Capítulo 08

1053 Words
CAPÍTULO — Mariana Narrado por Mariana O despertador tocou às cinco e quarenta e cinco, exatamente como todos os dias. O som suave, escolhido de propósito pra não me assustar logo cedo, mas ainda assim eu acordei com aquele peso conhecido no peito. Abri os olhos devagar, encarando o teto branco do quarto, enquanto a luz fraca da manhã começava a entrar pela fresta da cortina. Por alguns segundos, fiquei ali, parada, respirando fundo. Tentando lembrar quem eu era antes de tudo desmoronar. Tentando não pensar em nada específico. Tentando só existir. Levantei da cama com cuidado, como se qualquer movimento brusco pudesse bagunçar o pouco equilíbrio que eu tinha logo ao acordar. Caminhei até o banheiro, lavei o rosto com água fria e me olhei no espelho. Olheiras leves, cabelo preso de qualquer jeito, expressão cansada demais pra alguém de vinte anos. — Mais um dia — murmurei pra mim mesma. Vesti minha roupa de academia: legging preta, top simples, jaqueta leve. Nada chamativo. Nunca gostei de chamar atenção. Peguei a garrafa de água, fone de ouvido e saí do apartamento, trancando a porta atrás de mim. O corredor ainda estava silencioso. O prédio acorda cedo, mas nunca todo mundo ao mesmo tempo. Peguei o elevador sozinha, descendo enquanto minha mente começava a organizar o dia como uma lista invisível: treino, café, banho, trabalho, reuniões, prazos. Tudo sob controle. Sempre. Do lado de fora, o ar da manhã estava fresco. A Zona Sul tinha aquele cheiro específico de começo de dia: mistura de café vindo das padarias, asfalto ainda frio e mar ao fundo, mesmo que eu não conseguisse vê-lo dali. Caminhei até a academia que ficava a três quadras do prédio, mantendo o ritmo firme. — Mari! — ouvi alguém chamar. Virei o rosto e vi a Clara vindo na minha direção. Ela era daquelas pessoas que acordam bonitas sem esforço. Alta, sorriso fácil, energia demais pra esse horário. — Bom dia — respondi, abrindo um sorriso automático. — Acordada antes das galinhas como sempre — ela brincou. — Treino hoje? — Sempre — respondi. Entramos juntas na academia. O ambiente ainda estava tranquilo, poucas pessoas, música baixa, cheiro de limpeza recente. Pegamos nossos armários e começamos a nos alongar. — Você sumiu esse fim de semana — Clara comentou, esticando os braços. — Te chamei pra sair. — Eu sei — respondi. — Tive umas coisas pra resolver. Ela me olhou de lado. — “Coisas” ou “irmão”? Suspirei. — Um pouco dos dois. Clara já sabia da minha história. Não tudo, mas o suficiente. Sabia que eu tinha um irmão que vivia no morro, sabia que nossa relação era complicada, sabia que minha mãe tinha morrido recentemente demais pra eu fingir normalidade. — Você devia sair mais, Mari — ela disse. — Você trabalha demais. Vive presa nessa rotina. — A rotina me ajuda — respondi sincera. — Me mantém… funcionando. Ela não insistiu. Começamos o treino, cada uma no seu ritmo. Corrida leve na esteira, depois musculação. Eu gostava daquele momento porque minha mente finalmente silenciava. O corpo reclamava, os músculos queimavam, e por alguns minutos eu não pensava em passado, futuro ou sentimentos. Só em continuar. Depois de quase uma hora, sentamos no chão pra alongar de novo. — E o trabalho? — Clara perguntou. — Continua no home office? — Sim. Graças a Deus — respondi. — Não sei se aguentaria escritório agora. — Você ganha bem, trabalha de casa, mora num lugar ótimo… — ela sorriu. — Muita gente mataria por essa vida. Assenti, mas algo dentro de mim se apertou. — Eu sei. Mas ter tudo não significa sentir tudo. Nos despedimos na porta da academia. Voltei caminhando devagar, sentindo o corpo cansado de um jeito bom. Passei na padaria da esquina, comprei pão integral e uma fruta cortada. O atendente já me conhecia. — O de sempre, né? — O de sempre — confirmei. Subi pro apartamento e coloquei a sacola na bancada da cozinha. Preparei meu café com calma, como um pequeno ritual: café passado na hora, mesa organizada, nada fora do lugar. Comi olhando pela janela, observando a rua acordar de vez. Pensei na minha mãe. Ela sempre dizia que eu era organizada demais pra minha idade. Dizia rindo, orgulhosa. Às vezes, eu me perguntava se essa organização não era só uma forma de tentar controlar o que eu não podia. Depois do café, fui pro banho. Água quente, vapor subindo, meus pensamentos finalmente escapando do controle. Apoiei as mãos na parede do box e deixei a água cair sobre minhas costas. Senti saudade. Do meu pai, mesmo com todos os erros dele. Da minha mãe, todos os dias. Do tempo em que eu não precisava ser forte o tempo todo. Quando saí do banho, me enxuguei devagar, vesti uma roupa confortável — short de algodão, camiseta larga — e prendi o cabelo de novo. Fui até o quarto, liguei o notebook em cima da escrivaninha organizada demais pra alguém que diz viver. A tela acendeu. E-mails, mensagens, agenda do dia. — Vamos lá — murmurei. O trabalho começou. Reuniões virtuais, planilhas, relatórios, mensagens que exigiam respostas rápidas. Eu era boa no que fazia. Sempre fui. O trabalho era uma parte de mim que funcionava sem falhas. Uma parte que não sentia dor. Entre uma tarefa e outra, peguei o celular e vi uma mensagem do meu irmão. Juninho: “Bom dia, pequena. Tudo bem aí?” Sorri sem perceber. Mariana: “Bom dia. Tudo sim. E aí?” Demorou alguns minutos, mas a resposta veio. Juninho: “Tudo certo. Qualquer coisa me chama.” Fiquei olhando a tela por alguns segundos. Ele sempre dizia isso. E sempre cumpria. Voltei ao trabalho, mas minha mente já estava longe. Pensando nele. Pensando no mundo dele. Pensando em como nossas vidas eram tão diferentes e ainda assim ligadas por algo que nem o tempo, nem a distância, conseguiram quebrar. Continuei trabalhando, mantendo a postura, cumprindo horários, entregando tudo no prazo. Por fora, tudo perfeitamente normal. Por dentro, aquela sensação de que algo estava prestes a mudar, mesmo sem eu saber o quê. Fechei o notebook perto do meio-dia e me recostei na cadeira, olhando o teto. A rotina seguia. Mas o destino… não costuma avisar quando resolve bagunçar tudo.
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