Capítulo 03

1289 Words
Layla Narrado por Layla Eu sou Layla, e apesar de ter só dezenove anos, às vezes sinto como se tivesse vivido vidas demais. Talvez porque, quando a infância acaba à força, a gente cresce rápido demais. E eu cresci no dia em que perdi os meus pais. A dor daquela manhã nunca desapareceu completamente; ela só aprende a se esconder em cantos diferentes dentro da gente. E, quando menos espero, volta com força, sufocando, apertando meu peito, deixando minhas mãos trêmulas e minha respiração curta. Minha psicóloga chama de crise de ansiedade… eu chamo de cicatriz aberta. Eu tinha doze anos quando tudo aconteceu. Doze. Uma idade em que eu deveria estar preocupada com cadernos coloridos, crushes bobos da escola e treinar coreografia com amigas. Mas naquela época eu já não tinha amigas. E, depois daquela noite, também não tive mais pais. Meu pai e minha mãe sempre foram meus pilares, mesmo vivendo dentro da realidade dura do morro. Minha mãe tinha um sorriso tão doce que parecia capaz de apagar qualquer caos lá fora. Meu pai era firme, presente, um homem que, apesar da vida corrida e perigosa, fazia questão de estar em casa, de contar histórias, de beijar minha testa quando achava que eu já tinha dormido. Eu adorava fingir que estava dormindo só pra sentir aquele carinho. Mas tudo mudou. Invasão. Barulho. Gritos. Tiros. Pressa. Silêncio. Eu lembro dos sons, do meu coração acelerado, da mão do meu irmão Victor me empurrando para dentro do cofre escondido atrás do armário. Eu lembro de querer sair, de querer gritar, de querer não estar ali. Mas ele mandou eu ficar quieta, e eu obedeci. Ele sempre foi assim: autoridade até nos detalhes. Nunca vou esquecer o barulho do tiro que levou meu pai. Nem da ausência de passos da minha mãe depois disso. Aquele dia partiu minha vida ao meio. E a parte que ficou comigo nunca mais foi inteira. Desde então, Victor virou tudo o que sobrou pra mim. Pai, mãe, irmão, amigo — e também general, carcereiro, e às vezes até tormento. Porque ele não sabe amar leve. Ele ama do jeito que aprendeu: com dureza, com controle, com responsabilidade exagerada, como se eu fosse feita de vidro e pudesse quebrar a qualquer instante. E talvez eu realmente pudesse. Eu sei que ele faz tudo por mim. Victor sempre fez. Ele tinha apenas vinte anos quando herdou o morro, quando o olhar dele perdeu qualquer vestígio de inocência. Falam dele como “O Dono da Maré”, como o cara frio, perigoso, temido. Mas ninguém vê o garoto que me tirou do cofre com as mãos tremendo, com o rosto sujo de sangue — não o dele — e com um olhar desesperado tentando se manter firme por minha causa. Esse é o Victor que eu conheço. O Victor que me dava café da manhã mesmo exausto. O que me colocava pra dormir quando a insônia me matava por dentro. O que aprendeu a fazer trança no meu cabelo porque eu chorava de saudade da minha mãe. Eu cresci sendo o centro do mundo dele — e isso é lindo e sufocante ao mesmo tempo. Ele não deixa eu faltar nada. Não deixa ninguém se aproximar de mim. Não deixa eu sair muito. Não deixa metade das coisas que meninas da minha idade fazem. E eu não sou boba: sei que, lá fora, muita gente tenta se aproximar de mim só por causa dele. Não por quem eu sou. Não pela minha risada, meu jeito, minha história. Mas pelo sobrenome que carrego. Pelo poder que ele tem. Então eu acabei não criando amizades verdadeiras. Não confio fácil. E, para ser sincera, acho que me acostumei com a solidão. Tem também outra coisa... outra pessoa… outro segredo. Juninho. A primeira vez que eu olhei pra ele diferente, eu devia ter uns treze anos. Ele era só um menino alto, de sorriso fácil, uma mistura de marra com leveza que eu achava inexplicável. Ele era amigo do meu irmão desde sempre, cria junto, daqueles que Victor realmente confia — e isso não é pouca coisa. Juninho cresceu dentro do morro como todo mundo, mas sempre teve um brilho diferente, uma coragem que se destaca, um senso de humor que quebra qualquer tensão. E comigo… sempre foi gentil. Gentil demais. Ele me tratava como se eu fosse algo precioso que precisava ser protegido dos perigos do mundo. Mas não era o tipo de proteção que incomodava. Era confortável. Era doce. Era… perigosa demais pra admitir. Eu comecei a ver ele de um jeito diferente, e tentei esconder isso até de mim mesma. Só que paixão não obedece. Ela cresce. Ela se infiltra. Ela vira um segredo que esquenta o peito e ao mesmo tempo dá medo de explodir. Mas Juninho nunca me olhou assim. Não como mulher. Não como possibilidade. Pra ele, eu sou só a caçula do Victor. A menina que cresceu no meio dos gigantes, que ele precisa cuidar. A irmãzinha do parceiro dele. E isso, por si só, já seria o suficiente pra ele nunca dar um passo na minha direção. Mas se isso não bastasse, existe meu irmão. Victor mataria qualquer possibilidade antes mesmo dela existir. Eu sei disso. Juninho sabe disso. O morro inteiro sabe disso. Então eu calei. Eu guardo isso comigo como guardo tudo: a dor, a ansiedade, os medos, as esperanças pequenas, e a ideia boba de que talvez um dia alguém me enxergue sem o peso do sobrenome do meu irmão. Eu vivo presa entre dois mundos: o meu, e o mundo de Victor. Meu mundo é meu quarto, meus livros, meus fones de ouvido, meus desenhos jogados sobre a escrivaninha. É silêncio. É memória. É saudade. É medo. O dele é barulho, comando, poder, guerra, decisões que podem apagar vidas. É perigoso demais pra mim. E, mesmo assim, é de lá que vem as únicas pessoas que realmente se importam comigo. Eu vivo nesse meio-termo estranho. E, às vezes, me pergunto quem eu seria se aquela tragédia não tivesse acontecido. Se minha mãe ainda estivesse comigo. Se meu pai estivesse vivo. Será que eu teria amigos? Será que eu ia pra festas? Será que eu teria vivido um primeiro amor leve, como nos filmes? Mas tudo que eu vivi foi diferente. E tudo que eu sinto também é. Victor está sempre dizendo que é por proteção. Que é pra me manter segura. Que o mundo dele não é lugar pra mim. E, no fundo, eu sei que ele tem razão. Ele vive com um alvo nas costas. E, por ser irmã dele, eu também vivo. Talvez seja por isso que a ansiedade nunca me largou. Mas, apesar de tudo, eu amo meu irmão. Amo tanto que dói. Amo tanto que sinto culpa por qualquer desejo que possa complicar a vida dele — como essa paixão proibida por Juninho, algo que eu guardo bem fundo, no lugar de todos os meus segredos. E, enquanto eu guardo, sigo vivendo nessa vida meio suspensa, meio protegida, meio solitária. Eu sei que tenho muito pra contar, mas nada que eu queira realmente expor. Meu mundo interno é grande, profundo e, às vezes, escuro demais pra que alguém entenda. E, mesmo assim, eu sigo. Dia após dia. Sigo tentando respirar mais fundo. Sigo tentando ser forte como Victor acredita que eu sou. Sigo tentando me encontrar dentro de tanta história quebrada. Sigo lutando contra quem o mundo quer que eu seja e quem eu realmente sou. Layla. A menina que sobreviveu. A irmã do Dono do Morro. A garota que ama em silêncio. E que, mesmo com o peito cheio de remendos, ainda acredita que a vida pode dar um jeito de surpreendê-la.
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