Capítulo 07

1096 Words
CAPÍTULO — Vitinho Narrado por Vitinho Acordei antes do sol, como quase todos os dias. O morro ainda tava meio adormecido, aquele silêncio raro que só existe antes da favela acordar de vez. Da janela do meu quarto dava pra ver as primeiras luzes se apagando, gente bocejando nas portas, o cheiro de café começando a subir pelas casas. Levantei devagar. O corpo já acostumado com poucas horas de sono, a mente nunca desligando de verdade. Tomei um banho rápido, água fria pra acordar o que ainda tava pesado dentro de mim. Passei a mão no espelho embaçado e encarei meu reflexo por alguns segundos. O mesmo rosto fechado. O mesmo olhar cansado. Só os olhos entregavam o que ninguém via. Quando saí do quarto, ouvi barulho na cozinha. Passos leves. Só podia ser a Layla. Ela sempre acorda cedo quando a ansiedade aperta. Eu sei. Conheço cada silêncio dela melhor do que ela imagina. Entrei na cozinha e encontrei minha irmã de costas, mexendo numa panela pequena. Cabelo preso de qualquer jeito, moletom largo, cara de sono misturada com esforço pra parecer bem. — Bom dia — falei, a voz ainda rouca. Ela se virou rápido, como se tivesse sido pega no susto. — Bom dia — respondeu, com um sorriso tímido. Aquele sorriso sempre me quebra um pouco. Porque ele não é inteiro. Nunca é. — Não precisava levantar cedo assim — falei, encostando na bancada. — Eu acordei sozinha — ela deu de ombros. — Aí resolvi fazer café. Olhei pra mesa. Duas xícaras já separadas. Pão, manteiga, fruta cortada. Tudo organizado demais pra alguém que diz que acordou “do nada”. — Dormiu m*l? — perguntei. Ela hesitou por meio segundo. — Um pouco. Sempre a mesma resposta. Sentei à mesa enquanto ela servia o café. O cheiro forte preencheu o ambiente. Café passado na hora, do jeito que ela sabe que eu gosto. — Vai trabalhar hoje? — ela perguntou, empurrando a xícara na minha direção. — Vou — respondi simples. — Sempre vou. Ela sorriu fraco. — É… eu sei. Comemos em silêncio por alguns minutos. Um silêncio confortável pra quem se entende sem precisar falar, mas pesado pra quem carrega coisa demais por dentro. Observei ela enquanto mordia o pão distraída. Layla cresceu rápido demais. Não porque quis, mas porque precisou. Ainda vejo nela a menina de doze anos, escondida, tremendo, enquanto o mundo desabava lá fora. E ao mesmo tempo vejo a mulher que tá tentando aprender a viver num lugar que nunca escolheu. — Vai sair hoje? — perguntei, casual. Ela levantou o olhar devagar. — Talvez… — respondeu. — A Jú me chamou pra ir ali embaixo. “Ali embaixo” no morro nunca é só ali embaixo. — Que horas? — perguntei. — De tarde. Assenti, mantendo o tom neutro. — Não demora. — Eu nunca demoro. — Eu sei — respondi. — Mas mesmo assim. Ela respirou fundo. — Victor… — começou. — Layla — interrompi, sem dureza. — Eu só tô cuidando de você. Ela baixou o olhar. — Eu sei. É só que… às vezes parece que eu ainda tenho doze anos. Aquilo doeu mais do que qualquer afronta. — Pra mim você sempre vai ser minha irmãzinha — falei. — Isso não muda. Ela sorriu de canto, triste e grata ao mesmo tempo. — Eu sei. Terminamos o café. Levantei, peguei minha jaqueta. Antes de sair, parei na porta e olhei pra ela. — Qualquer coisa, me chama — falei. — Sempre chamo — respondeu. Saí de casa com aquele peso conhecido no peito. Pro mundo, eu viro outra pessoa assim que piso na rua. O Vitinho que não hesita. O dono do morro. O cara que não pode demonstrar dúvida. Mas dentro de casa… sou só um irmão tentando não perder a única coisa que ainda importa. Desci a viela cumprimentando alguns moradores. Respeito silencioso, cabeça baixa, olhares atentos. Ninguém fala muito comigo cedo assim. Sabem que eu observo mais do que falo. Passei por dois moleques da contenção. — Bom dia, chefe. — Firmeza? — Tudo tranquilo. Segui andando até a boca principal. O movimento já tava começando a esquentar. Moto subindo, gente entrando e saindo, rádio chiando com informação. Juninho tava encostado perto do muro, conversando baixo com um dos meninos. Postura firme, olhar atento. Ele trabalha bem. Sempre trabalhou. — E aí — chamei. Ele virou na hora. — Bom dia. — Como foi a noite? — Suave. Nenhuma treta. Assenti. — Fica ligado hoje. Tô sentindo o clima meio estranho. Ele me olhou com atenção. — Também senti. Juninho é bom nisso. Ele sente o ambiente antes de qualquer coisa acontecer. — Ontem você tava estranho — falei, direto. Ele travou por um segundo quase imperceptível. — Tava não. — Tava sim — respondi. — E continua. Ele respirou fundo. — Vitinho… — Não precisa falar — interrompi. — Só não deixa isso te tirar do eixo. — Nunca deixei — respondeu firme. Confiei. Porque se tem alguém que eu confio nesse morro, é nele. Passei a manhã rodando o território, resolvendo coisa pequena, ouvindo reclamação, cortando problema antes de virar incêndio. Isso é ser dono do morro. Não é só mandar. É manter tudo em pé. Mas minha cabeça… voltava pra Layla. Sempre volta. No meio da manhã, vi ela passando mais embaixo, indo à padaria com uma amiga. O jeito contido, a bolsa colada ao corpo, o olhar atento. Notei Juninho olhando também, rápido demais pra quem não sente nada. Franzi o cenho. Aquilo não passou despercebido. Juninho desviou o olhar quando percebeu que eu vi. Fingi que não notei. Por enquanto. O rádio chiou. — Chefe, polícia rodando lá embaixo. — Já vi — respondi. — Sem alarde. Tudo seguiu sob controle. Sempre segue. Mas eu aprendi cedo demais que o que realmente quebra a gente não vem de fora. Vem de dentro. No fim da manhã, encostei de novo perto da boca, observando o morro respirar. O sol já alto, o barulho constante, a vida acontecendo apesar de tudo. Pensei nos meus pais. Pensei no dia que tudo acabou. Pensei em como eu virei o que virei pra proteger quem sobrou. Olhei pro céu azul cortado por fios e antenas. Eu não pedi esse destino. Mas abracei ele. E enquanto eu estiver de pé, ninguém toca na Layla. Ninguém. Nem o morro. Nem o mundo. Nem quem eu chamo de irmão. Porque ser Vitinho não é só mandar. É carregar um peso que poucos aguentariam. E eu aguento. Todo dia.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD