Remo não conseguia esconder sua afeição e admiração pela suntuosidade do palácio de Kels. O jovem observava tudo enquanto caminhava ao lado do rei em direção aos jardins, os quais deixavam a morada dos reis ainda mais maravilhosa, uma beleza e a paz que resplandecia naquele lugar misturando-se ao doce perfume das flores e alegria do pequeno Príncipe brincando com seu cavalo de madeira.
De igual modo, o rei também observava admiração do capitão por tudo o que havia no palácio real, ele então conseguiu chamar sua atenção dizendo que ali naquela fonte seria o lugar onde eles poderiam conversar com mais tranquilidade. Remo mais uma vez voltou-se para o rei e o reverenciou.
— Estou pronto para ouvi-lo, majestade! O que tenho eu de tão importante para que vossa alteza me chamasse até aqui para uma audiência exclusiva? — perguntou o Remo ao rei, que olhou para ele fazendo um gesto com os olhos pedindo o rapaz que sentar-se à beira da fonte.
— Remo, o que me fez chamar você até aqui foi uma razão bem simples e ao mesmo tempo complexa! A família real de Slat está cercada não somente por luxo e riqueza, mas também de responsabilidades, pois cabe a nós manter o equilíbrio e a paz neste reino — explicou sua Majestade, Remo tão somente ouvia e assim que o rei concluiu, ele respondeu.
— Eu entendo perfeitamente a posição da família real majestade e em nome de todos os cidadãos de Kels, digo que sou grato pelo cuidado especial que a família real demonstra para com seus súditos! Mas o que eu gostaria de entender é onde eu me encaixo nessa história? — novamente perguntou tentando descobrir as reais intenções do rei.
Angus sorriu, em seguida ele olhou para o jovem capitão respondendo-o com firmeza.
— É bem simples Remo, desde que eu o vi pela primeira vez na celebração do nascimento de Aklon, você demonstrou certa fidelidade para conosco! Fidelidade esta que eu venho procurando em um homem há bastante tempo e você demonstrou isso. Você demonstrou a fidelidade que eu desejava ver em um cavaleiro, ao entregar sua filha como presente ao meu sobrinho no dia do seu aniversário! — o rei respondeu e logo em seguida tomou uma caneca de vinho trazida por um dos servos e a ofereceu ao jovem.
— Majestade, tudo que fiz foi por amor a Kels e a família real, faria tudo novamente se necessário fosse, pois como parte do exército desta nação, eu jurei fidelidade e proteger todos os cidadãos que nela residem, isso inclui a família real — Remo profere essas palavras sentindo-se à vontade para pôr a mão no ombro do Rei como se os dois tivesse uma amizade de longa data.
— Era exatamente isso que eu queria ouvir de você! Remo eu trouxe você até aqui, o chamei para te fazer uma proposta! — disse o rei encarando-o.
— Mas que proposta seria essa de vossa majestade? E Mais uma vez — ele pergunta. — O que tenho eu de especial para oferecer ao rei? — o jovem sentiu seu coração disparar, pois sabia de certa forma que depois daquele dia sua vida já não seria mais a mesma.
Ele olhou na direção da torre de Janus e mais uma vez ver a ponta da torre brilhar com a mesma densidade do brilho de uma estrela. O rei então percebe o olhar de devoção de Remo na direção da torre do deus e vê que o rapaz além de um guerreiro fiel, também era possuidor de uma devoção admirável pelos deuses.
— Janus jamais abandona aqueles que lhes são fiéis! A proposta que tenho para lhe fazer, Remo, é que você aceite ser o meu guardião particular e guardião particular de toda a família real incluindo o duque, a duquesa e seu filho, que ao que tudo indica será o próximo Rei de Slat!
Remo voltou-se para o rei olhando com espanto pela proposta que lhe foi feita. O jovem capitão ficou sem saber o que responder diante de algo que ele jamais pensou que poderia acontecer em sua vida, ele então volta novamente seu olhar para torre que continua a brilhar com a mesma intensidade, ele fecha seus olhos em seus pensamentos agradece a Janus.
— Eu não tenho palavras para expressar o que estou sentindo agora Majestade! O senhor está rodeado dos mais bem preparados homens e mulheres que estão dispostos a dar à vida por vossa Majestade e pela família real! O que eu, um simples cavaleiro do Norte, poderia fazer para proteger o meu Senhor? — perguntou ele com lágrimas nos olhos.
O rei caminha devagar ao redor da fonte bastante pensativo. Ele também olha na direção da torre de Janus, mas nada vê e em seus pensamentos faz uma pequena prece. “Não sei por que sinto esse aperto em meu coração, mas estou sendo guiado por vós, oh divindades supremas. Que eu não venha a me arrepender do estou fazendo”! Em seguida ele se dirige novamente de Remo e acalma o coração do jovem capitão, que também não entende a razão de tudo aquilo, mesmo seno esse seu desejo mais íntimo. Ele sabe apenas que tais acontecimentos só podiam ser providência dos deuses.
— Eu também não sei o motivo de ter pensado em você para executar tal tarefa, Remo! Mas todos nós sabemos que o Príncipe nasceu com algum tipo de iluminação e através dele e de sua filha, eu sinto que nossas famílias acabaram desenvolvendo uma espécie de laço, esse que não poderá ser rompido, Remo, nem por nós, nem por ninguém. — comentou o rei.
Remo fez silêncio enquanto o rei Angus continuava a falar.
— E sinto que com você no posto de chefe da guarda da família real eu poderei descansar à noite sabendo que estarei seguro juntamente com os meus, debaixo de sua p******o e sinto também que sua pequena filha terá um papel importante em nossas vidas no futuro! Por isso, Remo, eu te peço que aceite em nome do que os deuses têm preparado para nós, aceite o cargo que estou lhe dando e assim Aklon e a pequena Elora poderão cumprir seus destinos!
Remo olhou na direção do pequeno Príncipe que passava correndo pelo jardim, parando perto da fonte e olhando para ele de volta dando-lhe um sorriso sereno. A sensação de Remo era de que estrelas brilhantes piscavam em volta do garoto que olhou novamente para o caminho em que seguia e continuou com sua diversão.
— Eu aceito, majestade! Aceito seu convite e prometo que cuidarei de sua família com o mesmo ímpeto com que cuido da minha — respondeu Remo. — E que os deuses cumpram em nós o seu propósito majestoso!
Remo despediu-se do Rei e retornou para sua família onde relatou todo o acontecido pedindo a sua esposa que preparasse tudo, pois, muito em breve eles iriam morar no palácio real de Kels juntamente com a sagrada família.
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Cinco anos se passaram e Aklon juntamente com Elora, cresciam e aprendiam um com o outro. Certo dia o rei Angus recebeu uma mensagem vindo do reino vizinho de Estakhr. Era uma carta da rainha Zaila pedindo ao rei de Slat que a recebesse em seu palácio, pois queria fazer uma visita de paz.
— Pois então que venha! Diga à rainha que eu estou disposto a recebê-la em meu palácio, pois jamais nutri por ela qualquer sentimento de rancor, ódio ou algum tipo de inimizade! — o rei proferiu essas palavras, porém sem se levantar de seu trono enviando o mensageiro de volta com a permissão requerida por Zaila.
— Então o rei Angus permitiu minha entrada na tão falada cidade de Kels! Preparem tudo! — disse a rainha as suas servas. — Quero que providenciem presentes, joias e algumas especiarias que levarei para a família real como prova de que não desejo mais a guerra entre nossas nações!
Os servos da rainha fizeram exatamente o que ela havia ordenado, enquanto isso ela permaneceu em seus aposentos escolhendo o que deveria usar durante a visita ao rei Angus. Mas a rainha percebeu que não estava sozinha.
— Como você conseguiu passar pelos meus guardas e entrar em meu quarto, Frei?! — perguntou a rainha que continuou a observar seus vestidos um por um e sem olhar para trás.
— Você sabe que eu possuo certas habilidades de burlar a sua guarda pessoal e entrar em qualquer lugar que você esteja sem que eles percebam, Zaila! — respondeu Frei tocando em alguns objetos valiosos dos aposentos reais.
Por muitos anos, Frei Kaloth, um exímio arqueiro e acostumado a liderar grandes caçadas, tem servido à rainha de Estakhr como seu mais fiel protetor e também como amante. Ele nunca exigiu que o posto de marido da monarca, mas exigia seu amor incondicional.
— Vamos! Diga logo que você quer e desapareça da mesma forma com que apareceu, pois eu tenho muito que fazer! Tenho certeza que o que o traz aqui não é algo que seja exatamente do meu interesse! — respondeu a rainha com certo sarcasmo.
— Fiquei sabendo que você pretende fazer uma visita a Slat! Conhecendo você como eu conheço, certamente deve estar planejando alguma coisa, um plano, talvez um modo de fazer com que este reino se torne tão forte e poderoso quanto o foi nos tempos de seu pai! Estou certo? — o homem perguntou se jogando na cama da rainha deixando-a furiosa.
Zaila finalmente volta sua atenção para Frei, olhando para ele com certa fúria em. Ela aproxima-se o segura pelo braço dando-lhe uma advertência.
— Você não faz ideia do que sou capaz de fazer com pessoas intrometidas, Frei! Você não sabe o que realmente se passa em minha mente para fazer insinuações tão profanas quanto esta, eu não lhe devo satisfações do que faço ou deixo de fazer, pois este reino está sob minha responsabilidade e qualquer decisão que eu tomar será para o bem de meu povo, entendeu?! — ela respondeu com o rosto colado ao de Frei. E este não perdeu a oportunidade de ironizar seu comportamento.
— Você pensa que está enganando a quem Majestade?! Pois a mim é que não é! — Frei segura a rainha pelo braço encostando-a em seu corpo, ela tenta desprender-se dele, porém Frei é mais forte e consegue dominá-la.
Zaila olha para Frei e os dois se encaram face a face. Ela pensa em refutar suas palavras, porém é surpreendida com um beijo em seus lábios. Zaila tenta se soltar, mas aparentemente um sentimento antigo existe entre os dois que faz com que a rainha se entregue a seu desejo que naquele momento é maior que sua raiva.
— Você sempre aparece em minha vida para deturpar os meus sentimentos Frei! E sinto ódio de mim mesma por não conseguir resisti-lo! — ela respondeu e seguida o abraçou com força.
— Então não resista e assume de uma vez que você sempre foi e sempre será minha Majestade! — os dois se entregam ali mesmo uma ardente paixão.
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Passados alguns dias, finalmente Zaila está diante do Rei Angus e toda sua família. Ela adentrou a sala do trono e fica admirada com a suntuosidade, brilho e iluminação do palácio real. A rainha tenta guardar em sua mente cada detalhe que ver a sua frente, desde os guardas até o pequeno Príncipe que está de pé entre sua mãe e seu pai. O rei Angus sentado em seu trono ao lado de sua esposa e Remo que está do seu lado esquerdo já trajando a armadura branca utilizada somente pela guarda pessoal do Rei.
— É uma honra estar mais uma vez diante de Angus o fabuloso! — disse a rainha Zaila prostrando-se e reverenciando o casal real.
— A honra é toda minha e me sinto feliz por vê-la novamente rainha Zaila, pois não há temos em nossa presença desde a cerimônia de minha coroação há 10 anos! — o rei respondeu levantando-se de seu trono, caminhando em direção a monarca.
A rainha então ordenou que seus servos entrassem na sala do trono trazendo todos os presentes que ela havia selecionado pessoalmente para família de Kels. Todos ficaram maravilhados com as joias, tecidos e especiarias típicas do reino de Estakhr, que apesar de não ser muito próspero, possuía seus atributos naturais.
Zaila finalmente voltou suas atenções àquele que era o seu alvo principal naquele dia, o príncipe Aklon. Ela caminhou em sua direção com uma pequena caixa de madeira revestida com ouro e pedras preciosas, aproximando-se do príncipe, Zaila entregou a caixa em suas mãos, porém a atitude do pequenino surpreendeu a todos.
— Dentro desta caixa tão bela reside a tristeza e a solidão! Fico grato pelo seu presente, mas peço que a senhora mesma abra antes de mim! — sugeriu o pequeno príncipe fazendo com que Zaila sentisse seu coração disparar.
— E por que eu o deveria fazer já que o presente é seu, pequeno Aklon? — a rainha perguntou um tanto desconcertada sem saber o que dizer, já que a mesma não se recordava de ter colocado nada nocivo na caixa. Então em seus pensamentos surge a seguinte indagação. “Por que o príncipe disse que naquela caixa tão bela revestida de joias e pedras preciosas poderia residir à tristeza e a solidão”? O rei olhou para a monarca desconfiado, assim como o duque e a duquesa que retirou imediatamente o jovem Príncipe de perto do presente oferecido pela rainha.
— Eu vejo que todos vocês ficaram desconfiados de mim por causa da insinuação do príncipe! Mas irei provar a todos que minhas intenções são boas e que eu venho aqui em paz, abrirei a caixa eu mesma e pedirei aos meus servos que troquem o presente por outra coisa que agrade mais ao futuro rei de Slat. — ela concluiu olhando e sorrindo com falsidade para Aklon.
Zaila abriu a caixa, porém nada aconteceu. Vários magos se posicionaram na sala a pedido de Remo para detectar se algum tipo de magia n***a estaria no local, os mesmos também não detectaram nada o que deixaram todos pasmos e sem saber por que o príncipe proferiu tais palavras ao olhar para a caixa que não era nada mais do que uma caixa de música.
O rei pediu desculpas à rainha justificando que Aklon era muito pequeno e às vezes suas atitudes eram um tanto confusas. Zaila também fez de contas que entendeu a atitude do pequenino e tudo voltou ao normal com o rei e a rainha acompanhando-a para mostrar as dependências do palácio e os jardins reais. Remo seguia os três de perto, mas preferiu ficar ao lado de Lars e sua esposa tentando entender a atitude do pequeno Príncipe.
— Até agora eu não consegui assimilar algo que faça conexão com o que aconteceu na sala do trono agora há pouco! — o duque dizia baixinho sendo ouvida apenas por Remo e sua esposa.
— Eu também fiquei quase chegando a pensar que a rainha poderia ter colocado algum tipo de veneno dentro daquela caixa de música, mas os magos não conseguiram detectar absolutamente nada de errado. Porém altezas, é melhor manter aquele objeto afastado do príncipe o máximo possível, pois conhecemos a história da família de Zaila e do que eles são capazes de fazer! — Remo alertou o casal de duques para a segurança de seu filho, pois no fundo ele sabia que a visita de Zaila não foi apenas uma cortesia. — Agora peço licença aos dois, vou para junto do Rei e vocês fiquem atentos. Enquanto essa mulher estiver em Slat, todo cuidado é pouco!
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Zaila passou exatos três dias nas dependências do palácio real, mas decidiu partir. A rainha Neres preparou muitos presentes e lembranças do país para que Zaila pudesse levar ao seu reino. A monarca agradeceu pelas dádivas recebidas e partiu para sua terra natal observando a infraestrutura do reino de Angus, com estradas pavimentadas, plantações em todas as fazendas o que demonstravam reino próspero e feliz.
— Em pensar que tudo isso poderia ter sido nosso! Tudo isso poderia estar agora anexado a meu Reino não fosse aquele maldito ter seduzido os outros reis a terminarem com uma guerra que já estava quase ganha pelo meu avô! Mas eu juro a você a Angus, que seus tempos de reinado estão chegando ao fim… muito em breve esse povo verá a queda e o final definitivo da sagrada família real de Slat e seu exército de santos! — Zaila volta sua atenção para a torre de Janus e faz um juramento. — Nem mesmo você oh soberano dos deuses, garanto que nem mesmo você com sua magnitude e poder poderá livrar a família real do castigo que tenho preparado para todos eles!
A rainha cobriu sua cabeça com capuz e pediu ao cocheiro que guiasse sua carruagem para bem longe daquela terra o mais depressa possível. O ódio e a inveja da rainha por aquele reino belo e próspero excedia qualquer pensamento humano e suas palavras indicavam que algo sombrio estava se aproximando de Slat e, aquele povo brevemente choraria suas piores dores.