1 - Realidade

987 Words
ACE O som das vozes na sala de reuniões me esgota mais do que qualquer coisa. Tem dias em que sinto que meu mundo inteiro se move em círculos, girando, girando, sem sair do lugar. Hoje era um desses dias. Um em que eu só queria voltar para casa e tirar essa gravata maldita que me aperta como se quisesse me lembrar de que ainda estou preso. — Senhor Montesino, com sua autorização poderíamos... — Faça como quiser, Alfonso. Só me mande o relatório. — cortei, já me levantando. O relógio no meu pulso marcava cinco e vinte e sete. Quase gargalhei. Imaginei o olhar impaciente da Luna, os braços cruzados e aquele pé batendo no chão com uma irritação que ela nem tentava esconder. A cada novo atraso meu, ela fazia a mesma cena. Não gritava, não chorava, não era esse o estilo dela. Mas eu a conhecia. Ou pensava que conhecia. Sabia que tudo não passava de encenação. Sabia que, no fim, ela sempre me esperava. Sempre. Desde o dia em que selamos aquele acordo, eu sabia o que esperar. Um ano. Um ano de convivência, aparências e distância segura. Um casamento de fachada. Um contrato social que ela topou assinar sem sequer hesitar. E mesmo dormindo no mesmo quarto, mantivemos uma distância. Nada de toques, nada de envolvimento, nada de complicações. Eu nunca a toquei. E, por algum tempo, achei que era exatamente isso que ela queria. Mas havia dias em que seu olhar dizia mais do que suas palavras. Dias em que ela me encarava com uma dor que eu não sabia nomear, e, portanto, escolhia ignorar. Até que ela parou de me lançar olhares e começou a exigir com palavras. Exigências que nunca fiz questão de cumprir. O amor da Luna é uma coisa constante desde a adolescência, mas ela não costumava me cobrar nada, essa foi uma das razões pelas quais a escolhi um ano atrás. Claro, tinha outros pontos a seu favor, como o fato de ser bonita, encantadora, de boa família e elegante. Nunca imaginei que o casamento lhe faria pensar que tinha direitos sobre mim. Agora, sentado no banco traseiro do carro, o motorista cortando as ruas velozmente, imagino qual seria o sermão de hoje. “Você nunca escuta”, ela diria. “Você nunca vai mudar.” Eu ouviria tudo calado, tomaria um banho frio e, no dia seguinte, tudo voltaria ao normal. Era assim. Era sempre assim. Até que não foi. A casa estava estranhamente silenciosa. Entrei, afrouxando a gravata sem vê-la na sala me esperando. — Luna? — chamei, sentindo algo dentro de mim começar a se contorcer. Não houve resposta. Em vez disso, Thalita apareceu na entrada da sala, os olhos úmidos e o rosto sombrio como se viesse de um velório. — Senhor Montesino... — Onde ela está? — perguntei, imediatamente. Ela apenas estendeu um envelope. — Ela pediu que entregasse isso. — A voz dela é um fio prestes a arrebentar. Por um segundo, imagino que chore, mas ganha controle e acrescenta, num sopro: — Ela pediu que eu dissesse… que não se preocupe com a fortuna. Peguei o envelope, ainda sem acreditar que era o que eu pensava. A caligrafia no verso me trouxe para a realidade: Luna Bexter. Não Montesino. — O que é isso? — minha voz saiu mais baixa, sem a autoridade de sempre. Lita não respondeu. Apenas recuou, como se não quisesse testemunhar o que viria a seguir. Subi as escadas em dois passos de cada vez. — LUNA! — chamei, mais alto agora. Queria ouvir sua voz saindo do closet. Queria vê-la aparecer na porta com aquele olhar de raiva prestes a explodir. Qualquer coisa. Qualquer reação. Mas o quarto estava vazio. O guarda-roupa escancarado e limpo. Sem vestidos coloridos, sem os sapatos desalinhados que ela nunca guardava direito. Sem seu perfume no ar. Tudo havia sumido. Um arrepio percorreu minha espinha. Ainda segurando o envelope fechado, fui até a biblioteca. A poltrona que ela ocupava, sempre que chegava do trabalho com um livro aberto e uma xícara de chá, estava intacta. Como se nunca tivesse sido usada. A imagem que eu esperava não estava lá. Nada estava. Só o som abafado do meu próprio coração batendo forte demais no peito. Voltei para o quarto, sentei-me na cama e, finalmente, abri o envelope. Os papéis do divórcio deslizaram para meu colo. Assinados. Não havia nenhuma exigência de bens materiais. Aquilo me feriu de um jeito que eu não esperava. Luna não queria meu dinheiro. Não queria nada. Apenas ir embora. E dessa vez, ela foi. De verdade. Revirei os pensamentos como quem busca uma falha, uma chance de que isso fosse só mais uma ameaça, uma encenação. Quantas vezes ela ameaçou partir? Quantas vezes disse que estava cansada? Que eu era ausente, frio, que não via nela mais do que uma conveniência? Mas ela nunca foi. Nunca cruzou a porta. Porque, até então, eu era o suficiente para fazê-la ficar. Mesmo que fosse com raiva, mesmo que sofresse escondida, ela sempre ficava. E eu achei que ela ficaria para sempre. Que absurdo. Eu tinha uma mulher de verdade ao meu lado e a tratei como um item decorativo. Um nome bonito para figurar nos eventos. Uma aliança no dedo para calar a imprensa. Nunca me perguntei se era insuportável viver comigo. Nunca pensei em como era deitar todas as noites ao lado de alguém que não a tocava, que não a ouvia, que não a enxergava. Luna se calou tanto que eu achei que seu silêncio era conforto, e não cansaço. Mas era cansaço. De mim. E o pior de tudo é que eu senti a falta dela no instante em que entrei em casa. No momento exato em que não a vi ali, esperando com sua impaciência habitual. Meu erro não foi tê-la deixado partir. Foi tê-la empurrado para a saída todos os dias.
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