Perigo
Me chamam de Perigo desde que assumi o Morro do Pavão-Pavãozinho, e não é à toa que esse é o meu vulgo.
Uma coisa que aprendi na vida foi não ter medo.
O medo faz um homem pensar duas vezes. Faz hesitar. E, no meu mundo, quem hesita perde.
Eu não hesito.
Por isso me chamam de Perigo.
Não precisei escolher esse nome. Foram os outros que colocaram em mim, depois de descobrirem do que eu era capaz.
Chego na boca e, como sempre, o movimento muda.
Alguns soldados se calam. Outros abaixam a cabeça em respeito. Ninguém precisa anunciar que o dono do morro chegou.
Minha presença fala por mim.
Caminho devagar, observando tudo ao meu redor. Conheço aquele lugar como a palma da minha mão. Sei quem trabalha, quem mora, quem está chegando e, principalmente, quem está tentando fazer merda.
Aqui, nada passa despercebido.
— Bom dia, chefe.
Faço apenas um sinal com a cabeça.
Não sou homem de ficar distribuindo simpatia.
Respeito é suficiente.
E respeito não se pede.
Se conquista.
Enquanto caminho, percebo alguns olhares das marmitas sobre mim.
Isso também não é novidade.
As mulheres sabem quem eu sou.
Algumas gostam do perigo.
Outras gostam do dinheiro.
Tem aquelas que gostam do poder.
E algumas simplesmente gostam de dizer que já passaram pela cama do dono do morro.
Para mim?
Tanto faz.
Mulher nunca foi problema na minha vida.
Pelo contrário.
É uma das poucas coisas que tornam meus dias mais interessantes.
Passo por uma loira que praticamente se joga na minha frente.
A mulher é uma cavalona.
Corpo chamativo, cabelo comprido e um sorriso que deixa bem claro o que ela quer.
Ela me encara sem nenhuma vergonha.
Dou um sorriso de canto.
— Entra.
Os olhos dela brilham.
— Agora?
Olho para os soldados ao redor e depois volto a encará-la.
— Tenho umas coisas para resolver.
— Eu espero.
Ela sorri.
Sigo meu caminho.
Sei que quando terminar meus problemas ela provavelmente ainda estará lá.
E, se eu estiver a fim, vou aproveitar.
Não faço promessa.
Não dou esperança.
Não iludo ninguém.
Comigo é tudo muito claro.
Se quer ficar, fica.
Se não quer, a porta está aberta.
Nunca precisei correr atrás de mulher.
Elas aparecem.
E aparecem muito.
Talvez seja pelo meu dinheiro.
Talvez pelo meu poder.
Talvez pela fama.
Ou talvez simplesmente porque gostam de um homem que não fica implorando atenção.
Eu não sei.
Também não me interessa.
Só sei que nunca tive dificuldade para arrumar companhia.
O problema começa quando alguma delas confunde uma noite comigo com alguma coisa a mais.
Aí eu corto na hora.
Não quero mulher apaixonada.
Não quero cobrança.
Não quero mensagem perguntando onde estou.
Não quero saber com quem ela saiu.
E muito menos quero alguém querendo mandar na minha vida.
Já vi homem perder tudo por causa de mulher.
Começa com paixão.
Depois vem ciúme.
Briga.
Controle.
E, quando percebe, o sujeito deixou de viver a própria vida.
Comigo isso nunca vai acontecer.
Eu não acredito em amor.
Nunca acreditei.
Para mim, mulher é para aproveitar.
Elas vem eu dou o que elas querem e já era.
O pai garante o prazer absoluto.
Sem sentimento.
Sem compromisso.
Sem essa merda toda de relacionamento.
As que entendem isso continuam por perto.
As que começam a criar expectativa desaparecem da minha vida.
Simples assim.
Entro na sala e encontro Dinho esperando por mim.
— Fala.
Ele coloca algumas informações sobre a mesa.
Começa a me passar os problemas do dia.
Escuto tudo em silêncio.
Uma cobrança pendente.
Um problema com alguns caras de fora.
Uma entrega que precisa ser conferida.
Nada que eu não consiga resolver.
— E aquele assunto de ontem?
Dinho me explica.
Fico alguns segundos pensando.
— Resolve.
— Como?
Olho para ele.
— Você sabe como.
Ele assente.
Não preciso explicar tudo.
Quem trabalha comigo há tempo suficiente sabe exatamente como gosto das coisas.
Tudo organizado.
Tudo no lugar.
Não admito desrespeito dentro do meu território.
Posso ser muita coisa.
Mas covarde não sou.
Quem mora aqui merece poder andar pelas vielas sem precisar olhar para trás o tempo inteiro.
Por isso mantenho minha palavra.
Se digo que vou resolver, resolvo.
Se digo que alguém está protegido, está.
E se alguém ultrapassa meus limites, descobre rapidamente por que me chamam de Perigo.
Depois de algum tempo, termino os problemas da manhã.
Saio novamente para a boca.
A loira continua lá.
Ela sorri quando me vê.
— Pensei que tinha esquecido de mim.
Dou uma risada baixa.
— Eu não esqueço o que me interessa.
Ela se aproxima.
Passa a mão pelo meu braço me alisando.
— Então?
Olho para ela.
— Vamos.
É só isso.
Sem jantar romântico.
Sem flores.
Sem promessa de amanhã.
Ela sabe o que quer.
Eu também.
E é exatamente assim que gosto da minha vida.
Sem complicação.
Sem mulher dizendo que me ama.
Sem alguém tentando ocupar um espaço que nunca ofereci.
Porque, para mim, amar alguém é entregar uma arma para essa pessoa usar contra você.
E eu não entrego armas.
Muito menos meu coração.
Nunca.
Subo as escadas com a loira atrás de mim, mas antes de chegar ao quarto meu celular toca.
Olho para a tela.
É Dinho.
Atendo.
— Fala.
— Perigo, apareceu um problema.
Fecho os olhos por um instante.
Claro que apareceu.
Problema nunca tira folga.
— Que problema?
Ele começa a explicar.
Fico em silêncio, ouvindo.
Ainda não sei, mas aquela ligação vai ser o primeiro passo para uma história que vai mudar minha vida.
Porque, naquele momento, eu ainda acreditava que nada seria capaz de mexer comigo.
Eu tinha dinheiro.
Poder.
Respeito.
Mulheres.
E liberdade.
Achava que tinha tudo o que precisava.
Só não sabia que, em pouco tempo, uma garota chamada Bárbara entraria no meu caminho.
E ela não viria sozinha.
Viria carregando um bebê.
E, pela primeira vez na minha vida, eu descobriria que talvez existisse algo mais perigoso do que o próprio Perigo..