Na noite estrelada no céu de Salem ainda faltava uma estrela, seu nome era Fernanda. Uma
estrela que estava presa em seu quarto, vendo seu reflexo no espelho. Não era um espelho
qualquer, isso era fato. Uma peça maravilhosa, com bordas que imitavam ramos e flores em
tom de ouro velho. O seu formato lembrava a um diamante. Às vezes, Fernanda acreditava que
o próprio espelho era um diamante.
O fascínio que ele exercia sobre ela justificava seu pensamento. Quando ela alugou a casa no
centro antigo de Salem, o espelho já estava lá. À sua espera, dizia ela sorrindo para as amigas.
O celular tocava insistentemente mas Fernanda decidiu não sair naquela noite, queria ficar em
casa. Pegou o seu antigo álbum de família e viajou nas lembranças. Sentia saudades de sua
mãe que falecera dois anos após o seu nascimento. Estranha saudade, afinal, não se lembrava
de momentos com aquela moça da foto que lhe trouxera ao mundo, mas aquele sorriso
despertava todos os sentimentos em Fernanda. Até mesmo o ódio. Ódio pelos ditames do
destino.
As horas passavam, um corvo bateu estabanado no vidro da janela, o que a assustou de
imediato.
Levantou-se para dormir, cansada e com olhos marejados viu seu reflexo mais uma vez no
espelho. Tocava as maçãs de seu rosto pensando se sua mãe a acharia bonita, se faria suas
tranças aos fins de semana naquele longo cabelo preto. Se elogiaria sua saia azul-marinho
com bolinhas brancas. Se criticaria a camiseta lilás que usava naquela noite. Um turbilhão de
pensamentos tomou conta dela enquanto estava diante do espelho.
O corvo bateu o bico contra o vidro fosco da janela ao tentar comer alguma coisa que lhe
instigara o apetite.
Fernanda olhou de relance para ele, não deu atenção, não havia motivos para isso. Voltou a
olhar para o espelho, algo nele havia mudado, sim. Havia algo mais. Algo que a fez gritar um
grito mudo, calado, que apenas ela ouvia. Sua mãe estava ali. Sorria para ela o mesmo sorriso
da foto. Fernanda não correu, queria, mas suas pernas eram duas peças de chumbo. Sua voz
foi roubada.
O corvo bateu asas.
Imóvel, fechou os olhos por alguns momentos para desfazer aquela ilusão. Ao abri-los
percebeu que sua mãe estava mais próxima. Sorrindo e chorando. O telefone chamou outra
vez, mas não importava perder mais uma ligação. Como muito esforço conseguiu ir para a
cama, tentou em vão dormir. Noite após noite Fernanda via sua mãe ali no espelho, no mesmo
horário, entre meia noite e três da madrugada. Se acostumou com aquela presença, arriscava
um boa noite vez ou outra. Amiúde achava que sua sanidade estava abalada. Mas no fundo
sentia que aquela era sua mãe. Assustada, deu início a um diálogo. Foi a deixa para o medo
ficar perdido sob a cama. Sua mãe passou a lhe contar como sempre esteve do lado dela.
Citava momentos importantes da vida de Fernanda, esta, por sua vez, passava cada vez mais
as noites sozinha e trancafiada em seu quarto.
Na quarta semana, notou que sua mãe estava definhando. Semblante abatido era sua marca.
Ousou a perguntar o motivo daquele ar anêmico. Sua mãe, cansada, lhe respondera que
precisava ir embora, seu tempo havia acabado. Agora iria descansar em paz em um plano
incompreensível para a carne. Isso a deixava triste em parte, afinal não veria mais Fernanda.
Sua menininha.
O corvo voltou a bicar o vidro entreaberto da janela. Mas as lágrimas nos olhos de Fernanda
impediram que ela o visse.
Do espelho ainda veio um conselho, Fernanda deveria doá-lo.
- Me sentirei melhor sabendo que você não passará horas em frente a ele esperando por mim.
- Disse sua mãe.
Fernanda relutou, porém acabou aceitando o pedido. Escreveu um sms para Kátia, sua melhor
amiga, dizendo que queria presenteá-la com o espelho. Sabia que sua amiga adorava-o. Sua
mãe pediu um abraço. Fernanda, em lágrimas prontamente atendeu. Se aproximou do vidro do
espelho de braços abertos. Os braços de sua mãe saíram do vidro. A apertou fortemente. Um
abraço cálido. Maternal. Infernal. Uma dor assolou o peito de Fernanda. Seu coração acelerou.
Parou. Não houve grito. Lágrimas. Apenas um abraço e uma alma roubada. A alma de
Fernanda agora estava no espelho. Em mundo sem esquina. Longe de sua Salem, longe das
amigas, trabalho, do celular e da vida. Agora estava próxima da Salem que apenas o corvo e a
noite conheciam.