Capítulo 2 – Nada Vai Acontecer

1721 Words
Acordei com a sensação de que algo estava fora do lugar. Não o travesseiro. Nem a claridade pela fresta da janela. Era dentro de mim. Como se alguém tivesse entrado sem pedir e deixado marcas pelo caminho. Eu ainda sentia o gosto do beijo. A forma como ele me puxou pela cintura, como se soubesse exatamente onde me tocar para me desarmar. Me olhei no espelho e desejei não me ver tão diferente. Mas estava. E o pior? Eu não queria estar. — Você tá com cara de quem foi atropelada por um furacão bonito — disse Lorena, enquanto escovava os cabelos em frente à penteadeira. — Você é sempre tão direta assim? — Só com quem eu gosto. — Não foi nada — murmurei, sentando na beirada da cama. — Você sabe que ele tá jogando, né? — E eu também. — Isso vai dar merda, Isa. — Eu sei. Mas por enquanto... nada vai acontecer. Ela me olhou com pena. A pior forma de carinho. — Já aconteceu. Você só não tá pronta pra admitir. Na universidade, evitei passar pelos corredores onde normalmente esbarrava em Cael. Mas evitar Cael Montenegro era como tentar fugir do vento. Ele aparece. Ele rodeia. Ele entra pelas brechas. E, como se fosse obra do destino — ou da ironia — nos encontramos na escadaria do bloco A. Ele estava encostado no corrimão, mexendo no celular, com um sorriso preguiçoso nos lábios. Quando me viu, guardou o celular no bolso da calça e caminhou até mim, como quem não tem pressa nenhuma para parar de me olhar. — Fugi de você o dia todo — disparei, cruzando os braços no peito. — Eu sei. E isso só me deixa mais interessado. — Vai cansar uma hora. — E você vai ceder antes disso. — Convencido. — Realista. Ele parou bem na minha frente. Tão perto que pude contar os cílios dele. Tão perto que meu coração se esqueceu de como bater de forma discreta. — Vamos parar com isso, Cael. Não vai acontecer nada. — Aposta é aposta, Isa. — Mas se a gente continuar assim, alguém vai sair ferido. Ele deu um meio sorriso e respondeu com uma voz baixa, quase um sussurro: — Que bom. Porque só se machuca quem sente. À noite, Bianca me arrastou para o barzinho da esquina do campus. — Você tá precisando relaxar — disse, enquanto pedia dois drinks. — Ou vai morrer envenenada com tanta tensão s****l reprimida. — Eu tô bem. — Tá uma negação ambulante, Isadora. Você gosta dele. E ele gosta de brincar com isso. — Isso não é amor. É carência disfarçada de atração. — Não se engane. Carência não olha daquele jeito. Suspirei. Queria discutir, mas ela tinha razão. A forma como ele me olhava... era perigosa. Como se estivesse tentando me fazer esquecer do mundo e lembrar só dele. No meio da segunda rodada de drinks, Cael entrou no bar. Claro. Aparentemente, o destino também gostava de ironia. Ele caminhou até nossa mesa sem cerimônia. Sentou-se do meu lado, com aquele jeito relaxado, braços esticados no encosto da cadeira, como se fosse dono do lugar — e de mim. — Estou interrompendo? — perguntou, olhando para Bianca. — Não — ela respondeu, seca. — Eu já ia embora. — Claro que ia. Bianca me lançou um olhar de alerta antes de se levantar. Quando ela saiu, Cael virou o rosto na minha direção. — Você fica linda com raiva. — E você fica insuportável com essa autoconfiança. — Quer que eu pare? — Quero. Ele se inclinou mais. — Mente pior que do que finge que não ma olha. Revirei os olhos, mas meu corpo já estava em chamas. Cada palavra dele acendia uma parte de mim que eu jurava ter apagado. — Nada vai acontecer entre a gente, Cael — repeti. — Já tá acontecendo, Isa. Você só tá tentando fingir que não sente. — E você sente? — O tempo todo. — Mentira. — Quer que eu prove? Ele se aproximou como se o bar inteiro tivesse sumido. Como se só existisse eu e ele. Como se o ar entre nós fosse feito de promessas não ditas. Mas eu virei o rosto. Na última hora. Como se ainda existisse um fiapo de racionalidade dentro de mim. — Isso não é certo. — Então me errado. — Não. — Por quê? — Porque você me desmonta. — E você me reconstrói, Isa. Só com um olhar. Na volta pro alojamento, caminhei sozinha. O vento cortava o rosto, mas não o suficiente para esfriar a pele que ele tinha incendiado. Cael era tudo que eu não queria. E tudo que eu desejava no escuro. Ele era instável. Intenso. Inesperado. Mas quando ele me olhava... eu me sentia vista. Não como uma garota qualquer, mas como se ele enxergasse todos os pedaços que eu escondia. Deitei na cama e encarei o teto. Talvez Bianca estivesse certa. Talvez eu estivesse tentando negar o óbvio porque era mais fácil do que admitir que estava me apaixonando por alguém feito de provocações e silêncios. Alguém que dizia com os olhos o que minha razão lutava para não ouvir. Mas uma parte de mim já sabia. Nada vai acontecer. Era só mais uma mentira bonita que eu contava pra mim mesma. Tentei focar no estudo, na leitura sobre os fundamentos da advocacia humanista que o professor Álvaro tanto defendia, mas o nome de Cael se intrometia entre cada parágrafo, como uma vírgula fora do lugar, uma lembrança que não pedia licença. Por que ele não saía da minha cabeça? Talvez fosse o modo como ele me olhava. Como se estivesse sempre dois passos à frente de mim no jogo que juramos não jogar. Talvez fosse o fato de ele nunca pressionar, mas também nunca recuar. Ele estava sempre ali, mesmo quando eu fingia que não. Mas nada ia acontecer. Eu tinha certeza disso. Ou pelo menos queria ter. --- Na manhã seguinte, ao entrar na sala para a aula de Álvaro Silveira, lá estava ele. Cael. Sentado ao fundo, pernas esticadas, expressão relaxada, como se estivesse num filme que ele já sabia o final. E claro, com o olhar fixo em mim. Meus passos vacilaram, mas continuei até minha cadeira. Sentei, abri o caderno e tentei ignorar a fisgada no peito quando ouvi a cadeira dele arrastar. Ele trocou de lugar. Sentou-se uma cadeira atrás da minha. De novo. — Vai continuar fingindo que não sente nada? — ele sussurrou, rouco, baixo, só pra mim. Não virei. Apenas respirei fundo. — Vai continuar fingindo que isso é só um jogo? Ele se aproximou. O calor da respiração dele tocou minha nuca. — Você quer que eu diga que perdi a aposta? — Você quer que eu diga que ganhei? — E se a gente tivesse perdido juntos? A voz do professor nos interrompeu. Mas o estrago já estava feito. As palavras dele ficaram dentro de mim, pulsando como batidas fora do ritmo. “E se a gente tivesse perdido juntos?” --- No intervalo, Bianca me puxou pelo braço e me levou para o lado de fora do prédio. — Tá me deixando nervosa esse negócio entre vocês dois — ela disse, de cara fechada. — Você diz que não sente nada, mas fica parecendo uma adolescente apaixonada. E ele... ele parece um vicuado prestes a te destruir. — Eu sei — respondi. — Mas não é tão simples. — É exatamente simples, Isa. Ou você entra nisso consciente ou pula fora antes que acabe engolida. O problema é que eu te conheço. Você diz que não quer se envolver, mas seu olhar grita outra coisa. — Eu tô tentando ser racional. — O amor nunca foi racional. E com o Cael... ou você se entrega inteira ou vai sair em pedaços. Mais tarde, nos encontramos na biblioteca para terminar o trabalho em dupla. Cael chegou atrasado, com o cabelo bagunçado, camiseta escura e aquela postura desleixada que escondia uma tensão de quem sabe o que faz com quem toca. Sentou de frente pra mim, folheou alguns papéis, mas não leu nada. Me encarou. — Você tem medo de mim? — Tenho medo do que você desperta em mim. — Então somos dois. Porque você me desmonta e eu nem sabia que tinha peças soltas. — Você não sente, Cael. Você provoca. Ele se inclinou sobre a mesa. O olhar dele me atravessou inteira. — Você acha que isso é só provocação? Que cada vez que eu encosto em você eu não tô tentando entender por que você me tira o chão? Engoli em seco. — E por que você não foge? — Porque você é o primeiro lugar onde eu quero ficar. E isso me assusta. Meus olhos arderam. O ar da biblioteca parecia mais denso. Não havia mais voz de fundo, nem páginas sendo viradas. Só nós dois. E tudo aquilo que nos cercava. — Então por que você aposta comigo? — Porque apostar era mais fácil do que admitir que, desde a primeira vez que te vi, eu quis ser algo que durasse. — Você tem fama de sumir, Cael. — E você tem fama de fugir. — Eu não fujo. Eu sobrevivo. — Então sobrevive aqui, comigo. Só por hoje. Fechei os olhos. Estávamos tão perto. Tão perigosamente perto de algo que nem sabíamos nomear. — Nada vai acontecer — repeti, como se as palavras pudessem ser um escudo. — Vai sim — ele respondeu. — Porque já tá acontecendo. E negar só atrasa o que a gente já sente. Depois da biblioteca, fui direto pro alojamento. Não queria mais me ver em espelhos. Nem nas palavras dele. A verdade era simples: eu estava sentindo. E Cael… Cael estava me bagunçando mais do que qualquer pessoa tinha feito. Ele me provocava com uma dose de carinho disfarçado, com uma atenção silenciosa que grita mais que qualquer declaração. E quando ele me olhava, eu não era só a garota que teve o coração partido. Eu era alguém inteira, vista. Desejada. Instigada. Mas era perigoso. Ele era perigoso. E eu tinha prometido nunca mais amar alguém que pudesse me destruir. Talvez por isso eu continuasse repetindo como um mantra: “Nada vai acontecer.” Mesmo sabendo que, no fundo… tudo já estava acontecendo.
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