O confinamento na Villa Marino nunca foi tão sufocante quanto naqueles três dias que se seguiram à partida de Mattia. O ar das montanhas parecia rarefeito, incapaz de encher os meus pulmões.
O livro de Santo Agostinho que Mattia me deixou havia se tornado o meu único refúgio. Eu o carregava para a mesa de jantar, para as caminhadas matinais, para as orações noturnas.
Alessio observava a minha devoção repentina com um orgulho cego, acreditando que a sua filha primogênita havia finalmente abraçado a luz e esmagado a própria vaidade.
Ele não fazia ideia de que eu estava usando a religião como uma chave de f***a para arrombar as portas da nossa prisão.
Na manhã do terceiro dia, o sol de julho já castigava o mármore do pátio quando entrei no escritório do meu pai. Com os olhos baixos e a voz mansa, pedi permissão para ir ao centro da cidade. A desculpa estava perfeitamente afiada: eu precisava visitar o Duomo di Messina.
Justifiquei que as reflexões de Santo Agostinho sobre a corrupção da alma haviam me inspirado a fazer uma vigília e rezar diante do altar principal da Catedral, buscando a purificação que apenas a casa de Deus poderia oferecer.
Um homem fanático como Alessio Marino jamais negaria um pedido para rezar. Mas o Capo também não abria mão das coleiras que colocava em nós.
Uma hora depois, eu estava sentada no banco traseiro de um Lancia blindado e escuro. O ar-condicionado do carro lutava de forma inútil contra o calor infernal que irradiava do asfalto enquanto descíamos as curvas fechadas dos Colli San Rizzo.
À minha direita, Beatrice olhava pela janela com a postura rígida, detestando a saída forçada. À minha esquerda, Caterina abanava o rosto com um pedaço de papel, reclamando do clima pesado.
No banco da frente, dois guardas da estrita confiança do meu pai: Carmine no volante, um homem de rosto largo e poucas palavras, e Salvatore no carona, com uma submetralhadora curta descansando sob o paletó de linho.
A cidade engoliu o nosso carro assim que chegamos à Viale Boccetta. O trânsito caótico de Messina, as buzinas agressivas, o cheiro de salitre do Estreito misturado com o escapamento dos caminhões de carga inundou a cabine.
Eu não estava prestando atenção na paisagem. Meus olhos estavam cravados no espelho retrovisor externo.
Desde que havíamos cruzado a avenida principal, uma sensação espinhosa subiu pela minha nuca. O tráfego era denso, cheio de Fiats amassados e lambretas costurando os carros, mas um sedan escuro de vidros totalmente fumês se mantinha exatamente três veículos atrás do nosso.
Quando Carmine virou à direita em direção ao centro histórico, o sedan virou também. Quando o guarda acelerou para cruzar um sinal amarelo, o carro escuro forçou a passagem de forma bruta para não nos perder de vista.
O meu coração começou a bater contra as costelas com uma força dolorosa. A umidade se acumulou entre os meus s***s, e não era apenas pelo calor de julho. Eu sentia. O d***o estava na cidade, e ele estava me caçando em plena luz do dia.
Estacionamos perto da Piazza del Duomo. O calor que me atingiu ao sair do carro foi como o sopro de uma fornalha, grudando o algodão do meu vestido preto nas costas quase instantaneamente.
Turistas se aglomeravam perto da fonte e apontavam câmeras para o grande relógio astronômico, suando em suas roupas curtas, enquanto nós caminhávamos cobertas e ladeadas por dois mafiosos armados.
Carmine e Salvatore nos escoltaram até a entrada imponente da Catedral. O interior do Duomo era um contraste absoluto com a rua fervente. O silêncio era pesado e frio. O ar cheirava a cera derretida, incenso forte e pedra milenar. Os tetos altos de madeira esculpida abafavam o som dos nossos passos no piso de mármore.
Enquanto Beatrice e Caterina se sentavam em um dos bancos de madeira nos fundos, visivelmente entediadas com a excursão religiosa, eu caminhei lentamente pela nave central, fingindo admirar os mosaicos sagrados.
Salvatore caminhava dois passos atrás de mim, a sombra inseparável da Famiglia Marino.
— Preciso usar o banheiro — anunciei para o guarda, em um tom baixo, quebrando o silêncio fúnebre da igreja. Minha voz saiu firme, mas a palma das minhas mãos suava frio.
Salvatore assentiu com um movimento seco de queixo. Ele me acompanhou pelo corredor lateral que levava às instalações antigas perto da sacristia, uma área restrita e m*l iluminada onde as paredes de pedra grossa pareciam sufocar o ambiente.
Ele parou diante da porta de madeira pesada que indicava o banheiro feminino, empurrou-a e inspecionou o interior por alguns segundos.
— Está vazio, Signorina — Salvatore murmurou, recuando e cruzando os braços do lado de fora, montando guarda no corredor vazio. — Estarei bem aqui.
Entrei. O cheiro de produto de limpeza industrial não conseguia disfarçar o cheiro de umidade dos encanamentos velhos do Duomo. A luz amarelada refletia nos azulejos encardidos. Havia apenas quatro boxes de madeira maciça enfileirados.
Caminhei até a pia para lavar as mãos, encarando o meu próprio rosto no espelho lascado. Abri a torneira. O som da água corrente ecoou alto nas paredes de pedra.
O clique metálico e seco da fechadura do último boxe me fez paralisar.
A porta de madeira se abriu devagar. O reflexo largo e escuro apareceu no espelho atrás de mim e, antes que eu pudesse virar ou engasgar com o choque, uma mão imensa e áspera cobriu a minha boca. O outro braço envolveu a minha cintura com uma força brutal, erguendo meus pés do chão de azulejo.
Fui arrastada para dentro do boxe em um piscar de olhos. A porta foi puxada de volta e o trinco deslizou sem fazer um único ruído.
Minhas costas bateram contra a parede fria do banheiro. Mattia prensou o corpo dele contra o meu. Ele estava usando uma calça de alfaiataria escura e uma camisa de botões com as mangas dobradas até os cotovelos.
O tecido cheirava a fumaça de cigarro forte, suor masculino e perigo puro. Os olhos verdes dele, brilhando na penumbra apertada, não tinham um pingo de romantismo. Ele queria acabar comigo, ele queria me f***r como a sua p**a devota.
Ele tirou a mão da minha boca lentamente, mantendo o peso do corpo sobre o meu. Arfei, puxando o ar do qual eu tinha sido privada, o peito subindo e descendo de forma frenética e roçando contra o peito duro dele.
— Faça silêncio, santuzza — ele sussurrou. A voz grave vibrou contra a pele do meu pescoço, os lábios roçando na ponta da minha orelha. — O seu cão de guarda está a menos de três metros de nós, encostado na porta.
— Como você entrou aqui? — Sussurrei de volta, a voz falhando, minhas unhas cravando nos ombros largos dele, agarrando o tecido da camisa como se eu estivesse despencando de um penhasco.
— Eu subornei o sacristão da entrada de serviço há cinco minutos. A escória de Messina vende até a casa de Deus por um maço de notas de cem — ele respondeu. Os dedos calosos dele subiram pela minha nuca, agarrando os meus cabelos loiros e puxando minha cabeça levemente para trás para me forçar a olhar diretamente nos seus olhos. — Eu arrumei a desculpa perfeita que te prometi na carta. Mais uma semana inteira nesta maldita cidade. Isso foi há três dias, desde então eu estive vigiando a movimentação na Villa Marino. Deus existe afinal, pois enfim você conseguiu sair. Agora temos quatro dias.
Quatro dias. Era pouco, mas a informação explodiu na minha mente. A onda de alívio e excitação foi tão violenta que meus joelhos fraquejaram, sustentados apenas pela força com que o braço dele me mantinha prensada contra os azulejos.
— Quatros dias — repeti, os olhos fixos na boca dele.
Mattia não perdeu tempo com conversas vazias. A mão direita dele desceu pela lateral do meu corpo, agarrando a saia preta do meu vestido e puxando o tecido para cima sem nenhuma delicadeza.
Seus dedos grossos e quentes apertaram a pele nua da minha coxa, apertando com força suficiente para deixar as marcas vermelhas que eu tanto adorava.
— Eu não fiquei escondido em Messina para te ver passeando com escolta em igreja, Aurora. Eu preciso de você na cama. No escuro. Fodendo em silêncio para ninguém escutar — ele rosnou a exigência, o polegar roçando a costura da minha calcinha, me fazendo estremecer e soltar um gemido afogado na garganta. — Me dê uma brecha. Como eu entro de novo naquela fortaleza sem a desculpa da auditoria do seu pai? Por onde eu invado?
A realidade me atingiu como uma martelada. Fechei os olhos, o desespero lutando contra o calor que se acumulava entre as minhas pernas.
— Não tem como — murmurei, balançando a cabeça de forma nervosa. — O papai dobrou os turnos da noite depois que você foi embora. Não há mais visitantes na Villa. Os guardas patrulham os muros de pedra com os cães do lado de fora a cada duas horas. É uma fortaleza impenetrável, Mattia. Se você tentar pular os muros, os mastins vão te destroçar e os guardas vão atirar para matar.
Mattia apertou os dentes, os músculos da mandíbula saltando sob a pele. A frustração moldou o rosto dele na imagem perfeita de um assassino acostumado a destruir bandos inteiros, mas que estava sendo barrado pelas cercas de um homem paranoico.
Ele abaixou a cabeça e afundou o rosto na curva do meu pescoço, inalando o meu cheiro profundamente. Os dentes dele rasparam na minha pele sensível.
Ao mesmo tempo, a mão dele deslizou para dentro da minha calcinha, puxando o tecido de renda para o lado, e dois dedos inteiros mergulharam fundo na minha b****a completamente encharcada de uma só vez.
Arqueei as costas contra o azulejo gelado, mordendo o meu próprio lábio inferior com tanta força que senti o gosto metálico de sangue.
Eu estava dentro da principal igreja de Messina, a poucos metros do capanga armado do meu pai, e o mafioso mais perigoso de Palermo estava esfolando a minha sanidade dentro de um banheiro minúsculo.
O atrito rápido e bruto dos dedos dele dentro de mim me deixou à beira do precipício em segundos.
— Eu prometi na p***a daquela carta e eu cumpro o que prometo — ele sussurrou as palavras com raiva direto dentro da minha boca, tirando os dedos de dentro de mim em um movimento brusco que me deixou vazia, choramingando e ofegante.
Antes de recuar, o Sottocapo ergueu a mão direita. Meus olhos, arregalados na penumbra do boxe, acompanharam o movimento hipnótico enquanto ele levava os dois dedos encharcados aos próprios lábios. Mattia os lambeu devagar, recolhendo e saboreando a minha umidade com uma obscenidade calculada, sem nunca desviar os olhos do meu rosto em choque.
— Fique atenta e não tranque a porta do seu quarto. Eu vou dar um jeito de entrar na sua prisão particular. Esteja pronta, Aurora.
Antes que eu pudesse raciocinar, ele abriu a porta do boxe com uma precisão assustadora, sem fazer a madeira ranger. Caminhou até a pia e ligou a torneira. A água girou no ralo de forma ruidosa.
Ele lavou as mãos em absoluto silêncio. Fiquei paralisada no escuro do boxe, arriando a saia do vestido, ajeitando a calcinha molhada e puxando o ar aos tropeços.
Assim que ajeitou os punhos da camisa, o Sottocapo caminhou até o final da fileira de boxes. Ele destrancou uma pequena porta de serviço encardida — o acesso restrito por onde o sacristão o havia deixado entrar — e sumiu na escuridão do corredor interno, sem sequer me lançar um último olhar.
O barulho do meu salto bateu no piso de mármore do banheiro enquanto eu caminhava até a pia, com as pernas bambas e completamente tomada pelo desejo.
Joguei água fria no rosto, lutando para baixar o rubor das minhas bochechas. Empurrei a porta principal, e Salvatore ainda montava guarda na parede oposta do corredor de visitantes, com a mão perto do paletó, completamente ignorante da corrupção que acabara de acontecer a poucos palmos dele.