Capítulo 6
Gabi Narrando
Chegamos na casa do Heitor e fomos direto para o jardim. O vento era morno, mas meu peito parecia gelado por dentro. O céu estava meio rosa, meio laranja... bonito demais pra combinar com o que eu estava sentindo.
A gente se jogou no banco de madeira. Ele foi buscar um suco. Quando voltou, ficou me olhando como se estivesse tentando ler dentro de mim.
— Lembra quando a gente começou a conversar? — ele murmurou, braços cruzados. — Eu disse que você seria minha melhor amiga. A gente prometeu nunca mentir um pro outro. Nunca.
Eu abaixei os olhos.
— Lembro.
— Então por que você mentiu pra mim hoje?
O suco arranhou minha garganta quando engulo.
— Do que você tá falando, Heitor?
— Eu perguntei no que você tava pensando. E você jogou qualquer coisa. Eu deixei passar... mas eu vi no seu olhar. Você tava guardando alguma coisa.
Meu coração apertou. Era agora.
— Tá. Eu vou te contar. Mas promete que fica só entre nós cinco?
— Cinco? — Ele franziu a testa.
— Eu, você e as meninas. Minhas três melhores amigas. — Tentei rir, mas minha voz falhou.
Ele sorriu de canto.
— Fechado. Mas depois que você falar o seu... eu falo o meu. Só meu. Só seu.
— Heitor, você tem um segredo?
Ele ficou meio vermelho. Quase menino.
— Tenho... e é grande.
— Então senta. Porque o meu também é.
Contei tudo. Cada detalhe. Cada sensação. Cada medo.
Quando terminei, o rosto dele estava branco.
— Gabi... isso pode machucar muita gente.
— Eu sei. — Minha voz saiu baixa. — Por isso eu não vou fazer nada. Por enquanto.
Ele respirou fundo, quase rindo de desespero.
— Quando eu te liguei mais cedo, eu te salvei, sabia? Se sua mãe tivesse entrado naquela sala cinco minutos antes...
Eu tampei o rosto com as mãos, rindo e quase chorando junto.
— Nem fala. Eu teria desmanchado no chão.
Ele me puxou pelo braço, me olhando sério, firme.
— Se isso machucar você... ou se alguém te machucar... você me avisa primeiro. Eu resolvo.
A forma como ele disse aquilo fez meu estômago se virar.
— Prometo.
— Agora é minha vez. — Ele respirou fundo. — E meu segredo... você não pode contar pra ninguém. Nem pras meninas.
Meu peito gelou de novo.
— Prometo, Heitor.
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Isaac Narrando
Essa semana foi exaustiva, mas estar com a Kássia era o que eu precisava. Pelo menos, era o que eu deveria querer sem pensar em mais nada.
Mas toda vez que eu fechava os olhos… eu lembrava dos dela.
Os olhos da Gabi.
E isso estava errado. Completamente errado. Eu sabia.
Fui buscar a Kássia no trabalho. Ela me abriu um sorriso que deveria ter sido suficiente pra preencher o meu peito. Mas não foi. E eu odiei isso.
Quando chegamos na casa dela, a Gabi estava no meio da sala, cantando alto:
“Me apaixonei pela pessoa errada…”
A música bateu em mim como um soco.
No mesmo instante, ela me viu.
Os olhos dela travaram nos meus.
Só por um segundo. Mas foi o suficiente.
Ela ficou sem ar. Eu também.
Ela correu para abaixar o som, tentando parecer despreocupada, mas suas mãos tremiam.
Kássia riu. Eu também. Pelo menos no rosto.
Mas por dentro, uma pergunta estava me destruindo:
E se ela estiver sentindo o mesmo?
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Gabi
Eu fechei a porta do quarto e deslizei até o chão, sentindo minhas mãos suarem.
Se ele percebeu?
Se ele suspeitou?
Se ele me viu daquele jeito?
Meu coração parecia querer sair do peito.
“Por favor, Deus… que ninguém note.”
Mas, ao mesmo tempo…
Uma parte de mim queria que ele tivesse notado.
Só ele.