Final

1346 Words
- Espere, acho que posso ir aí, diz Elizabeth.      Ela se ergue com todas as forças, anda um pouco, olha para a janela, para Fisto, mas percebe que ele aponta a a**a, a calibre 38 que o mordomo tinha. - O que isso Fisto? Pergunta assustada. - Volta lá e cai, diz Fisto, com voz séria.      Ela se assusta mais. - Eu sei de tudo. Você vai assinar o documento e vai fazer de mim o seu tutor.      Elizabeth se assusta mais. - Herdarei tudo isso aqui. Você sabe o que eu sou. Sabe o que eu enfrento. - Eu sei Fisto, mas isso não justifica essa atitude, diz Elizabeth. Eu sei que você é... - Sim, diz Fisto. Eu sou homossexual. Minha família me despreza, todos me discriminam, mas quando eu herdar essa herança, venderei tudo. Eu sei de tudo, sei da mina de ouro. Não serei mais aquela "bicha p***e" como todos falam. Serei rico, respeitado, minha família, todos gostarão de mim. - Acha que gostarão de você por isso? Diz Elizabeth. - Se não gostarem problema. Eu terei poder. É o que importa. Mas... que graça teria.      Ele ri, deixa a a**a no chão e vai ajudar Elizabeth. - O que significa tudo isso? Pergunta ela. - Brincadeira, bobinha. - Aaaahhh, eu não acredito, enfurece-se Elizabeth. Brincar com uma coisa séria dessas. - Calma, lindinha, calma, diz Fisto.      Fisto a ajuda a sair do telhado e a entrar no corredor pela janela. Completamente encharcada pela água da chuva Elizabeth o estranha. - Onde estava todo esse tempo? - Vou te contar tudo, diz Fisto. Quando estávamos na cozinha e você foi no salão eu tive ânsia de vômito. Saí da cozinha e encontrei uma porta dos fundos. Ainda com ânsia eu me afastei da casa, pois não achei um banheiro e não queria sujá-la. Fui para perto de umas árvores e vomitei, mas lá a minha doença, a minha crise, me atacou. - Que doença, que crise? - Aqueles remédios que você viu é que causam os meus vômitos. São fortes. - Eu sei para o que que é, é para AIDS, não é? Diz Elizabeth.      Fisto fica meio espantado. - Não é não senhora, diz Fisto. - Eu sei, só brinquei, diz Elizabeth rindo um pouco. Eu não tenho a menor ideia para o que são eles. - Tudo bem, mas é para crise de ausência. Amnésia temporária. As vezes ela dura poucos minutos, mas pode durar horas. Os remédios controlam os sintomas. Tem gente que tem versões leves do problema, a maioria, mas alguns poucos tem a versão mais grave. E eu tenho a versão mais grave. Por isso eu preciso tomar remédios fortes. Eu tive a crise e passei a vagar, andar à toa. Fiquei horas assim, quando comecei a voltar a mim, tinha me esquecido onde era a mansão aqui, fiquei procurando, até que a achei, eu vim, mas quando cheguei perto da cozinha, pela janela, eu vi você com aqueles dois, ouvi a conversa e um deles atirando no outro. Me assustei. Não quis entrar. Você saiu correndo, eu entrei pela porta dos fundos e fui até aqui em cima e aconteceu tudo o que aconteceu aqui. - Por isso que você me assustou, você ouviu a conversa e soube de toda a história, diz Elizabeth. Por isso eu acreditei e assustei. - Desculpe, brincadeira sem graça. - Mas, antes, eu liguei para o seu celular e alguém atendeu. - Deve ter sido eu, na crise você fica meio fora de rumo, mas nem tanto. Eu devo ter atendido o celular e, sei lá, não consegui ter dito nada, não me lembro desse ocorrido. - E agora, tem duas pessoas mortas aqui, o que faremos? Diz Elizabeth. - Chamar a polícia, é o certo a fazer. Não devemos mexer neles e explicar toda a história.      Dois anos depois. - Senhora Elizabeth, diz uma voz feminina. Alguém quer vê-la. - Mande entrar, obrigada, diz Elizabeth. - Sou eu lindinha. - Fisto, você sumiu, que bom que veio.      Os dois se abraçam. Vão a um grande salão. Bem iluminado, era noite, mas as luzes brilhavam no teto. A voz feminina que chamou Elizabeth era uma moça que estava trabalhando para ela. Era a sua nova casa. - Feliz aniversário, 18 aninhos, diz Fisto. - Verdade. - Tenho novidades, diz Fisto. A polícia arquivou o caso. Os dois que morreram naquele casarão, a perícia revelou que nem você e nem eu tivemos culpa naquilo. - Ah, que bom, diz Elizabeth. Estou aliviada, foi um terror aquilo. - Mais novidades. Os seus documentos, embora obtidos de modo fraudulento, foram aceitos pela justiça, pois o juiz constatou que você não teve culpa de nada. Mas para que você continue como herdeira, deve mantê-los. Portanto você é Elizabeth Cavendish Santon, não filha real de Henry Cavendish, mas filha adotiva. Por isso não haverá confisco da herança. Como você, quando tinha 16 anos, me fez seu tutor eu cuidei de tudo. Conforme você lembra vendi o terreno, a mina de ouro e o casarão para investidores, interessados na mina. Um lucro bom, de alguns milhões de reais e, como você é boazinha, me deu uma grande parte. E eu comprei essa casa para você, agora, que você fez 18 anos, está aqui: toda a herança está em uma conta bancária com seu nome e essa casa também está no seu nome. Não mais sou o seu tutor - Era o mínimo, diz Elizabeth. E você comprou uma casa também. Por não vem morar aqui? - Comprei, mas é aqui perto, diz Fisto. - Conseguiu a sua riqueza. Eu lembro que você queria ser respeitado, naquela vez que eu estava em cima daquela casa, naquela chuva, diz Elizabeth. - Aquilo era brincadeira, diz Fisto meio envergonhado. - Mas um dos motivos que eu acreditei na brincadeira, foi o jeito que disse, você disse do fundo da alma, pode ser brincadeira, mas era o que você sentia, acho que você fez aquela brincadeira com algo real em você, com algo que você sentia.      Fisto olha para baixo e diz: - Acho que tem razão, mas continuo a ser o diferente e o diferente assusta, sempre assustará, sendo ele bem-sucedido ou não. - Sabe, no casarão, diz Elizabeth. Eu estava prestes a assinar aqueles documentos. Estava prestes a ser iludida e ouvi uma voz dizendo: NÃO ASSINEEE!!! - Elizabeth, diz Fisto indignado. Aquilo era golpe deles, eram assombrações fajutas, essas vozes do além eram para te assustar, para que você desistisse de tudo, desistisse do casarão, de tudo. Para que você assinasse aqueles papéis. - Mas eu não entendo. Por que, justo na hora que eles iriam ter o que quisessem essa voz apareceu, me impedindo de cair na tramoia deles? Essa voz, só essa, não poderia ser a que eles criaram, diz Elizabeth. - Não sei explicar, disse Fisto. - Bom deixa para lá, ainda não te agradeci por ter me salvo na cozinha, àquela hora, aquela pedra que você jogou naquele mordomo foi certeira.      Fisto se espanta. - Eu não joguei pedra nenhuma. - Mas você disse que estava lá fora, observando tudo, foi assim que você soube da história. Deixa de brincar, brincando de novo, não é? - Verdade, não estou brincando, quando aquele mordomo atirou no outro eu me assustei e fui para o fundo da casa entrar pela porta dos fundos para ir na cozinha para ver se eu poderia fazer algo, mas quando eu cheguei na cozinha, fui devagar para ele não perceber, vocês não estavam mais lá, escutei passos correndo no corredor de cima e aí tive a ideia de ir para cima. - Mas então quem jogou a pedra? Quem disse para eu não assinar?      Tanto Fisto quando Elizabeth olham para a frente, observando uma imagem que estava na parede e descobriram que pode haver algo mais no universo do que eles podem imaginar.      O que era a imagem na parede à frente deles? Era a única coisa que Elizabeth quis trazer do casarão: o quadro de Henry Cavendish.            FIM.    
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