Capítulo 10

1086 Words
CAPÍTULO — Juninho Narrado por Juninho A tarde caiu quente naquele dia. Daquelas que deixam o morro abafado, o ar pesado, o corpo suando mesmo parado. Eu tava encostado perto da boca, observando o movimento, rádio baixo no ouvido, atenção dividida entre o corre e meus próprios pensamentos. O dia tinha começado normal demais. Normal até demais pra quem vive cercado de tensão. Nenhuma notícia r**m, nenhuma movimentação estranha, polícia só rondando longe, como quem quer ser vista, mas não quer confronto. O tipo de dia que engana. Encostei na parede, puxei o celular do bolso e fiquei olhando a tela apagada por alguns segundos. Sabia exatamente pra quem eu queria ligar. E sabia também que aquela ligação mudava coisa demais pra ser feita no impulso. Mariana. Respirei fundo. Fazia tempo que eu pensava em chamar ela pra ir ao morro. Não pra mostrar o corre, não pra apresentar o caos, mas pra diminuir aquela distância invisível que sempre existiu entre nós. Ela sempre me recebia na casa dela, sempre no território dela, nas regras dela, no mundo organizado dela. Eu queria que ela visse o meu. Nem tudo. Só o suficiente. Mas o morro não é passeio. E ela nunca tinha pisado ali. Passei a mão no rosto, senti a barba rala, o suor escorrendo pela têmpora. Se eu ligasse, não tinha como voltar atrás. E eu nunca gostei de forçar nada com ela. Desbloqueei o celular. O nome dela apareceu rápido demais na tela, como se já estivesse me esperando. Apertei o botão de ligar antes que minha coragem acabasse. Chamou uma vez. Duas. — Alô? — a voz dela veio calma, daquele jeito que sempre me desmonta um pouco. — Ei, pequena. — Juninho… — ela sorriu do outro lado, dava pra ouvir. — Tá tudo bem? — Tá sim. E você? — Tudo. Trabalhando um pouco. Encostei melhor na parede, afastando o celular do barulho ao redor. — Tá ocupada agora? — Um pouco, mas posso falar. Aconteceu alguma coisa? — Não — respondi rápido. — Nada demais. Só… pensei em você. Ela ficou em silêncio por um segundo. — Aconteceu alguma coisa mesmo — ela disse, rindo de leve. Sorri sem perceber. — Relaxa. Eu só queria te chamar pra comer um lanche mais tarde. — Um lanche? — ela repetiu. — É. Coisa simples. Hesitei por um instante antes de completar: — Aqui no morro. O silêncio do outro lado foi mais longo dessa vez. Eu já esperava. — Juninho… — ela começou devagar. — Você sabe que eu nunca fui aí. — Eu sei. — E não é preconceito, é só… — ela parou, procurando as palavras. — Minha mãe nunca deixou. E agora… — Eu sei — repeti. — Não tô te obrigando a nada. Só tô convidando. Ouvi ela respirar fundo. — É perigoso? A pergunta veio baixa. Honesta. Olhei ao redor. Molecada rindo, gente passando, vida acontecendo. — Comigo, não — respondi firme. — E você não vai ficar sozinha nenhum minuto. Mais silêncio. — Eu fico com medo — ela admitiu. — É normal — falei. — Eu também fico. Todo dia. Ela riu fraco. — Você não ajuda. — Mas eu protejo. Ela suspirou do outro lado. — Que horas? Meu peito apertou. — Umas sete. Ainda tá claro. A gente come e você volta cedo. — Eu vou pensar — ela disse. — Tudo bem — respondi, sem pressionar. — Me avisa depois. — Tá — ela falou. — Juninho? — Oi. — Obrigada por chamar. — Sempre. Desliguei. Fiquei olhando o celular apagado por alguns segundos, sentindo algo que eu não sentia fazia tempo: expectativa. Daquelas que não deixam a gente em paz. Guardei o celular no bolso e voltei pro corre. Porque aqui sentimento não pode virar distração. O rádio chiou. — Juninho, carga chegando. — Já tô indo. Desci a viela rápido, mente focada, postura firme. Conferi tudo: quem chegava, quem saía, quem observava demais. Passei instrução, corrigi postura, cobrei atenção. O morro funcionava porque alguém segurava a linha. E esse alguém era eu… junto com o Vitinho. No meio da tarde, encontrei ele encostado mais acima, conversando com dois caras da contenção. Quando me aproximei, ele dispensou os dois com um gesto. — Fala — ele disse. — Tudo tranquilo — respondi. — Movimento normal. Ele me analisou de cima a baixo. — Tu tá diferente hoje. — Tô não. Ele deu um meio sorriso. — Tá sim. De novo. Revirei os olhos. — Que foi agora? — Tu anda sorrindo sozinho — ele respondeu. — Isso não é normal pra você. Balancei a cabeça. — Impressão tua. — Nunca é. Encostei do lado dele, observando o morro. — Chamei a Mariana pra vir aqui mais tarde — falei, como quem não quer nada. Vitinho virou o rosto devagar. — Chamou? — Chamei. — Ela vem? — Talvez. Ele ficou em silêncio por alguns segundos. — Tu sabe o que tá fazendo? — perguntou. — Sei — respondi firme. — Ou pelo menos acho que sei. Ele suspirou. — Aqui não é lugar pra ela, Juninho. — Eu sei — concordei. — Mas também não quero que ela viva com medo do que não conhece. Vitinho me encarou. — Você gosta dela mais do que devia. Engoli seco. — Talvez. Ele assentiu lentamente. — Então redobra o cuidado. — Sempre. Seguimos o resto da tarde resolvendo coisa pequena, mas minha cabeça voltava toda hora pra ligação. Pra voz dela. Pra dúvida dela. Pra possibilidade dela aceitar. No fim da tarde, peguei o celular de novo. Mensagem dela. Mariana: “Eu fiquei pensando… acho que eu vou.” Meu coração bateu mais forte do que devia. Juninho: “Tem certeza?” Demorou alguns minutos. Mariana: “Tô com medo. Mas confio em você.” Fechei os olhos por um segundo. Juninho: “Eu não vou deixar nada acontecer.” Mariana: “Então tá. Mais tarde você me explica melhor como chegar.” Guardei o celular com cuidado, como se fosse algo frágil demais pra quebrar. O sol começou a baixar, pintando o morro de laranja e vermelho. A favela ficava bonita nesse horário, mesmo com tudo que carrega. Bonita de um jeito que pouca gente vê. Eu encostei de novo perto da boca, respirando fundo. Ainda tinha corre pra fazer. Ainda tinha regra pra cumprir. Ainda tinha cuidado dobrado. Porque mais tarde… dois mundos iam se aproximar mais do que nunca. E eu sabia. Depois disso, nada ia continuar igual.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD