Adeus lua

1003 Words
Mais um serão, que terminará às 6 da manhã seguinte, quando a outra turma assumirá o comando do novo expediente que irá até às 18hs. Refletindo, Tadeu vai descendo a escadaria longa, estreita. Nas laterais as residências conjugadas de porta, janela e algumas com a varanda e o murinho à frente, com o portão baixo. Vida sacrificada essa sua. Um dia se libertará de tudo, encontrar-se-á com outro emprego, outra vida? - Só o futuro dirá. Sim, o futuro lhe responderá. Por enquanto, é se acomodar em ser operador da impressora, para ganhar a própria sobrevivência e a da mulher, a Rita. Vence os degraus. A barraca à esquerda, com dois homens bebendo, debruçados no balcãozinho de fora, conversando. O barraqueiro n***o, Seu Júlio, sentado à frente da mesma, seguindo o movimento da rua, com pedestres, carros e motos. - Boa noite. - Boa noite, Tadeu. Ele sorri, adianta-se. Conhece todos daqui do bairro. É bom, prático se fazer popular. O lugar é “carregado”, tem de tudo... Caminha. Cabisbaixo. Apressando-se. Sem tardar, “bate” o cartão. - Tás no serão, Tadeu? Indaga o vigilante atrás do birô, indiscreto como sempre. - Pois é, Zé. Serão. Repõe o cartão no quadro ao lado do relógio, na parede e, vencendo os degraus à direita, encaminha-se ao salão adiante, o chamado “coração da fábrica”. A noite então já envolve os telhados das seções conjugadas. O bueiro estreito, comprido, destaca-se, cortando-a. A zoada ritmada das máquinas já se faz ouvir. - No serão também, colega? Voltando-se de lado, responde: - Tou, Negrinho. Começo hoje. - É bom porque a gente fatura mais um pouco. - É isso aí. Adentram no salão gigantesco. E se apressam em trocar de roupa, vestir os macacões. Assumir as funções. Fora, no lado oposto do muro que limita o domínio da indústria com a avenida, os veículos transitam nessa em velocidade, aproveitando o pouco movimento, prenúncio de que a noite amadurece. E os sons dos pneus e buzinas se fazem ouvir. Tadeu pressiona o botão e a impressora começa a trabalhar. Toc, toc, toc, toc... Sentando-se no banquinho próximo, ele segue as caixas abertas, descendo na esteira. Um dia, quem sabe? Talvez se encontre “noutra”... Esperançoso sorri, aquietando a alma. - É degrau demais pra o meu gosto. Reclama baixinho, em desabafo, o sujeito magro, alto, amulatado, de roupa e sapatos brancos. Veste-se assim quando vai trabalhar, executar a nova “missão”. - Estão aqui os retratos, o endereço do s****o e tua parte. A mão bem tratada lhe passou o envelope com as fotos e as cédulas. Recebeu-o. Sério. Concentrado no que o doutor lhe falava, esclarecendo-se. - A outra parte só depois do “serviço” feito... Tudo certo? Então ergueu o rosto e fitando o outro nos olhos apertados pela gordura das faces amareladas, respondeu: - Tudo certo. Novamente a mão veio ao seu encontro, apertou-a, concluindo a entrevista e, erguendo-se: - Vou agir, doutor. Pode ficar calmo. - Sei, sei. Conheço o seu potencial. Tchau! Saiu devagar da sala larga, bem mobiliada, moderna. Movia-se se autocontrolando, pois sabia estar sendo seguido pelos olhos do doutor. Agora, é entrar no carro, que está na garagem da rua transversal e ir cumprir sua “missão”... Vencendo a escadaria, encontra os dois homens na barraca, bebendo. - Tudo “joia” aí, amigos? - Tudo “nos conforme”, Ivan. Ele se adianta, apressando-se, para evitar uma provável indagação, dar “bandeira” do próprio “serviço”... Um dos homens com os olhos segue-lhe e, para o outro, que também acompanha a figura já reduzida pela distancia: - O de “branco” vai trabalhar... O silêncio então os abraça, na conveniência prática, necessária à própria sobrevivência. É a lei do bairro, a voz que cala. Na cadeira à frente do estabelecimento, o barraqueiro finge cochilar. Também prático, conhecedor que é da poderosa lei, enquanto a noite “madura” tudo envolve. Residências. Veículos. Pedestres. E o automóvel que ganha a avenida praticamente deserta. Dirigindo-o, o homem antevê a cena. O senhor gordo, bem-vestido ao entrar na rua, saltar e ser atingido... - Assim é que funciona. Acelera. Indo ao encontro do que planejou e executará. O desejo de repente chega e vai dominando-o... Abandona a janela, de onde vê o céu e a lua cheia passeando devagarzinho. Cruza o quarto. Abre a porta e desce a escada em caracol. Apressado. Na sala embaixo, a mulher idosa segue-o com os olhos críticos, contudo, nada pergunta, pois sabe que o rapaz não lhe responderá. Ele em passos largos corta o ambiente e abre a porta envidraçada. A mulher desvia os olhos, fingindo se prender às cenas da novela, na televisão defronte. A porta bate macia, fechando-se. - Silvinho saiu... Diz baixinho, resumindo-se. Para onde irá esse menino nessa hora noturna? Algum encontro amoroso? - Essa mocidade de hoje é assim mesmo: cheia de novidades, avançada! Outra vez fala, e busca se limitar á história repetitiva do drama amoroso, na telinha. No carro, o rapazinho sente o gosto adocicado do que sugará. E os caninos crescem. Suando, acelera. No céu, a lua passeia tranquila, testemunha das cenas e mistérios noturnos. Adiante, a jovem esguia caminha, rebolando as ancas no charme próprio da idade. O automóvel estaciona ao meio-fio: - Você quer uma carona, morena bonita? O carrão cinza, importado, o rosto de traços corretos do seu condutor, de cabeleira n***a, grande, na moda... - Tá bem, aceito. A porta se abre, e a adolescente entra. Sorrindo, vai de rosto voltado ao que o carro deixa para trás. Residências. Um ou outro pedestre. Uma moto. A praça deserta. “Curte” o passeio, inocente do que a espera. Logo, Silvinho desvia o carro e estaciona no terreno baldio. Perplexa a moreninha indaga: - Mas... O que houve? Os lábios se abrem no sorriso c***l e... No céu, a lua então se esconde numa nuvem, para não presenciar.
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