Beautiful Things

808 Words
NARRAÇÃO DE LARA GASPAR... A desconfiança permaneceu durante todo o percurso, até mesmo ao chegarmos no nosso prédio. Talvez meu sobrenome explique muito sobre mim. Vivi longos anos em um orfanato e, nesse tempo, me apeguei a uma mãe social chamada Anna Caliana. Seu nome nunca será esquecido. Ela tinha uma voz suave e sempre acariciava meus pés enquanto explicava o significado do meu sobrenome: Gaspar. “Inspetor”, ela dizia. Ela nunca se enganou. Sempre fui desconfiada. Eu investigava até meus pratos durante as refeições, apenas para me certificar de que não havia nenhum fio de cabelo. Sou desconfiada ao extremo, e esse vizinho que insiste em se mostrar cheio de boas intenções não me convence. Cheguei a cogitar mencionar o quanto suas mãos estavam sujas quando o vi pela primeira vez, mas o medo de ser morta por um simples comentário é grande demais. Por isso, um profundo silêncio se instalou entre nós. Coisa rara, porque Andrea sempre diz que pareço uma matraca. Matias, de algum modo, tem o poder de me fazer calar. Isso me surpreende. Apenas a música preenchia o ambiente enquanto ficávamos presos no trânsito. Rio das Ostras, cidade turística, no verão é sinônimo de engarrafamento. Esperávamos os carros à frente passarem pela ponte. Olhei para o painel: 19h40. Meu estômago gritava por yakissoba de legumes. Andrea tem uma cópia da chave do apartamento e, todas as quintas, chega às 19h com nosso yakissoba. Ele é guloso, come o dele e, se demoro, ainda petisca o meu. — Que fome... — reclamou Matias, como se estivesse conectado aos meus pensamentos. Revirei minha bolsa procurando algo. É uma bagunça, preciso criar coragem para arrumá-la. Sorri quando encontrei uma barra de Snickers. Pois é, sou um péssimo exemplo de mulher: desleixada, como besteira e não pratico exercícios. Sorte que minha genética colabora — agradeço aos meus pais, onde quer que estejam. Entreguei o chocolate a Matias. Ele pode até ser um assassino, mas não precisa passar fome. É bonito demais para isso. Se Andrea pudesse ler meus pensamentos, gritaria. Matias olhou para o chocolate e sorriu, surpreso. — Não precisa... — Não me diga que você é do tipo que não come isso ou aquilo, tipo vegetariano. — o encarei. Se dissesse que era, jogaria na cara dele que na noite anterior estava fazendo carpaccio. Ele riu e negou, pegando o chocolate. — Não é isso. Só acho indelicado aceitar um doce de uma mulher. Sorri e, animada, mostrei outra barra que tinha guardado. — Sou precavida. Pela primeira vez, ouvi a gargalhada dele. Como a gargalhada de um homem pode ser tão bonita quanto seus dentes alinhados? Entre risos, comemos o chocolate. Pensando bem, acho que não estou mais com medo dele. Sinto-me como uma gazela papeando com um leão. Preciso parar de reparar nos cabelos compridos dele. — Andrea comentou que você viveu em um orfanato. Como era lá? — perguntou, enquanto o trânsito continuava travado. Suspirei. — Frio. Sem cor. — resumi, detestando lembrar. — Como assim? — ele insistiu. Olhei para cima, buscando palavras. — Havia panelinhas, meninas malvadas que acordavam de madrugada, quando não havia vigilância. — mostrei uma cicatriz no antebraço, marca dos meus dez anos. — Eu odiava fazer amizade, porque depois ficava na janela vendo meus amigos partirem com seus novos pais adotivos. Me perguntava por que ninguém me escolhia. Se era feia, diferente... — Você não é feia. Está longe disso. — Matias me interrompeu com um elogio que soou quase automático. — Explica isso para uma menina de sete anos que assiste a outras crianças indo embora enquanto ela fica. É normal se perguntar se o erro é dela. Mas é um passado que prefiro enterrar. Saí do orfanato, tenho um emprego, um amigo e um apartamento, mesmo que seja de favor. — rimos juntos. — Você é muito carismática, Lara Gaspar. — disse ele. Forcei um sorriso. Nunca soube lidar com elogios. Para meu alívio, os carros começaram a andar. Descobrimos que o trânsito se devia a um acidente. Depois da ponte, não demoramos para chegar ao prédio. Ao entrar no elevador, a tensão voltou. Abracei a bolsa, desejando chegar logo em casa. — Ah! Lembrei. Me passe seu número. Assim posso te ligar, você salva o meu contato e depois passa para sua amiga. — disse Matias. Forcei um sorriso. No fundo, não queria dar o número dele para Abigail. Nem sei se é medo ou apenas porque ela é enjoada, força amizade só para conseguir o que quer. Além disso, nunca lava o banheiro e deixa as piores tarefas para mim. — Claro. — passei meu número, ciente de que estava entregando ele de bandeja para ela. Aaah, preciso parar de ser assim. Entrei no apartamento já planejando: vou comer meu yakissoba, ouvir Beautiful Things e me xingar deitada na cama.
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