Capítulo 1 — Duas Linhas
Babi narrando
Me chamo Bárbara, mas quase ninguém me chama assim. Para todo mundo, sou Babi.
Nasci e cresci no Morro do Pavão-Pavãozinho. Conheço cada viela, cada escadaria e quase todos os rostos que fazem parte daquele lugar.
O morro nunca foi fácil, mas era tudo o que eu conhecia. Era minha casa.
Meu pai morreu quando eu ainda era pequena. Ele era vapor do tráfico e, sinceramente, não guardo quase nenhuma lembrança dele. Minha mãe dizia que ele me amava, mas eu não conseguia imaginar como era ter um pai presente.
Depois que ele morreu, minha mãe entrou em uma depressão profunda.
Eu era criança e não entendia direito o que estava acontecendo. Só sabia que, de repente, ela passava dias trancada no quarto, sem vontade de levantar, comer ou conversar.
Então eu cresci rápido.
Aprendi cedo que ninguém faria por mim o que precisava ser feito.
Na adolescência, comecei a trabalhar. Não porque queria, mas porque precisava. Estudava durante o dia e trabalhava sempre que aparecia alguma oportunidade.
Quando completei dezessete anos, perdi minha mãe.
Foi como perder o pouco de família que ainda me restava.
Por sorte, eu não estava completamente sozinha. Algumas pessoas do morro me ajudaram, minhas amigas estavam sempre por perto e, na escola, eu tinha encontrado alguém que, naquela época, achei que seria meu porto seguro.
Douglas.
Ou DG, como todos o chamavam ele aqui.
Conheci ele na escola. No começo, foi só conversa. Depois vieram as mensagens, os encontros escondidos e, quando percebi, estávamos completamente envolvidos.
Tudo aconteceu rápido demais.
DG sabia falar o que eu queria ouvir. Dizia que gostava de mim, que queria ficar comigo e que, comigo, seria diferente.
Quando me chamou para morar na casa dos pais dele, achei que seria temporário.
Talvez alguns meses.
Talvez até eu conseguir me organizar depois da morte da minha mãe.
Mas os meses passaram.
E eu continuei ali.
Naquela manhã, acordei antes do despertador.
Fiquei alguns segundos olhando para o teto, tentando entender por que meu estômago estava embrulhado outra vez.
Virei para o lado.
DG dormia tranquilamente.
Como sempre.
Ele não trabalhava, não estudava e também não parecia preocupado em procurar emprego. Os pais pagavam tudo e, enquanto eles se matavam de trabalhar, DG passava o dia no celular ou com os amigos.
Levantei devagar e fui para o banheiro.
Fechei a porta e apoiei as mãos na pia.
Meu rosto estava pálido.
Aquilo vinha acontecendo havia alguns dias.
Enjoo.
Cansaço.
Tontura.
E uma vontade absurda de chorar por qualquer coisa.
Pensei que fosse estresse.
Minha vida estava uma bagunça.
Eu trabalhava na lanchonete da dona Sônia, estudava e ainda tentava lidar com a convivência com DG, que ultimamente parecia cada vez mais distante.
Abri a torneira e joguei água no rosto.
Foi quando meus olhos caíram sobre o pequeno teste de gravidez que eu havia comprado escondido no dia anterior.
Meu coração acelerou.
Eu estava atrasada.
Muito atrasada.
Peguei o teste com as mãos trêmulas.
— Não pode ser...
Me ajuda meu Deus...
Eu precisava ter certeza.
Fiz o teste e coloquei sobre a pia.
Os minutos seguintes pareceram uma eternidade.
Fiquei andando de um lado para o outro daquele banheiro minúsculo, mordendo o lábio e tentando convencer a mim mesma de que aquilo seria apenas um susto.
Isso apenas um susto eu repetia a mim mesma
Quando finalmente criei coragem para olhar, meu coração parou.
Duas linhas.
Fiquei imóvel.
Olhei novamente.
Duas linhas.
— Meu Deus...
Sentei no chão.
Encostei as costas na parede fria e levei uma mão até a barriga, ainda completamente plana.
Eu estava grávida.
A primeira sensação foi medo.
Depois veio o desespero.
E, por último, uma coisa que eu não esperava sentir.
Um sorriso pequeno apareceu no meu rosto.
Eu ia ser mãe.
A ideia era assustadora, mas, ao mesmo tempo, havia algo dentro de mim que dizia que aquele bebê era meu.
Meu.
Talvez fosse a primeira coisa que realmente seria só minha.
Passei a mão sobre a barriga.
— Eu vou cuidar de você.
Daria todo meu amor á essa criança.
Uma lágrima escorreu pelo meu rosto.
Foi então que pensei em DG.
Meu sorriso desapareceu.
Ele não gostava nem quando eu falava sobre filhos. Uma vez, quando mencionei que queria ser mãe algum dia, ele riu e disse que aquilo estava longe demais dos planos dele.
Levantei do chão e escondi o teste dentro da minha bolsa.
Eu precisava contar.
Talvez ele ficasse assustado no começo.
Talvez precisasse de tempo.
Mas, no fundo, eu acreditava que ele acabaria aceitando.
Saí do banheiro e encontrei DG sentado na cama mexendo no celular.
— DG...
Ele nem levantou os olhos.
— O quê?
Respirei fundo.
— A gente precisa conversar.
Ele suspirou, claramente irritado.
— Fala.
Apertei os dedos uns contra os outros.
— Eu estou grávida.
Dessa vez, ele levantou os olhos.
Por alguns segundos, ficou em silêncio.
Então soltou uma risada sem humor.
— Você tá de brincadeira, né?
Balancei a cabeça.
— Não.
Ele se levantou.
— Babi, fala que isso é mentira.
— Não é.
O rosto dele mudou completamente.
— Você vai tirar.
Meu coração apertou.
— Não vou.
Ele me encarou como se eu tivesse acabado de dizer a coisa mais absurda do mundo.
— Você vai sim.
Respirei fundo, tentando controlar o medo.
— Esse bebê é meu também, mas eu não vou tirar.
DG passou a mão pelo rosto, nervoso.
— Você não está entendendo. Eu não quero filho.
Porra ,você não se cuidou !!!
Olhei para ele e senti alguma coisa dentro de mim mudar.
Talvez naquele momento eu tenha percebido que o garoto por quem eu havia me apaixonado na escola não existia mais.
Ou talvez nunca tivesse existido.
— Então você vai ter que escolher, DG.
Ele franziu a testa.
— Escolher o quê?
Toquei minha barriga.
— Ou aceita meu filho... ou aceita que vai me perder.
E, pela primeira vez desde que conheci Douglas, eu tive medo da resposta dele.