7 - Meu brinquedo sendo desejado

938 Words
ACE A casa estava tão quieta que o barulho da água escorrendo no filtro parecia alto demais. Eu encostei na bancada da cozinha com copo de vidro na mão, observando as gotas escorrerem pelas laterais. Bebi um gole, tentando ignorar a ansiedade que apertava o estômago e a dificuldade em dormir nas últimas noites. Desde que ela saiu, o silêncio tinha virado meu novo companheiro. Não restava um único resquícios daquele perfume de Jasmim pela casa O celular vibrou em cima da bancada. Uma notificação. Depois outra. Já sabia que era o Bob antes mesmo de olhar. Desbloqueei a tela. "Ela chegou." A primeira foto mostrava Luna descendo do carro. Usando um vestido preto que moldava o corpo dela, o cabelo cacheado que se destacava, o batom vermelho. Um tipo que ela nunca usava. Pelo menos não quando estava comigo. Segunda foto é dela entrando em um bar. Terceira ela está abraçando a tal da Daniela e a outra... Priscila. Revirei os olhos. Dois exemplos de má influência em forma de gente. Duas que sempre incentivaram Luna a "ser mais livre", e esquecer de mim. Mesmo assim, admito, ela estava bonita. Bonita de um jeito que me irritava. Bonita de um jeito que não me incluía. Antes que eu pudesse decidir se ampliava a foto ou jogava o celular longe, outra mensagem chegou. "Chefe o senhor precisa ver isso." Cliquei no vídeo. A imagem tremia um pouco, mas dava pra ver perfeitamente. Luna estava dançando. No começo sozinha, depois com ele. Um homem que eu nunca vi na vida. Alto e com um ar descontraído demais pro meu gosto. Ele se aproximou e ela… ela não recuou. Pior. Ela sorriu. Sorriu com os olhos, com a boca, com o corpo todo. Um riso solto, que girava junto com ela no meio daquela música ridícula. Era como se ela nunca tivesse pertencido a outro lugar. Como se ela nunca tivesse pertencido a mim. O copo estalou na minha mão. O som veio seco, mas agudo o suficiente pra me tirar do transe. Olhei pra baixo. Vidro rachado, pedaços pequenos cravados na pele. Um corte mais fundo começava a verter sangue, escorrendo pela lateral da palma até o pulso. Vermelho vivo. Quente. Mas eu não senti dor. Eu só sentia a imagem dela repetindo na minha cabeça. Ela girando. Ela sorrindo. Ela sendo vista. Desejada. Por outro homem. Larguei os cacos na pia com um barulho metálico. O sangue manchou a superfície clara. Peguei um pano de prato da gaveta, enrolei na mão, sem muito cuidado. O celular ainda estava aceso na bancada, pausado no frame exato em que ela jogava a cabeça pra trás e ria. Quero quebrar ele também. Quero sair. Quero beber. Mas não devo. Preciso estar sóbrio para vigiar o que é meu. Peguei o celular da bancada com a mão boa, a outra ainda envolta no pano agora encharcado de sangue. Abri o chat com Bob. "Não tire os olhos desse cara. Principalmente enquanto ele estiver perto da Luna." A resposta veio segundos depois. "Pode deixar, chefe. Estou de olho." Respirei fundo, tentando acalmar o coração que batia num ritmo errado. Não era só raiva. Era outra coisa. Uma sensação desconfortável, parecida com uma criança que tirou os olhos de seu brinquedo e agora outra se interessou em brincar com ele. Mas outra criança querer brincar não muda o fato que esse brinquedo me pertence. Subi as escadas e entrei no quarto ainda com o pano manchado de sangue apertando minha mão. A dor agora começava a pulsar, latejando insistentemente mas eu não recuaria. Tirei a camisa e joguei na poltrona, abri a gaveta da cômoda e peguei a bandagem que tinha na caixa de primeiros socorros da Luna. Enrolei a faixa no corte com uma calma que não condizia com o que estava acontecendo por dentro. Por dentro, eu estava em chamas. Queimando por dentro de um ciúme tão ácido que parecia corroer até os ossos. E tudo isso porque ela dançou. Porque ela sorriu. Porque ela permitiu ser tocada por outro. Troquei de roupa. Camisa escura, jeans escuro e um relógio no pulso. Peguei o celular de novo. Bob tinha mandado mais duas fotos. Uma dele pegando o telefone dela. Outra... os rostos mais próximos do que deveriam quando ela se despede e volta para as amigas. Meus dedos apertaram o aparelho com tanta força que por um segundo pensei que quebraria também. Só que esse eu ainda precisava. "Ela está rindo, chefe. Parece que deu o número pra ele", Bob escreveu. Desci as escadas, vesti a jaqueta, peguei as chaves do carro e, já no portão, digitei calmamente: "Hoje, a Luna pode ficar sem vigia." A resposta de Bob veio quase instantânea, como se soubesse que aquilo era o sinal que ele esperava. "Entendido, chefe. O que faço com o outro?" O outro. Ele não tinha nome. Nem precisava. "Leve ele para um passeio nas montanhas." Três pontinhos de digitação apareceram e sumiram. Quando a resposta veio, foi direta. "Com ou sem celular?" Sorri de canto. "Sem. Se encarregue de que o aparelho tenha um acidente irreparável no caminho." E antes que ele me perguntasse mais alguma coisa, finalizei: "Vou encontrar com vocês depois. Quero explicar pessoalmente por que ele deve manter distância da minha esposa." Guardei o celular no bolso, liguei o carro e saí sem pressa. Hoje será só um aviso, não sei se ele é o tipo de homem que acha que pode tocar o que já tem dono. Mas logo saberei se ele é dos que entende de maneira fácil ou da maneira mais difícil.
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