A sensação de estar sendo observado... Mas, por quem, se não ver um rosto, uns olhos que o
acompanhe? Não, tudo isso é fruto de sua imaginação, afetada (afetada?) por as horas extras,
ao lado da máquina, na atenção presa às caixas sendo impressas, descendo pela esteira,
tendo à frente dessas, o seu auxiliar Tavinho.
É, a nossa imaginação cria outra dimensão em tudo!
Sorri, ante a conclusão que tudo esclarece.
Então, o vigilante abre o portão largo, e ele passa, no carro.
- Até amanhã, José.
- Até amanhã, Seu Hélio.
A avenida transversal praticamente vazia de carros, motos e pedestres nas calçadas laterais,
devido à hora avançada da noite.
Ah, se no transcorrer do dia houvesse esse quase nenhum movimento!
- Seria bom demais...
Diz, dando voz a conclusão do que reflete e, avança.
As residências conjugadas, de luzes acesas. O morro por trás dessas, com outras casas,
escadarias, postes acesos. A figura feminina que sobe os degraus. Solitária. Indo ao seu
destino, e tudo sob o comando de uma Grande Força. E... A sensação de estar sendo
acompanhado retorna. Não, não pode ser. Precisa se consultar com um médico: deve estar
“esgotado” pelo excesso de trabalho noturno. Pensando no que não existe, criando uma
fantasia do nada!
Mas... Aquela mocinha de short e blusa branca, sozinha na parada dos ônibus, lhe acena?
Aproxima-se. Curioso e atraído pela figura que agora se lhe mostra alta, esguia, bonita, ainda
acenando-lhe com a mão espalmada num convite ao pecado?
Estaciona. Desce o vidro da porta ao lado da direção e, sorrindo, indaga:
- Vai para aonde, mocinha?
- Pra cidade.
Pausa. Também sorri e inquire:
- O senhor vai pra cidade?
- Vou. Entre.
Ela então atende, abre a porta e ocupa o banco ao seu lado.
Ele parte, como se vivendo dentro de um sonho, que de repente o acolhe.
- Um sonho bom...
- O senhor falou?
- Não, não.
O sorriso e, por enquanto, se limita a dirigir e espera...
2
Pelo que provavelmente ocorrerá.
O delegado Rômulo enquanto dirige, vai refletindo no caso do carro abandonado à beira-mar
da Praia de Candeias, com o homem morto sobre a direção.
A primeira análise pensou que o Cara tivesse sofrido um ataque repentino do coração ou...
- Chefe vem cá, por favor.
O soldado Duda seu acompanhante nas investigações criminais, alertou-o e ele se
aproximando, viu os dois furos paralelos, ao lado esquerdo do pescoço do morto.
- Essas marcas, como se o Elemento tivesse sido atacado...
- “Tivesse sido atacado?”.
- Chefe, atacado por um animal, uma cobra ou...
Ele sorriu e prático, para o seu assistente criminal:
- Tá pensando demais Duda! Com o laudo, a gente descobre o que houve.
Silenciaram. Intrigados com as marcas, já arroxeadas, no pescoço do cadáver.
Agora se indaga mais uma vez, o que terá mesmo ocorrido? Sim, o laudo responderá o que de
fato aconteceu.
Repete-se e... Sente-se como se estivesse sendo acompanhado. Contudo, acompanhado por
quem, se está sozinho?
- Tolice minha.
Procura se desculpar.
Para se esquecer, liga o som vizinho à direção e assoviando a música do samba antigo,
avança, com o carro cruzando a Avenida Beberibe, praticamente deserta de veículos e
pedestres.
Na parada dos coletivos, a figura alta, esguia, de short e blusa brancos, ergue o braço e com a
mão espalmada desse, acena.
Inocente, o delegado se avizinha. Do que o espera, numa repetição mortal.