MARIANNA THOMÁZ
A noite já tinha virado madrugada e eu ainda estava ali, sentada no colo de Gabriel, sentindo o mundo desacelerar, a cidade parecia suspensa num silêncio bonito, quebrado apenas por nossas risadas e algumas confissões sussurradas entre um beijo e outro.
Mas, como todo encanto noturno, ele foi quebrado de repente.
— MARIANNA!!! — uma voz familiar cortou o ar, seguida por gargalhadas escandalosas.
Virei para ver duas figuras cambaleantes se aproximando. Minhas amigas Viviane e Jennifer todas mais bêbadas do que deveriam estar, cada uma agarrada a um homem diferente, todos com cara de quem já tinham errado bastante na vida, mas que ainda assim sabiam se divertir.
— Ah, não... — murmurei, rindo e escondendo o rosto no ombro de Gabriel.
— Conhecidas suas? — ele perguntou, com um sorriso de canto.
— Infelizmente.
Vivi chegou primeiro, tropeçando nos próprios saltos e com um copo quase vazio na mão.
— Miga, você tá VIVA! A gente te perdeu no bar! — Ela se apoiou no meu ombro, os olhos arregalados ao ver Gabriel. — Eita. Agora entendi por quê.
Jenni, sempre a mais direta, apontou o dedo pra ele como se estivesse diante de um item raro de colecionador.
— Quem é esse pedaço de céu com voz de filme?
— Gente, esse é o Gabriel. Gabriel, essas são... as descontroladas. — Eu tentei parecer séria, mas minha risada entregou — Viviane a ruiva, e Jennifer a metade loira e metade morena. — brinco Jenni ri, ela deixava seus cabelos metade loiro e metade preto, ela dizia que na dúvida era as duas, loira e morena.
— Encantado. — Ele respondeu com um charme natural, mas sem exagero, aquilo me deixou ainda mais encantada, ele não se afetava por nada.
Vivi agarrada num loiro fortão com cara de modelo de academia, olhou pra mim com um sorriso safado.
— Miga, você tá precisando de um trato. O moço aí... — ela apontou com o copo — pode te dar um trato BEM dado, viu?
Minhas bochechas esquentaram. Gabriel apenas olhou pra ela, depois pra mim, com aquele olhar calmo, seguro, firme.
— Marianna não precisa de um trato. — Ele disse, com a voz grave, clara e sem qualquer afetação. — Ela precisa de alguém que cuide da mulher preciosa que ela é.
O silêncio foi imediato. Até as bêbadas ficaram quietas.Jenni fez um "oooooown" dramático e levou a mão ao peito.
— Ah não, agora eu que quero um Gabriel pra mim!
— Esquece, amiga, ela venceu. — Vivi suspirou. — A Mari ganhou a loteria do romance.
— Tá... — Jenni tentou recuperar a pose. — Mas ele pelo menos dança bem?
— Dança como se fosse feito pra isso. — respondi, e Gabriel riu, encostando os lábios no meu ombro.
— Posso provar de novo, se quiser.
— Cês tão melosos — Jenni revirou os olhos. — Vamos embora que eu acho que tô apaixonada pelo segurança do bar, ou pelo irmão gêmeo dele, não sei qual dos dois beijei.
— As duas coisas, provavelmente. — disse Vivi, puxando a amiga pelo braço.
— Se mudar de ideia sobre dar um trato nela, me chama. — Jenni fala, mas para me provocar e ver minha reação, elas sempre fazem isso.
Eu nem precisei reagir. Gabriel apenas respondeu com um meio sorriso, e voltou a me olhar como se o mundo inteiro estivesse nos meus olhos.
— Eu sou homem de uma mulher só. E por enquanto... — ele disse, virando o rosto até encostar os lábios nos meus — minha mulher é você.
Minhas amigas se afastaram aos tropeços, ainda rindo, ainda zoando, e eu fiquei ali, completamente atordoada, mas não pelo vinho, nem pela noite, nem pelas loucuras das meninas.
Foi ele, Gabriel. O jeito que ele falava, como se me escolhesse com convicção, como se não houvesse dúvidas, vomo se eu fosse, de fato, preciosa.
— Você não precisa dizer essas coisas, sabia?
— Mas eu quero, e tudo o que eu disse é verdade.
— Você m*l me conhece.
— Conheço. Desde que você falou comigo, lá no bar.
— Você é intenso demais.
— E você... — ele passou os dedos na minha bochecha, num carinho suave — tem medo de quem te olha com verdade.
— Talvez.
— Não precisa ter, eu não vou te machucar.
Ficamos em silêncio de novo, um silêncio confortável, que dizia mais do que qualquer outra coisa.
Me recostei nele, fechando os olhos por um instante, tentando gravar cada detalhe daquela noite na memória.
— Sabe — falei, depois de um tempo —, eu nunca tive alguém que falasse assim comigo.
— Assim como?
— Com calma, com certeza, sem tentar me dobrar, me impressionar ou me manipular.
— Porque você não precisa disso. Você é impressionante por si só, Marianna, quem tenta te dobrar é porque tem medo de você livre.
Aquilo me atravessou como uma flecha, me virei de leve, encarando ele de novo.
— Quem é você, Gabriel?
Ele sorriu, como se não fosse a primeira vez que escutava isso.
— Alguém que cansou de fingir. E que encontrou em você a primeira verdade que quis ficar.
— E se eu não quiser ficar?
— Eu vou respeitar. Mas vou esperar.
— Esperar?
— Esperar você decidir voltar, porque uma mulher como você... não passa despercebida. E quando a gente encontra, a gente não larga fácil.
Ele estava ali, tão perto, tão inteiro, e eu... eu já estava entregue, mesmo sem dizer, mesmo sem assumir.
— Eu deveria estar com elas. Com minhas amigas. Fazendo parte da bagunça.
— E por que não está?
— Porque você me segurou. E eu deixei.
— E se eu continuar segurando?
— Eu fico.
E ele me segurou, com os braços,com os olhos, com aquela presença quente e segura.
E por um bom tempo, não nos movemos, só ouvimos a cidade acordando aos poucos, com barulhos distantes, luzes surgindo devagar.
— Gabriel?
— Hum?
— E se amanhã você não quiser mais cuidar da mulher preciosa que você acha que eu sou?
— Aí eu te peço pra me lembrar. Porque, sinceramente... se eu tiver esse privilégio, não quero esquecer nunca.
Eu encostei a testa na dele, os olhos fechados, o coração em paz, pela primeira vez em muito tempo.
Talvez fosse o vinho, talvez a madrugada, talvez ele.
E, sinceramente? Eu não queria que o dia amanhecesse.