Capítulo 15

904 Words
CAPÍTULO — Vitinho Narrado por Vitinho Era madrugada. Aquele horário em que o morro nunca dorme de verdade, mas o barulho muda de tom. O som das motos diminui, as conversas ficam mais baixas, e o silêncio começa a pesar mais do que o movimento. Eu tava na boca. Encostado na parede, um cigarro entre os dedos, um copo de whisky na mão. O gelo já tinha derretido um pouco, diluindo a bebida, mas eu nem ligava. O gosto forte descia queimando, do jeito que eu precisava naquela hora. Algo tinha mudado. Eu sentia isso no corpo. No jeito que meu peito parecia apertado demais, como se o ar não entrasse direito. No incômodo que não passava, mesmo depois de horas ali, resolvendo coisa, dando ordem, ouvindo relatório. Nada fora do normal tinha acontecido. E ainda assim… tudo tava diferente. O olhar da irmã do Juninho insistia em voltar. Mariana. O nome ecoava na minha mente sem que eu chamasse. Eu não tinha pensado nela conscientemente desde que saí da lanchonete, mas era mentira. Porque tudo em mim tinha ficado preso naquele instante em que nossos olhos se encontraram. Não foi desejo fácil. Não foi vontade de pegar. Foi impacto. Como se alguém tivesse atravessado uma muralha que eu construí há anos — e ninguém nunca tinha passado nem perto. Traguei o cigarro fundo, soltando a fumaça devagar. Observei o movimento ao redor. Os caras trabalhando. Tudo funcionando como sempre. O morro rodando sob meu comando. Eu tinha controle de tudo. Menos da minha cabeça naquela madrugada. — Chefe — um dos vapores chamou. — Fala. — A carga chegou completa. Tudo certo. — Beleza — respondi. — Confere direitinho. Ele assentiu e saiu. Voltei a ficar sozinho nos meus pensamentos. Eu lembrava do jeito que ela sentava. Postura reta. Olhar atento. Não era medo. Era cuidado. Ela observava como quem tenta entender antes de julgar. Diferente de todo mundo que me olha. A maioria das pessoas me vê como ameaça. Como poder. Como perigo. Ou como oportunidade. Ela não. Ela me olhou como homem. E isso me deixou desconfortável pra c*****o. Dei outro gole no whisky. O líquido desceu queimando, mas não apagava o que tava aceso dentro de mim. Desde o dia em que meus pais morreram, eu aprendi a não sentir demais. A não deixar nada criar raiz. Tudo em mim virou controle, frieza, cálculo. Sentimento demais enfraquece. Foi isso que eu aprendi cedo demais. Mas naquela mesa… por alguns segundos… eu não controlei nada. Vi Layla conversando com o Juninho, os dois trocando aqueles olhares que eu conhecia bem demais pra fingir que não vi. Aquilo me incomodou também. Não porque eu não confiasse neles. Mas porque Layla ainda é meu ponto fraco. Ela cresceu. Eu sei. Mas o mundo continua sendo o mesmo. E agora… tinha Mariana. Tudo se misturava na minha cabeça. Minha irmã. Meu melhor amigo. A irmã dele. Olhares cruzados. Silêncios longos demais. Nada ali era simples. — Vitinho — Juninho apareceu ao meu lado em algum momento da madrugada. Eu nem percebi quando ele chegou. — Fala. Ele acendeu um cigarro também, ficando em silêncio por alguns segundos. Juninho me conhecia o suficiente pra saber quando não era hora de falar. — Movimento tá tranquilo — ele disse por fim. — Sempre tá — respondi. Outro silêncio. — Tu tá estranho hoje — ele comentou, casual, mas atento. Dei um meio sorriso sem humor. — Tô cansado. — Sei — respondeu. — Mas não é só isso. Olhei pra ele de lado. — Que foi, p***a? Agora virou analista? Ele riu baixo. — Não — falou. — Mas eu te conheço. Fiquei quieto. Juninho tragou o cigarro, soltou a fumaça pro alto. — Aquela noite foi diferente — ele disse. Meu maxilar travou. — Diferente como? — Não se faz de bobo — respondeu. — Eu vi. Dei outro gole no whisky, tentando ganhar tempo. — Tu viu o quê? — O jeito que você olhou pra minha irmã. A palavra “irmã” pesou. — Não viaja — falei seco. — Vitinho — ele falou sério agora. — Eu nunca vi você olhar daquele jeito pra ninguém. O silêncio entre nós ficou pesado. — Isso não significa nada — respondi. — Talvez não — ele concordou. — Mas significa alguma coisa. Apertei o copo com mais força do que devia. — Ela não é desse mundo — falei. — E eu não sou do dela. — Eu sei. — Então pronto. Juninho me encarou por alguns segundos. — Só tô dizendo — falou — que às vezes a vida não pergunta se combina. Ele apagou o cigarro e saiu, me deixando ali. Sozinho. De novo. Olhei pro céu escuro acima do morro. Poucas estrelas. A cidade brilhando lá embaixo, distante. Eu tinha tudo. Poder. Respeito. Medo. Controle. Mas naquela madrugada, pela primeira vez em muito tempo, senti algo que não consegui nomear. Não era amor. Não era desejo simples. Era inquietação. E isso me assustava mais do que qualquer guerra. Traguei o último resto do cigarro e joguei no chão, apagando com o pé. Bebi o resto do whisky de uma vez. Algo tinha mudado. Eu ainda não sabia o quê. Nem como. Nem onde aquilo ia dar. Mas eu sabia de uma coisa: O olhar da Mariana não tinha sido só um momento. Tinha sido um aviso. E avisos… Nunca vêm à toa.
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