6 - Sair com as amigas

1151 Words
LUNA Os dias passaram como se o tempo escorresse em uma ampulheta. Acordar sozinha tem sido estranho, não exatamente r**m, só… diferente. Faço café para mim e como devagar enquanto olho pela janela. O apartamento ainda não tem minha alma, mas tem paz. E por ora, isso basta. Com o tempo sei que ele vai se ajustar ao meu gosto. Tenho ocupado meu tempo com tudo que antes deixava para depois. Organizei completamente os armários, doei todas as roupas que não tinham mais a ver comigo, comprei livros que sempre quis ler e nunca pude começar. Tem uma pilha na mesinha de centro, como um lembrete de que agora posso escolher o que entra e o que fica. Ainda não contei aos meus pais sobre o divórcio, o fato de não terem feito nenhuma ligação nervosa indica que Ace também não contou. Mas pretendo fazer isso amanhã. Também voltei a correr. Bem cedo, antes do sol queimar. Gosto da sensação do corpo cansado, do suor limpando o peito, da música nos fones abafando os pensamentos. E hoje… hoje eu vou sair. Daniela e Priscila, minhas amigas desde a época da escola, me chamaram para beber. Fazia um tempo que a gente não se encontrava, também vou aproveitar essa oportunidade para contar a elas. Ajeito o vestido preto no corpo. Ele é bonito e me cai bem. Me olho no espelho e passo um batom vinho, coisa que nunca usava. Ace preferia tons claros. Dizia que vermelho chamava atenção desnecessária. Ele nunca precisou proibir. Bastava um olhar e eu sabia o que deveria mudar. Agora não. Agora sou eu quem escolhe. Respiro fundo e pego a bolsa. Antes de sair, olho para o telefone pela última vez, vendo que as meninas já estavam me esperando A vida está seguindo como tem que seguir, mas mesmo assim, uma parte de mim, uma parte pequena e teimosa, se pergunta se ele pensou em mim hoje. Se olhou para o lado e sentiu falta do travesseiro que eu usava. Da caneca com meu nome. Do meu perfume. Balanço a cabeça, como se isso fosse capaz de espantar as memórias. Não. Agora é sobre mim. Sobre voltar a viver. Sobre me lembrar de quem eu era antes de me perder naquela casa, naquele nome, naquele homem. A cidade está viva quando desço do carro. Luzes, vozes, buzinas, tudo pulsa em um ritmo que eu tinha esquecido como acompanhar. O bar escolhido pelas meninas é um daqueles lugares modernos, com luz baixa, decoração industrial e música que vibra mais no peito do que nos ouvidos. Passo pela porta de vidro e avisto Daniela e Priscila imediatamente, em uma mesa de canto, rindo de algo que uma delas acabou de dizer. As duas se viram ao mesmo tempo quando me aproximo, e seus rostos se iluminam como se eu não tivesse adiado nossos encontros por meses. — Luna! — Daniela se levanta e me abraça forte. — Olha pra você! Tá linda, mulher! — Tá mesmo — acrescenta Priscila, me puxando para um beijo no rosto. — E esse batom? Tô apaixonada. — Obrigada. — sorrio, um pouco tímida, mas genuinamente feliz por estar ali. Elas pedem mais uma rodada de drinks, e em poucos minutos, estamos rindo como adolescentes outra vez. Falam sobre ex-namorados, chefes malucos, séries ruins e acasos engraçados da vida. — E você, Luna? — pergunta Priscila, por fim, com um olhar curioso. — Como você tá? Não falou sobre sua vida nenhuma vez desde que sentou aqui, só nós estamos tagarelando. O momento chega. Eu sabia que viria. Abaixo o olhar por um segundo, inspiro e volto a encará-las. — A gente está se separando. — Faço uma pausa curta. — Eu saí de casa há alguns dias. As duas reagem com um coro de espanto. — Amiga... — Daniela toca minha mão. — Você tá bem? — Eu estou sim. De verdade. Foi… foi uma decisão difícil, mas necessária. Eu já estava sufocada. Eu já não me reconhecia mais. Elas assentem, e percebo que não preciso explicar demais. Sempre souberam que havia algo em mim que se calava quando o assunto era meu casamento. — Estou morando sozinha agora. Voltei a fazer coisas que gostava e estou criando minha nova rotina. — Sorrio. — Me dei conta que ainda gosto de coisas que parei de fazer. — Você nunca deixou de gostar — Priscila diz. — Só... esqueceu por um tempo. Mas isso acaba hoje. Hoje a gente vai rir, beber e fazer planos divertidos pra vida, como fazíamos no colégio. — Sem homens controladores. — Daniela completa, erguendo o copo. — Amém. — digo, batendo meu copo no delas. A música muda. Agora é uma batida mais envolvente, dançante, que parece convidar o corpo a se mover mesmo contra a vontade. O bar não tem uma pista propriamente dita, mas há um espaço livre perto do balcão onde algumas pessoas já começam a se deixar levar pela melodia. — Essa é boa demais. — diz Daniela, se levantando e puxando Priscila. — Vem, Luna! — Eu… não sei. — Nada de "não sei". Vem! — Priscila pisca e dá uma voltinha improvisada. — Hoje você não pensa, só sente. Elas vão para o centro do bar e eu fico observando, o copo ainda na mão. A música me chama, e meu corpo responde antes da minha mente. Quando percebo, já estou indo. Fecho os olhos por um instante, deixo o som tomar conta. Me movo devagar no começo, como se estivesse tentando lembrar uma língua que já falei fluentemente. E então, acontece: eu me solto. Rio. Giro. Sinto o tecido do vestido tocar minha pele, sinto o calor das luzes, a sensação maravilhosa de estar ali, viva. É quando um homem se aproxima. Alto, cabelo castanho ou talvez preto, a luz não permitia decifrar, expressão tranquila, barba por fazer. Um homem que claramente sabe que não precisa chamar atenção para ser notado. — Posso? — pergunta, a voz baixa para não competir com a música, mas ainda assim clara. Olho para ele, depois para minhas amigas, que já estão sorrindo como cúmplices de uma travessura. — Claro. — minha resposta sai antes mesmo de pensar. Ele se aproxima, as mãos respeitosamente afastadas do meu corpo, e começamos a dançar. Ele me acompanha com uma facilidade impressionante, como se entendesse meu tempo e meu espaço. — Você dança bem. — ele diz, depois de um tempo. Não parece cantada e sim uma constatação. — Fazia tempo que eu não dançava. — confesso, com um sorriso que me surpreende. — Parece que seu corpo não esqueceu. Sorrio de novo e ele me gira. — Você vem sempre aqui? — pergunta ele, quase rindo da própria frase. — Hoje é a primeira vez. — respondo. Não pergunto o nome dele. Nem ele o meu. Por agora, somos só dois desconhecidos que escolheram dançar juntos.
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