LUNA
Acendo a luz do meu novo apartamento e dou um passo para dentro, ainda desacreditando do que acabei de fazer. O imóvel é silencioso, acolhedor e limpo, com tudo em seu lugar. Os móveis ainda não são muitos, mas foram escolhidos por mim com cuidado, modernos, funcionais e bonitos. Um espaço só meu, longe daquela mansão onde tudo parecia grande demais, frio demais… e vazio demais.
Largo as chaves sobre o aparador, escorrego os sapatos dos pés e caminho pela sala de estar com o coração acelerado, mas leve. Me jogo no sofá de linho claro e fico ali, deitada, encarando o teto com uma sensação estranha de alívio e incredulidade enquanto enrolo um cacho castanho entre os dedos.
— Eu não acredito que consegui. — digo em voz baixa, como se dizendo em voz alta tornasse tudo mais real.
Não precisei esperar ninguém abrir essa porta. Não esperei o som de passos atrás de mim. Não precisei esconder minha dor ou medir minhas palavras. Esse espaço não foi herdado, nem imposto. Eu o escolhi. Assim como escolhi recomeçar.
Fecho os olhos por alguns segundos, absorvendo o silêncio confortável que me envolve. Pela primeira vez em meses, talvez anos, me sinto dona de mim.
Mas, inevitavelmente, a mente começa a girar.
Como vou contar isso aos meus pais? A pergunta surge com força, trazendo um frio no estômago. Eles sabiam que o casamento era de conveniência, sim. Mas acreditavam que era um bom negócio. Que me traria segurança, visibilidade, estabilidade. Eles não sabiam, ou fingiam não saber, que Ace não me olhava nos olhos há meses, que nunca me tocou, mesmo dormindo na mesma cama, que me tratava como parte do mobiliário.
E meus amigos? Vai ser difícil explicar. Ouvir as perguntas, os conselhos tardios, os julgamentos disfarçados de preocupação. Mas ao mesmo tempo… que se dane. Quem realmente gosta de mim vai entender.
Quem me conhece sabe que eu não sou impulsiva. Que só fui embora porque não havia mais forma de suportar.
Balanço a cabeça, afastando o turbilhão de pensamentos. Não quero perder minha primeira noite sozinha remoendo dúvidas.
Comida ou malas?
Olho para a mala de mão ao meu lado e lembro das outras duas no carro. Subi com pressa, querendo entrar logo. Ainda não decidi o que vai para cada cômodo, o closet está vazio, as gavetas também. Mas antes de me forçar a mover um músculo sequer, abro o celular e começo a olhar o app de delivery.
Sushi? Uma salada? Talvez uma massa com molho de queijo ou um hambúrguer com batatas gritas…
Antes que eu decida, a tela se acende. Meu celular repete vibrações curtas e um nome conhecido se exibe.
ACE MONTESINO.
Meu corpo congela. O nome dele parece mais distante agora. Como se pertencesse a outra vida. A outro mundo.
Observo a tela, sem tocar em nada. A ligação continua por alguns segundos, depois vai para o correio de voz. Ele não deixa mensagem.
Nem deveria. Ele não é de fazer segundas tentativas ou falar. Nunca foi. Em nossos jantares, o silêncio sempre falou mais alto que qualquer palavra. Ace não era c***l. Mas era ausente. E no fim das contas, ele me machucou mais com o que não fez do que com o que fez.
O celular vibra novamente, outra chamada. Ignoro. Não quero ouvir sua voz. Não agora. Talvez nunca. Mas o fato é que ainda vou precisar encontrá-lo até terminarmos os trâmites do divórcio.
Me levanto e vou até a janela. As luzes da cidade se espalham como constelações artificiais. É tudo tão diferente da mansão, não existe mais uma rotina sufocante que me obrigava a usar máscaras o tempo inteiro.
Sinto um peso cair dos ombros.
Aqui, não sou a “senhora Montesino”. Sou só Luna. Luna Bexter. Uma mulher que decidiu não viver pela metade. Que escolheu sair antes de se perder de si mesma. Ainda não sei o que quero fazer de agora em diante, mas será um grande prazer descobrir.
Deixo o celular de lado, pego a chave e desço até o carro para buscar o restante da bagagem. Quando volto, já com as malas em mãos, o telefone está com duas chamadas perdidas e uma inusitada notificação de mensagem de voz, que eu também não escuto.
Guardo as roupas no closet novo, perfumado, ainda com cheiro de madeira recente. Cada cabide colocado nele é um passo em direção à independência. Roupas minhas, compradas por mim, dobradas do meu jeito. Não mais separadas por ordem de eventos sociais ou o que é digno de uma Montesino. Apenas o que eu gosto, o que me serve, o que me representa. As outras peças agora estão nas mãos de quem as usará com mais alegria.
Mais tarde, finalmente peço comida. Uma massa com molho branco e cogumelos trufados. Algo que me conforta.
Sento na varanda com meu prato no colo e uma taça de vinho branco. O céu está limpo. A cidade parece viva, mas não me ameaça. Sinto que finalmente pertenço ao espaço em que estou.
E, mesmo que o nome dele ainda esteja no meu celular, mesmo que a voz dele ainda viva em alguma parte silenciosa da minha mente, eu sei que fiz a escolha certa, ou, pelos menos, a escolha certa pensando em mim.
Hoje, estou cuidando de mim.
E amanhã… amanhã eu posso até ouvir o que ele tem a dizer.
Mas só se eu quiser.