei que fosse seu namorado.
— Não — sorrio sem graça. — Só meu melhor amigo mesmo.
Minha mãe ri junto.
— Conheço o Heitor desde pequeno. Se não vai ser meu genro, vai ser quase um filho.
Jantamos, e tudo parece normal... mas a tensão entre os olhares não passa despercebida. Quando termino, me despeço rápido e saio com o coração acelerado.
No caminho, só consigo pensar:
Se eu continuar fugindo, vou perder quem me ama. Mas se eu encarar, posso destruir tudo.