Capítulo 17

1080 Words
Capítulo — Narrado por Vitinho (Na boca, contando dinheiro) O barulho do morro nunca some de verdade. Ele só muda de tom. De madrugada é motor de moto, gargalhada solta, som vazando de casa em casa. De dia é martelo, criança correndo, rádio ligado, gente gritando de janela em janela. Na boca, o som é outro. Mais baixo. Mais contido. O som do dinheiro sendo contado, da conversa curta, do olhar atento. Eu tava sentado atrás da mesa, costas apoiadas na parede, dinheiro espalhado na minha frente. Notas separadas por valor, tudo organizado do meu jeito. Sempre fui assim. Controle. Ordem. Se eu perco isso, perco tudo. Pegava as notas, contava uma por uma, empilhava, conferia de novo. Não confiava só nos números. Confiava no olho, no tato, no peso do dinheiro na mão. Aprendi cedo que confiar demais em gente dá r**m. Dinheiro, pelo menos, não mente. Juninho tinha passado mais cedo, deixado tudo encaminhado. Baile marcado, contatos feitos, segurança reforçada. Do jeito que eu pedi. Confio nele como em poucos. Ele pensa rápido, age mais rápido ainda. Quando eu penso, ele já executou. Mas mesmo assim… minha cabeça não tava ali. Tava nela. Na irmã dele. E isso me incomodava mais do que eu queria admitir. Balancei a cabeça, tentando espantar o pensamento, e continuei a contagem. A porta do barraco da boca tava aberta, movimento normal. Vapor entrando, saindo, cada um sabendo exatamente o que fazer. Respeito não se pede, se impõe. E ali, todo mundo sabia quem mandava. Foi quando senti o perfume antes de ver a pessoa. Doce demais. Forte demais. Levantei o olhar devagar. Ela entrou como se fosse dona do lugar. Short curto demais, colado no corpo, camisa quase inexistente, maquiagem pesada, boca vermelha demais, cílios longos demais. Tudo nela era excesso. Excesso de pele, excesso de cor, excesso de intenção. Ela sorriu quando me viu. — E aí, Vitinho — disse, voz arrastada. Não sorri de volta. — Fala — respondi seco. Ela se aproximou mais, rebolando de leve, como se aquilo fosse impressionar alguém ali. Encostou a mão na mesa, inclinou o corpo pra frente. O perfume ficou ainda mais forte. — Fiquei sabendo do baile — falou. — Vim ver se você ia querer companhia. Olhei pra mão dela apoiada perto do dinheiro. Olhar firme, sem expressão. — Aqui não — falei. Ela franziu a testa. — Como assim? — Aqui é trabalho — respondi. — Não é lugar pra isso. Ela deu um meio sorriso, daqueles ensaiados. — Ué… pensei que você não fosse reclamar. Encostei as costas na cadeira, cruzei os braços. — Reclamar eu não reclamo. Mas também não faço bagunça onde mando. Ela me analisou de cima a baixo, como se tentasse decidir se insistia ou não. — Então onde você quer? — perguntou, voz mais baixa. Segurei o olhar dela por dois segundos. Só dois. — Barraco da 15 — falei. — Mais tarde eu colo lá. Ela abriu um sorriso satisfeito. — Sabia — disse. Levantei a mão, interrompendo. — Não confunde — falei. — Não é convite. É condição. O sorriso dela diminuiu um pouco, mas não sumiu. — Tranquilo — respondeu. — Te espero. Ela se afastou, saiu do barraco com o mesmo rebolado com que entrou. Assim que o perfume sumiu, respirei fundo. Não de alívio. De incômodo. Aquilo era automático. Sempre foi. Mulher nunca foi problema pra mim. Sempre teve, sempre vai ter. Mas ultimamente… tava diferente. Antes, era vazio. Corpo. Momento. Nada ficava. Agora, mesmo quando vinha alguém assim, oferecendo tudo de bandeja, minha cabeça insistia em ir pra outro lugar. Pra outro rosto. Fechei os olhos por um segundo e voltei pro dinheiro. Trabalho primeiro. Sempre. Continuei a contagem, mas minha mente começou a viajar sem pedir permissão. Lembrei do olhar da Mariana. Do jeito que ela ficou quieta na lanchonete, observando tudo. Não tinha medo explícito. Tinha atenção. Curiosidade contida. Inteligência. Ela não olhava pra mim como as outras. Não era desejo fácil. Era… leitura. E isso era perigoso. Porque eu não era livro pra ser lido. Eu era muro. Terminei a contagem, fechei os maços com elástico, anotei tudo no caderno. Levantei, fui até a janela da boca e olhei o morro lá embaixo. Tudo que eu tinha tava ali. Tudo que eu perdi também. Meus pais. A infância. A chance de ser outra coisa. Ganhei poder cedo demais. Respeito cedo demais. E junto veio a solidão. Quem olha de fora acha que é luxo. Não é. É peso. Desci da boca no fim da tarde. Passei em casa rápido, troquei de camisa, lavei o rosto. Layla tava no quarto, música baixa, provavelmente estudando alguma coisa. Evitei entrar. Não queria conversa naquele momento. Peguei a moto e subi em direção ao barraco da 15 quando o céu já começava a escurecer. O morro à noite tem outra energia. Luzes espalhadas, cheiro de comida, som distante. Cheguei, estacionei, subi os poucos degraus. Ela abriu a porta rápido, como se estivesse esperando há horas. — Achei que não vinha — disse. — Eu disse que vinha — respondi. Entrei. Ambiente simples, arrumado demais pra quem mora ali sozinha. Ela fechou a porta, se aproximou. — Quer beber alguma coisa? — Não — respondi. Ela fez um bico. — Você é sempre assim? — Assim como? — Fechado. Olhei pra ela. — Eu sou assim porque preciso ser. Ela se aproximou mais, passou a mão no meu braço tatuado. — Aqui você não precisa. Segurei o pulso dela com firmeza, mas sem machucar. — Não confunde as coisas — falei baixo. — Eu tô aqui, mas continuo sendo quem eu sou. Ela engoliu seco, assentiu. — Eu sei. Soltei o braço dela, me afastei um pouco. Aquilo tudo parecia mecânico demais. Previsível demais. E pela primeira vez, isso não me dava prazer nenhum. Minha mente voltou pra imagem errada. Pra pessoa errada. — Melhor a gente deixar isso pra outra hora — falei. Ela me olhou surpresa. — Tá falando sério? — Tô. Peguei a chave da moto, caminhei até a porta. — Fica tranquila — continuei. — Não te devo nada. Saí antes que ela dissesse qualquer coisa. Enquanto descia o morro de moto, senti uma coisa que eu não sentia há anos: conflito. Não era culpa. Não era arrependimento. Era consciência. E isso, pra mim, era mais perigoso do que qualquer inimigo armado. Porque alguma coisa tinha mudado. E eu ainda não sabia como lidar com isso.
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