Capítulo 3 – Entre Olhares e Desafios

1625 Words
Não foi um beijo. Nem uma palavra. Foi o olhar. O jeito como ele me observou do outro lado do pátio, entre risos e conversas com os amigos. Não era invasivo, nem descarado. Era intenso. Como se ele não precisasse tocar para marcar. Naquele instante, mesmo com todos ao redor, senti como se fôssemos só nós dois — de novo. E, honestamente, eu estava cansada de sentir assim. Como se o mundo parasse cada vez que nossos olhares se cruzavam. Fechei o livro com força e saí da biblioteca. — Ele tá fazendo de novo — sussurrou Bianca, me seguindo até o corredor. — O quê? — Te puxando com os olhos. E você, como sempre, indo. — Eu não tô indo. — Tá, Isa. E nem adianta negar. Você pode até não beijar, não tocar. Mas já tá dentro. — Não tô apaixonada. — Não precisa estar pra se perder. No dia seguinte, durante a aula de direito penal, Cael sentou do meu lado. Não pediu. Só sentou. Seu joelho tocava o meu de leve. A pele dele quente demais. A presença, sufocante e viciante. Fingi estar anotando algo no caderno, mas meu corpo inteiro estava ciente dele. Do cheiro. Do calor. Da proximidade. — Tô te incomodando? — ele murmurou. — Tô tentando aprender. — E eu tentando entender. — O quê? — Você. Esse muro. Essa sua mania de lutar contra o que já tá acontecendo. — Você adora esse joguinho, né? — E você adora fingir que não tá jogando também. — Talvez porque não seja um jogo pra mim. — Então o que é? Virei o rosto pra ele. Olhos nos olhos. — Uma distração perigosa. Ele sorriu. — Sempre fui bom em ser perigoso. A professora chamou atenção. Me virei rápido, o rosto quente. Cael voltou a se recostar na cadeira, satisfeito. Como se tivesse ganhado mais uma rodada. À tarde, ele me chamou pra estudar. "Só estudar", ele disse. Nos encontramos na área externa da biblioteca, perto das mesas de pedra. Ele trouxe livros, anotações... e dois cafés. — Não sabia que você bebia isso — brinquei. — Não bebo. Mas achei que você precisava. Aceitei o café e sentei. Tentamos focar por uns vinte minutos. Mas as palavras escapavam da minha boca mais rápido que os parágrafos do livro. — Por que você é assim? — perguntei, encarando-o. — Assim como? — Provocador. Confuso. Intenso. Um cara que aparece na minha vida e decide me virar do avesso. — Porque eu sou o que ninguém teve coragem de ser contigo: verdadeiro. Engoli em seco. — E você não tem medo de sentir? Ele respirou fundo. Desviou o olhar por um segundo. Pela primeira vez, vi um traço de vulnerabilidade. — Tenho medo de te perder... mesmo sem nunca ter te tido de verdade. Fiquei em silêncio. Meu coração afundou e voou ao mesmo tempo. — Você me vê, Isa. E isso me assusta mais do que qualquer sentimento. Ele se aproximou, apoiando os cotovelos sobre a mesa. — E você? Tem medo de me sentir? — Eu tenho medo de me entregar. — E se eu te prometer que vou segurar firme? — E se você soltar? — Então você me ensina a voltar. A voz dele saiu baixa, quase quebrada. E o meu silêncio foi a resposta que ele entendeu. Depois daquela tarde, tudo mudou. Ainda não nos tocávamos como antes. Ainda não havia beijos, nem carícias. Mas havia olhares. Olhares que gritavam no meio da aula. Que ardiam no refeitório. Que explodiam nos corredores silenciosos. Olhares que me deixavam com raiva por querer mais. E com medo de querer tudo. Certa noite, voltando do laboratório, encontrei ele na escadaria da entrada do bloco. Sozinho. Mãos nos bolsos. Olhar no chão. — Tava me esperando? — perguntei, parando em frente a ele. — Talvez. — Nada vai acontecer, lembra? Ele sorriu, mas era um sorriso fraco. — Então por que eu sinto que já tá acontecendo? Dei um passo pra trás. — Não começa com isso. — Não é pra começar. É só pra não fingir. — E depois? Quando um de nós cansar? Ele se aproximou. Só um passo. Mas foi o suficiente pra me prender. — Eu não quero que isso acabe antes de começar. Mesmo que doa. Mesmo que eu me perca. Porque com você, Isa, até o medo tem gosto de verdade. Meu coração queria dizer “sim”. Minha razão gritava “corre”. — E se eu não conseguir te dar o que você espera? — Eu não espero nada. Só quero que você fique. Meus olhos arderam. Minha garganta travou. — E se amanhã... eu não conseguir mais fugir? — Então amanhã a gente se encontra no mesmo lugar. — E se eu disser... que talvez eu já tenha começado a sentir? Ele sorriu. Aquele sorriso que fazia tudo parecer menos assustador. — Então te vejo amanhã, Isa. E foi embora. Sem me beijar. Sem me tocar. Mas deixando em mim mais do que qualquer beijo poderia ter deixado. No dia seguinte, tentei seguir minha rotina normalmente. Fingi que estava focada na aula, anotei as falas do professor, até conversei com Lorena sobre o trabalho final, mas meu corpo inteiro só reagia a uma coisa: a presença dele. Mesmo quando Cael não estava por perto, era como se o ar ainda tivesse o cheiro dele. O toque do olhar. O silêncio que dizia “eu sei que você sente.” E eu sentia. O problema é que, quanto mais eu sentia, mais insegura eu ficava. Eu não sabia se era amor, atração ou confusão. Mas era forte. E estava crescendo. Aquele olhar dele não era o de alguém que quer vencer uma aposta. Era o de quem quer vencer um muro. O meu. Na saída do prédio, ele me esperava. — Você sempre aparece quando eu tô tentando esquecer que você existe — falei, cruzando os braços. — E eu sempre apareço quando você mais precisa lembrar. — Lembrar do quê? — Que sentir não é fraqueza. Que nem tudo precisa ser dor. — Você não me conhece, Cael. Ele se aproximou, devagar. — Não ainda. Mas quero conhecer. Olhei nos olhos dele e vi ali algo que me desarmou mais que qualquer toque. Uma verdade que ele tentava esconder até de si mesmo. — Eu não sei se tô pronta pra isso — confessei. — E se a gente não estiver falando de estar pronto? E se for só sobre permitir? Fechei os olhos, inspirando fundo. A vontade de beijá-lo me queimava por dentro, mas eu sabia o que podia acontecer se eu desse esse passo. Ele não seria só mais um. Ele seria o começo de uma bagunça que eu não sabia se podia controlar. — Eu tenho medo de você — sussurrei. — Eu também tenho medo de mim, quando tô com você. — Então por que insiste? — Porque talvez você seja a única coisa que eu quero enfrentar, Isa. À noite, deitei na cama e encarei o teto por horas. Lorena já dormia, a respiração leve, serena. E eu? Me sentia à beira de um colapso emocional. Ele me olhava como se já me conhecesse por inteiro. Como se visse as partes de mim que até eu ignorava. E isso era assustador. Porque ninguém nunca tinha me enxergado desse jeito. Nem meu ex. Nem eu mesma. Cael me via. Não pela aparência, nem pela pose. Mas por dentro. Onde doía. Onde eu fingia que estava tudo bem. Ele me via. E isso mexia comigo de um jeito que eu não sabia se conseguia controlar. Dois dias depois, o professor Álvaro nos chamou para apresentar o projeto em dupla. Cael chegou pontualmente, vestindo uma camisa escura que realçava ainda mais os olhos. Tinha barba por fazer, cabelo bagunçado... e um sorriso de quem sabia exatamente o que estava fazendo. — Pronta? — perguntou, colocando a mochila sobre a mesa. — Para o trabalho ou pra você me desmontar de novo? — Os dois. Suspirei. — Só quero que dê tudo certo. — Vai dar. Confia em mim. — Você fala isso como se fosse fácil confiar. — Com você nunca foi fácil. Mas vale a pena. Entramos na sala juntos. Apresentamos o projeto lado a lado, e ele respeitou cada espaço, cada fala minha. Não interrompeu. Não tentou se exibir. Apenas esteve ali — comigo. Presente. Conectado. E, quando a apresentação terminou, o professor Álvaro nos elogiou. — Vocês têm uma sinergia natural. Química intelectual — ele disse, sorrindo. Cael lançou um olhar pra mim. —Química a gente tem mesmo, né, Isa? Revirei os olhos, mas a verdade é que aquela química... ela estava em cada respiração minha perto dele. Na saída da sala, ele me puxou pelo braço, com gentileza. — Me dá uma chance. — Pra quê? — Pra te mostrar que talvez não precise mais fugir. — Eu só sei fugir, Cael. É o que eu faço quando me machuco. — E se você se machucar comigo, eu fico. Eu cuido. Eu não fujo. Fiquei em silêncio. O coração apertado. Ele segurou meu rosto com as duas mãos. Os olhos dele estavam sérios agora. Profundos. — Você ainda vai me amar, Isa. Nem que seja amanhã. — E se eu disser que já comecei? O sorriso dele sumiu. O olhar se perdeu por um segundo, como se não estivesse preparado. — Então me vê amanhã — ele disse, com a voz baixa. — E depois? — Depois a gente escolhe, todo dia, de novo. Dormi pensando naquilo. Que talvez amar fosse isso: uma escolha constante, mesmo com medo. Mesmo sem garantia. E talvez... só talvez... Amanhã, eu escolhesse ele.
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