A rua estava deserta. Apenas a iluminação lúgubre dos postes acompanhava o andarilho em sua caminhada para lugar nenhum. As vozes em sua cabeça lhe diziam para continuar e ele ia. A madrugada reserva um sentimento que é imperceptível em outros momentos do dia. É possível ouvir o som do mundo. O som que ninguém mais ouve. O som dos passos e as batidas do coração, o ir e vir de outros perdidos, seus passos também retumbando à distância. Tempo para pensar. Nenhum barulho que te tire dos devaneios necessários a sanidade. Quando há sanidade. O que quer que essa palavra represente.
O andarilho tentava fugir de algo que nem sabia o que era, apenas seguia, afundando os pés no chão, e aspirando e expirando uma fumaça esbranquiçada que bem poderia ser sua alma. Subitamente as vozes lhe ordenaram que parasse. Levantou os olhos para o céu e viu a Lua. Uma bola branca pendente no zénite, bela em suas deformidades. As estrelas eram como olhos vivos observando sua movimentação e roubando seus pensamentos. Sentiu uma presença mórbida. Tentou encontrar possíveis nomes que pudesse chamar, mas nenhum lhe veio à mente. Não havia necessidades de nomes, não àquela hora da noite. Recomeçou a marcha monótona e repetitiva, que era um alívio. O ar começava a ficar denso, pesado. A fumaça que saia de sua boca e nariz agora se dispersava acima de sua cabeça, rodopiava, depois descia num espiral disforme. As luzes começavam a perder a força e as sombras cresciam vindas de baixo pra cima, saídas dos meios-fios e rodapés das construções em volta. Ouviu passos. Alguém se aproximava. Olhou em volta e não viu nada além das sombras. O silêncio então retornou tão profundo que agora ouvia o ranger da rótula chocando-se com o fêmur. Não sentia cansaço algum. Apenas uma vontade intensa de continuar andando. Virou então numa grande avenida. Estendia-se até onde a escuridão lhe deixava enxergar, a luz dos postes tornara-se fraca, e uma névoa fina começava a surgir dos becos nas laterais da imensa rua. Manteve-se na marcha e avistou um cruzamento. Duas figuras encontravam-se no centro do cruzamento, chegou mais perto e percebeu se tratar de um casal de idosos. Deteve-se e observou. Não estava tão perto para ouvir o que diziam, mas sabia que conversavam. O velho gesticulava sem parar enquanto velha senhora concordava com a cabeça. Os dois emitiam uma luz levemente dourada. A expressão do velho era grave. O andarilho aproximou-se mais alguns passos, e o casal olhou em sua direção. Começaram a fazer sinais que ele desconhecia, pareciam chamá-lo para perto. Mas estacou. Por mais que tentasse, não conseguia mover-se de nenhuma maneira. O casal então parou de gesticular, deu as costas para ele e seguiu até sumir na escuridão à frente. Fez mais um esforço para tentar mover-se, mas isso se mostrou inútil. Sentiu uma saudade que não compreendia quando o casal sumiu nas trevas. Esperou, e enquanto esperava sentiu a presença mórbida mais uma vez. O corpo então saiu da inércia em que se encontrava e pareceu mais pesado que nunca. Sabia que alguma coisa estava ali e dessa vez se deixaria ver. Olhou para trás, para o caminho de onde havia vindo e ao longe vislumbrou uma criatura estranha. Usava um manto n***o que não deixava nenhuma parte de seu corpo exposta, abaixo do capuz era possível ver apenas uma boca descarnada, sem lábios que sorria de forma grotesca. Asas negras e fibrosas envergavam-se saindo de suas costas. A figura no manto exibia no mínimo o dobro da altura do andarilho. Fechou os olhos por alguns segundos e as vozes voltaram, diziam para continuar em frente e ele o fez. Não sentia medo, apenas uma repulsa pela criatura que deixou para trás. Adiantou-se em direção ao cruzamento, não conseguia ver nada além da avenida principal, as transversais e becos continuavam tomados pela névoa fina. O andarilho caminhou pelo que lhe pareceu horas e finalmente a avenida chegou ao fim. Fazia uma curva a direita e era margeada a esquerda por uma praia tomada pela névoa. A única coisa visível além da rua que seguia sempre em direção a escuridão era um cais que se colocava mais a frente, havia apenas a ponte de madeira, nenhum barco estava atracado. Continuou seguindo, perdido em pensamentos desconexos. Os pensamentos eram como peças de quebra-cabeça que não se encaixavam, seria impossível tentar explicá-los. Perto da entrada do cais, Uma voz mais doce do que as que ouvira antes, lhe ordenou que parasse. Girou nos calcanhares procurando a figura n***a, mas não o viu ou sentiu sua presença dessa vez, olhou em direção a curva por onde havia vindo, mas vislumbrou novamente apenas o horizonte n***o que não o deixava enxergar além. Voltou-se para a frente mais uma vez e viu uma cena curiosa. Um menino bem pequeno, ajoelhado nas tábuas de madeira do cais, brincava com um caminhãozinho azul. A criança estava tão entretida fazendo o pequeno caminhão deslizar pela madeira corrida do cais que se perdia na névoa, que não havia sequer se dado conta de sua presença. Emitia uma luz levemente azulada, que pareceu ao andarilho, de uma pureza tão grande que destoava da névoa branca que se colocava atrás do menino e sobre o oceano escondido. O andarilho se permitiu alguns passos, e sentiu uma alegria que não lembrava nunca de ter sentido. Era algo que o deixava sem ar, não conseguia pensar ou respirar, apenas uma vontade imensa de sorrir. Sorriu então e por um momento o menino parou a miniatura de caminhão azul e seus olhares se cruzaram, o menino riu e abriu os braços, dizia coisas que o andarilho não entendia, como se as palavras se misturassem todas antes de chegar aos seus ouvidos, e o som que chegava era suave e límpido, mas ainda assim incompreensível. O andarilho então estacou como da primeira vez, mas dessa vez foi bem mais doloroso. Tentou mover as pernas em desespero, mas era impossível, sentiu então uma dor intensa, não uma dor propriamente física, mas sim nas profundezas de seu espírito. O menino percebeu que o andarilho não mais se movia, e começou a chorar. Um choro de criança, doído de ouvir. As lágrimas rolavam pelas bochechas vermelhas e caiam na madeira, estava desconsolado, batia nas próprias perninhas. O andarilho não conseguia sequer olhar para a cena. Também sentiu os olhos encherem-se de lágrimas que queimavam suas órbitas, debatia-se e gritava como se assim pudesse se livrar dos grilhões invisíveis que o prendiam. O menino então levantou, secou o rosto com a camisa, pegou o caminhão nas mãos e adentrou a nuvem de névoa do cais. As mãos invisíveis então afrouxaram e ele deixou o corpo cair no asfalto. Encolheu-se e chorou por horas sem conta. Era como se tivesse perdido tudo e queria entregar-se, ficar naquele chão e definhar até sumir. Sentiu então a presença mórbida mais uma vez. Levantou-se devagar e voltou a caminhar, deixando o cais pra trás. Seu rosto, pés e mãos formigavam. A escuridão se adensava à medida que caminhava e ele quase não podia enxergar nada. Subitamente um cheiro pútrido invadiu suas narinas, era forte e o deixava tonto, fazendo-o andar com dificuldade. Ouviu um guincho alto e viu surgir de dentro das trevas a sua frente um vulto n***o, de asas abertas, que pousou na rua dessa vez obstruindo seu caminho. As asas soltavam uma espécie de ** cinzento, e o andarilho teve certeza que era de lá que vinha o cheiro. A figura então encolheu as asas e ficou totalmente ereto fitando o andarilho por baixo do capuz. A boca descarnada escancarada num sorriso que poderia fazer um exército correr desvairado. O andarilho deteve-se por um momento e observou a criatura em posição estática. Num piscar de olhos, as asas abriram-se novamente, e ela alçou vôo, fazendo uma manobra que a levou de volta para a escuridão de onde havia vindo. O andarilho sentiu dessa vez, não mais nojo, mas raiva. Intensificou a marcha e continuou em direção ao lugar onde a criatura havia sido tragada pelo negrume. Quanto mais avançava, mais sentia a presença do inominável ser que se colocara em seu caminho. A escuridão começou então a se fechar sobre ele e as luzes pálidas dos postes sumiram. A treva total se fez a sua volta e o cheiro pútrido chegou as suas narinas mais forte que nunca. Sentiu uma raiva incontrolável e tateou na escuridão, não sabia o que encontraria e nem se importava com isso. Tinha dificuldades de puxar o ar para dentro dos pulmões, e estava prestes a sufocar. Lutou com todas as forças pra se manter de pé, até que caiu de joelhos segurando a garganta com as duas mãos. Engasgava. Olhou para a escuridão sem fim e viu o sorriso descarnado e imóvel, brilhando no escuro a apenas alguns passos de onde estava. Dessa vez sentiu medo. Não o medo dos covardes. Mas o medo do guerreiro que quer morrer lutando. O medo de morrer sem luta. Fez força para levantar, e dessa vez lhe pareceu uma força descomunal, sentiu seus músculos rasgando e a poeira exalada pela criatura queimar seus pulmões. Gritou e arrancou a própria camisa com as mãos como se para facilitar a entrada de ar, que se esvaia. A criatura avançou e garras saíram de dentro do manto em direção a sua garganta, abriu os olhos e viu o rosto por baixo do manto frente a frente com o seu. Dessa vez sentiu a urina quente descer pelas pernas. Os olhos eram vazios, eram de um n***o mais n***o que a treva em volta deles. O rosto era descarnado como a boca e não havia nariz. Havia vermes. Vermes amarelos e verdes saindo e entrando nos orifícios abertos que se encontravam na face. O sorriso continuava lá, mas era bem pior a essa distância. Os dentes eram apodrecidos e pontudos, e a língua vermelha sangue, infestada de furúnculos que expurgavam uma substância pastosa e esverdeada. O hálito da criatura fazia seus órgãos internos revirarem-se procurando sair do recipiente de osso e carne em que se encontravam. O andarilho fechou os olhos novamente. E Ouviu as vozes. Elas agora gritavam em sua mente. Diziam que precisava sair. Que o dia lá fora o esperava e que precisava sair. As garras do monstro apertavam mais e mais. Sentiu a língua fétida e apodrecida encostar em seu rosto. Um grito de terror explodiu em sua garganta, seguido de um jorro de vômito ácido e quente. Juntou toda a sua força restante e esticou os braços tocando o manto que lhe pareceu viscoso e frio, e num último esforço, projetou o corpo para frente afastando a criatura.
Luzes. Luzes ofuscaram e machucaram seu olhos que voltaram a fechar. Gritos. Não como os que ouvira minutos antes. Gritos de alegria. Abriu os olhos e dessa a vez a luz não o feriu, estava num quarto perfeitamente limpo, deitado numa cama macia, com o corpo totalmente coberto por um lençol branco de algodão. Ao seu lado havia uma pequena máquina, com um monitor n***o e riscos verdes que eram desenhados automaticamente numa seqüência nem um pouco uniforme. Algumas agulhas espetavam-lhe os braços, e delas saiam tubos ligados a bolsas com líquidos que lembravam água. Olhou em direção as vozes e viu um casal de idosos se precipitar sobre a cama. Reconheceu-os de pronto, eram seus pais.
- Filho! Finalmente! Oh, meu Deus!
Enquanto olhava para o casal de senhores que chorava abraçado, um garotinho apareceu ao pé da cama, sorria de forma tão natural que era impossível não sorrir junto. Segurava uma pequena réplica de um caminhão azul. Pulou sobre a cama e engatinhou até se colocar ao lado do corpo deitado de costas. O homem e o menino se abraçaram fortemente então, e os dois choravam. Choravam, mas com um sorriso maior que o universo nos rostos. Quando o abraço terminou, o menino olhou nos olhos do homem deitado e perguntou com uma voz límpida e suave:
- Achei que não voltaria mais, papai. O que estava sonhando esse tempo todo?
- Não me lembro, filho. Juro que não me lembro. Mas alguma coisa me diz que é bem melhor assim...