Descobrir a identidade do bêbado de Mangialupi não levou mais do que doze horas de vigilância e algumas notas amassadas enfiadas no bolso do garçom do bar.
O nome do desgraçado era Giuseppe. Um estivador do porto comercial de Messina, quarenta e poucos anos, com ombros curvados pelo peso de engradados de peixe e mãos calejadas pela rede.
Eu o observei de dentro do meu carro estacionado do outro lado da rua estreita onde ele morava, no final da tarde.
Giuseppe não era da Cosa Nostra. Não era um rato da 'Ndrangheta tentando ganhar território. Era apenas um homem f0dido pela vida que bebia para esquecer as dívidas e, em um momento de estupidez alcoólica, repetiu uma fofoca de cais sobre "Vittorio" e "Trapani", nomes que provavelmente ouviu algum marinheiro sussurrar no porto.
Ele era um homem limpo. Pior do que isso: da janela escancarada do apartamento minúsculo no segundo andar, eu podia ver duas crianças pequenas, com não mais do que cinco anos, correndo pela sala enquanto a esposa dele servia macarrão em pratos de plástico.
Ele deu o tremendo azar de falar o nome do homem mais poderoso da Sicília no exato momento em que o assassino número um de Palermo bebia no mesmo balcão.
Eu acendi um cigarro, enchendo os pulmões com a fumaça enquanto observava a família jantar. Eu não sentia absolutamente nada. Nem pena, nem remorso. Giuseppe já era um homem morto.
Eu inventaria uma história qualquer sobre ele estar vendendo informações da Famiglia Rossi para os calabreses, estouraria os miolos dele em um beco escuro, tiraria uma foto do cadáver e enviaria para Romeo provando que o trabalho foi feito.
Uma vida apagada, duas crianças órfãs, apenas para que eu pudesse ter uma desculpa para continuar na província. Era o preço da minha obsessão, e eu pagaria com o sangue de qualquer um que cruzasse o meu caminho.
Joguei a bituca pela janela do carro e dei a partida. O álibi estava garantido, mas o relógio continuava correndo contra mim. Quatro noites.
A minha mente voltou para o encontro no banheiro do Duomo. A umidade de Aurora escorrendo pelos meus dedos, o desespero nos olhos dela, a submissão absoluta. O seu gosto...
Mas a realidade da segurança de Alessio Marino era uma muralha de pedra que eu não podia simplesmente explodir. Invadir a Villa à noite com guardas em alerta máximo e mastins soltos no pátio seria suicídio. E se eu morresse cruzando a cerca, não poderia f***r a filha dele.
Eu bati no volante com força. A solução me atingiu quando passei em frente a uma pequena paróquia de bairro, onde uma fila de mendigos se formava na calçada esperando por um prato de comida quente.
Alessio era um fanático cego pela própria fé. Se as portas da prisão não abriam de fora para dentro, eu faria com que elas se abrissem de dentro para fora.
Parei o carro em uma vaga irregular, pisei na calçada rachada e caminhei em direção aos fundos da paróquia. O cheiro de sopa de feijão, suor antigo e pão adormecido impregnava o ar abafado.
Uma placa de madeira pintada à mão indicava a Mensa del Pane, um refeitório mantido por voluntários para alimentar os famintos de Messina.
Entrei pela porta da cozinha industrial. O calor ali dentro era insuportável, o vapor das panelas imensas embaçando o ar. Um homem idoso, com um avental branco manchado de molho sobre a batina simples, coordenava três senhoras que cortavam legumes em um ritmo frenético.
Caminhei direto até ele, ignorando os olhares assustados das mulheres.
— Você é o responsável por isso aqui? — Perguntei, a voz grave cortando o barulho das facas nas tábuas de corte.
O homem se virou, enxugando o suor da testa com as costas da mão. Ele avaliou o meu terno caro, a minha postura rígida e o volume revelador sob o tecido do paletó. Ele conhecia o cheiro da máfia.
— Sou o Padre Lorenzo. Administro o refeitório. Posso ajudá-lo, senhor?
— Vocês costumam enviar convites para as filhas dos homens ricos da cidade virem até aqui servir sopa para os mendigos e mostrarem sua caridade para Deus? — Fui direto ao ponto, cravando os olhos nos dele.
O padre piscou, confuso com a abordagem.
— Não, senhor. O nosso trabalho é estritamente voluntário. Quem vem, vem por vontade própria. Não enviamos cartas ou convites, m*l temos dinheiro para os ingredientes da semana.
Dei um passo à frente, invadindo o espaço pessoal do religioso. As três mulheres pararam de cortar os legumes de imediato. O silêncio na cozinha se tornou sufocante.
Levei a mão direita à cintura, afastando a borda do paletó apenas o suficiente para que o cabo de metal escuro da Beretta ficasse à vista. O padre empalideceu na mesma hora, a respiração travando na garganta.
— Pois hoje você vai abrir uma exceção, Padre — minha voz caiu para um murmúrio frio e rasgado. — Você vai sentar na sua mesa agora mesmo. Vai pegar o papel timbrado mais bonito que tiver nessa igreja miserável e vai escrever um convite formal para a Famiglia Marino. Vai direcionar a carta pessoalmente a Don Alessio, o dono dos portos. Vai dizer a ele que o refeitório está em extrema necessidade de mãos caridosas para o turno da tarde de amanhã, e que a presença das filhas dele seria uma bênção imensurável para a comunidade e para os olhos do Senhor.
O homem engoliu em seco, os olhos saltando da minha arma para o meu rosto.
— S-senhor... a Famiglia Marino é... eles não se misturam no centro da cidade...
Agarrei o colarinho da batina dele com uma das mãos, puxando o corpo frágil do padre para frente com brutalidade, fazendo uma panela bater e derramar caldo no fogão industrial. As mulheres deram um grito abafado e recuaram contra a parede.
— Você escreve a p0rra da carta, Padre, assina embaixo e manda entregar na Villa Marino amanhã cedo com o selo da igreja. Ou eu volto aqui quando o refeitório estiver cheio, tranco a porta da frente e queimo esse lugar com todo mundo dentro. Você me entendeu?
O pavor absoluto congelou o velho. Ele assentiu repetidas vezes, as mãos tremendo descontroladamente sobre o avental sujo.
— S-sim, senhor. O convite será enviado. Primeira hora da manhã.
Soltei o colarinho dele, ajeitando o tecido com um tapinha cínico no ombro.
— Excelente. Deus abençoe o seu trabalho de caridade.
Virei as costas e saí pela mesma porta por onde entrei. O calor da rua de Messina bateu no meu rosto como um lembrete físico do inferno que eu estava criando. Alessio Marino jamais negaria um chamado formal da Igreja para que suas filhas exercessem a caridade.
Ele a mandaria para as ruas. E assim que Aurora colocasse os pés fora daquela montanha mais uma vez, eu estaria esperando por ela.