Capítulo 16

1075 Words
Capítulo — Narrado por Juninho (Dia seguinte, na boca) O dia amanheceu quente na Maré, daquele jeito que parece que o sol nasce mais perto da gente. O morro nunca dorme de verdade, mas de manhã cedo ele acorda diferente. Menos barulho de moto, menos gritaria, mais conversa baixa, mais olhar atento. Eu já tava em pé antes das oito, café forte descendo rasgando a garganta, camiseta simples, bermuda, tênis gasto. Roupa de trabalho. Roupa de quem vive no corre. A boca já tava aberta quando eu cheguei. Vapor indo e vindo, cada um no seu posto, tudo rodando como um relógio que não pode atrasar nem adiantar demais. Aqui não tem margem pra erro. Um passo em falso e tudo desanda. Sentei na mesa de madeira do fundo, aquela mesma de sempre, já marcada pelo tempo, por copo apoiado, por faca, por história. Dinheiro espalhado na mesa, notas de todos os valores. Comecei a contar com calma, do meu jeito. Nota por nota. Eu sempre gostei de contar dinheiro. Não por ganância, mas porque me dá a sensação de controle. Enquanto tô contando, minha mente fica focada, quieta… ou pelo menos deveria. Mas naquele dia não tava. Minha cabeça insistia em voltar pra noite anterior. Pra Mariana. Pra Layla. E, sem eu querer admitir, pro olhar do Vitinho. Balancei a cabeça, tentando afastar esses pensamentos. Corre é corre. Sentimento a gente guarda numa gaveta bem trancada. Aprendi isso cedo demais. — Confere direito aí, Juninho — um dos vapores falou, se aproximando. — Sempre confiro — respondi sem levantar o olhar. — Aqui não tem erro. Continuei a contagem. Anotei os valores num caderno simples, capa preta, sem nada escrito. Esse caderno era quase uma extensão de mim. Tudo passava por ali. Entrada, saída, dívida, pagamento, tudo. Organização é o que mantém o respeito. Enquanto eu anotava, observei o movimento ao redor. Os meninos novos sempre nervosos, querendo mostrar serviço. Os mais antigos tranquilos, já calejados. Eu conhecia cada um pelo jeito de andar, pelo olhar, pelo tom de voz. Sabia quem tava bem, quem tava escondendo problema, quem precisava de atenção. Foi aí que senti a presença dele antes mesmo de ouvir. Vitinho. Ele nunca chegava fazendo barulho. Não precisava. A presença dele falava por si. Quando dei conta, ele já tava parado perto da mesa, mãos no bolso, olhar sério, observando tudo. Do jeito dele. — Bom dia — ele disse, voz firme. — Bom dia, chefe — respondi, levantando o olhar. Ele odiava esse “chefe”, mas deixava passar. Sentou na cadeira de frente pra mim, apoiou os cotovelos na mesa e ficou olhando o dinheiro espalhado. — Movimento bom? — perguntou. — Dentro do esperado. Nada fora do normal. Ele assentiu, mas o olhar dele parecia distante, como se estivesse pensando em outra coisa. Conhecia aquele olhar. Quando Vitinho ficava assim, era porque alguma coisa tava se formando na cabeça dele. — Juninho — ele começou — sábado quero um baile. Levantei o olhar na hora. — Baile? — repeti. — É. Um baile grande. Fiquei em silêncio por alguns segundos, calculando mentalmente. Baile não era só música e bebida. Era logística, segurança, organização, contato com DJ, bebida, controle de entrada, saída, polícia, rival, tudo. Um erro e virava caos. — Beleza — falei. — Já tinha pensado em algo ou quer que eu resolva tudo? Ele apoiou as costas na cadeira, cruzou os braços. — Quero que você organize tudo. Do jeito que sabe fazer. Assenti. — Tem alguma exigência específica? Ele demorou um pouco pra responder. — Quero presença vip — disse, por fim. — Algumas mulheres. Gente bonita. Que chame atenção. O jeito que ele falou isso me fez estranhar. Vitinho nunca foi de pedir esse tipo de coisa. Mulher sempre teve em volta dele, mas ele nunca fez questão. Nunca demonstrou interesse real. Aquilo não era comum. — Algum nome específico? — perguntei, tentando manter o tom neutro. Ele me encarou por alguns segundos longos demais. — Não — respondeu. — Só seleciona bem. Assenti de novo, mas por dentro minha mente já tava ligada. Juntando peças. — Segurança reforçada? — continuei, profissional. — Dobrar a segurança. Não quero surpresa. — DJ? — Escolhe um que levante a favela. — Bebida? — Capricha. Ele levantou, ajeitou a camisa. — Confio em você — disse, antes de sair. Fiquei olhando ele se afastar, sentindo aquele peso estranho no peito. Vitinho nunca fazia nada sem motivo. Aquele baile não era só diversão. Tinha algo a mais ali. Voltei pro dinheiro, mas agora a cabeça tava a mil. A imagem da Mariana sentada na lanchonete, discreta, observando tudo com cuidado. O jeito que ela falava comigo, curiosa, sem julgamento. E Layla… sempre Layla, com aquele sorriso fácil que escondia tanta coisa. Suspirei fundo. Terminei a contagem, fechei o caderno e levantei. — Atenção geral — falei, batendo palmas. — Sábado vai ter baile grande. Quero todo mundo atento. Quem vacilar, tá fora. Alguns sorriram, outros assentiram sérios. Passei o resto da manhã resolvendo contato com DJ, bebida, fornecedores. Peguei o celular, liguei, negociei preço, exigi compromisso. Aqui ninguém brinca com meu nome. Entre uma ligação e outra, minha mente insistia em voltar pro olhar do Vitinho quando viu Mariana. Eu conhecia meu amigo desde moleque. Nunca vi ele daquele jeito. Não foi desejo explícito. Foi algo mais perigoso. Interesse. Curiosidade. Aquilo que mexe com estruturas. E isso me preocupava. Porque Mariana não era desse mundo. E Vitinho… era o dono dele. No meio da tarde, sentei num canto mais afastado, acendi um cigarro e fiquei observando a favela lá de cima. Criança correndo, mulher estendendo roupa, moto subindo, som alto em alguma casa. Tudo normal. E ao mesmo tempo, tudo à beira do caos. Pensei na minha vida. Na minha mãe que nunca conheci. No meu pai, que se perdeu nas drogas. Na Lívia, que me deu um pouco do que era ser cuidado. Na Mariana, minha irmã, tentando viver longe disso tudo. E em mim, que nunca soube viver de outro jeito. O corre me moldou. Me fez frio quando precisava. Brincalhão com quem merecia. Leal acima de tudo. E agora, além de organizar um baile, eu tinha a sensação de que tava organizando o começo de alguma coisa grande. Daquelas que mudam o rumo de todo mundo envolvido. Apaguei o cigarro, levantei e voltei pro trabalho. Sábado prometia. E quando o morro promete… ele cumpre.
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