O tilintar da faca de prata cortando o queijo pecorino era o único som na sala de jantar da Villa Marino. Meu pai, sentado na cabeceira da longa mesa de carvalho, exalava um orgulho religioso que beirava o êxtase.
Ele limpou os lábios com o guardanapo de linho e estendeu um envelope de papel pardo grosso, marcado com um selo de cera vermelha que trazia a cruz de uma paróquia.
— A virtude de nossa família finalmente está ecoando além destas muralhas de pedra — Alessio anunciou, a voz grave preenchendo o silêncio. Ele empurrou o envelope na minha direção. — Acabo de receber um convite formal do Padre Lorenzo, administrador do Mensa del Pane no centro da cidade. Ele pede, com extrema urgência e humildade, que as filhas da Famiglia Marino prestem caridade no refeitório dos pobres durante o turno de hoje.
Minha mão parou no ar, a xícara de café a milímetros dos meus lábios.
O meu pai odiava nos enviar para o centro de Messina. A regra sempre foi o isolamento. O contato com a escória da cidade era considerado uma mancha na nossa pureza. Por que a Igreja mandaria um convite formal, assinado e selado, exigindo a nossa presença em um antro de mendigos justamente agora?
A resposta bateu no meu peito com a força de um soco.
Meu coração acelerou, bombeando o sangue de forma tão violenta que escutei o pulsar nos meus tímpanos. Não era uma coincidência. A Igreja não exigia nada da máfia.
Alguém os havia forçado. Ele os havia forçado. O meu d***o estava moldando o fanatismo do meu próprio pai para abrir os portões da minha prisão.
— É um chamado nobre, papai — respondi, baixando os olhos e adotando o tom manso da "Santuzza". — Santo Agostinho diz que a alma só encontra o seu valor quando se curva para lavar os pés dos miseráveis. Se for da sua vontade, eu, Beatrice e Caterina iremos servir a sopa com o maior fervor.
Beatrice, sentada à minha frente, arregalou os olhos castanhos, o pão caindo de seus dedos. Caterina, ao lado dela, travou a faca de manteiga no ar, o rosto empalidecendo sutilmente. Ambas sentiram o cheiro da armadilha.
A intuição delas gritava que a minha resposta submissa escondia veneno, e que aquele convite só poderia ser obra do monstro de Palermo. Mas diante de Alessio Marino, elas não tinham voz para questionar um chamado de Deus.
Duas horas depois, o Lancia blindado descia a montanha sob o sol impiedoso de julho.
A rua onde a paróquia ficava era o avesso do nosso mundo. O carro de luxo estacionou em uma via estreita de calçamento quebrado, cercado por prédios de reboco caindo aos pedaços. O contraste era grotesco e revirava o estômago.
Eu e as minhas irmãs vestíamos vestidos longos e escuros de algodão egípcio, impecáveis, descendo no meio de uma fila de homens e mulheres arruinados pela fome, roupas rasgadas e pele encardida.
Carmine e Salvatore saíram do carro logo em seguida, as mãos pousadas ameaçadoramente perto dos paletós, os maxilares travados. O ambiente era caótico, barulhento e imprevisível, um pesadelo para qualquer guarda-costas.
Entramos no refeitório. O calor ali dentro era espesso, misturando o cheiro forte de repolho cozido, feijão, suor envelhecido e desespero. Atrás de um balcão de alumínio fosco, panelões industriais soltavam vapor. Coloquei um avental branco sobre o meu vestido e peguei uma concha de metal pesada.
Enquanto eu enchia pratos de plástico desgastado com a sopa rala, meus olhos varriam o salão escuro. Analisei cada rosto enrugado, cada homem que entrava pela porta dupla, torcendo secretamente para encontrar uma postura rígida, um terno impecável ou um par de olhos verdes implacáveis me observando das sombras. Mas não havia sinal de Mattia.
O tempo passou se arrastando. Minhas costas começaram a doer, a frustração amargando a minha boca. Eu tinha inventado aquela teoria na minha cabeça? Era só um delírio do meu vício?
Foi então que o Padre Lorenzo se aproximou.
O velho religioso caminhava a passos curtos e trêmulos. O rosto dele estava empalidecido, coberto por uma fina camada de suor frio, e ele esfregava as mãos sujas no próprio avental de forma compulsiva.
— Signorina Aurora — a voz dele saiu como um grasnado nervoso. Ele sequer conseguia olhar nos meus olhos. — As cestas de pão no balcão estão acabando. O fluxo está muito grande hoje. Você se importaria de me acompanhar até a despensa nos fundos para pegar mais duas caixas?
Meu coração parou por um milésimo de segundo e voltou a bater em um ritmo frenético.
Olhei de relance para os guardas. Carmine e Salvatore estavam nas extremidades do balcão. Viram que era apenas o padre trêmulo da paróquia me pedindo ajuda dentro do próprio prédio e não moveram um músculo, relaxando a postura.
— Claro, Padre. Eu o ajudo.
Segui o homem pelo corredor estreito e m*l iluminado que ficava atrás da cozinha industrial. O barulho das panelas e das vozes dos miseráveis foi ficando abafado. O cheiro de sopa foi substituído pelo odor seco de farinha de trigo, alho e umidade envelhecida.
O padre parou diante de uma porta grossa de madeira lascada. Ele a abriu, mantendo a cabeça baixa e o corpo tenso, dando passagem para que eu entrasse primeiro.
O interior da despensa não tinha janelas, iluminado apenas pela luz fraca do corredor. Havia pilhas de caixotes de madeira, sacas de batatas encostadas nas paredes e prateleiras de metal enferrujado repletas de latas grandes de óleo.
Dei dois passos para dentro, procurando pelas cestas de pão.
A porta de madeira bateu às minhas costas com um solavanco surdo. E então, o clique inconfundível do trinco sendo trancado pelo lado de fora ecoou no espaço apertado.
A escuridão foi quase total. Antes que eu pudesse virar o rosto, uma mão imensa agarrou a minha cintura com força, e o meu corpo foi arremessado contra a parede de cimento frio entre duas pilhas de caixotes.
O cheiro de fumaça de cigarro forte, pólvora e sabonete amadeirado inundou as minhas narinas antes mesmo da boca dele encontrar a minha.
Mattia me beijou com uma urgência violenta. Os dentes dele rasparam no meu lábio inferior, a língua invadindo a minha boca com posse pura, sugando o meu fôlego.
Minhas mãos subiram instintivamente, agarrando os ombros largos cobertos pelo tecido do terno escuro, puxando-o para mais perto enquanto minhas unhas arranhavam o pescoço dele.
O Sottocapo puxou o meu avental com uma das mãos, rasgando as alças finas de tecido que o prendiam ao meu pescoço para tirá-lo do caminho.
— Fiquei a manhã inteira observando os seus cães de guarda rondando essa espelunca — ele sussurrou de forma gutural contra a minha boca, a respiração quente batendo no meu rosto. A mão direita dele desceu pela lateral do meu corpo, apertando a minha coxa por cima da saia com uma possessividade bruta. — Senti o seu cheiro assim que você cruzou a porta da igreja.
— Você forçou aquele homem a mandar a carta — arfei, a excitação me deixando tonta enquanto o quadril dele se prensava contra o meu, deixando claro o volume duro que a calça de alfaiataria tentava esconder.
— Eu mataria todo mundo naquele refeitório para ter meia hora com você no escuro, Aurora — ele rosnou, o rosto descendo para o meu pescoço, chupando a minha pele logo abaixo da orelha com força suficiente para deixar uma nova marca roxa. — Eu já fiz pior do que ameaçar um padre para conseguir o nosso tempo.
As palavras dele me paralisaram por um segundo. A escuridão da despensa parecia ter ficado mais densa.
— O que você fez? — Murmurei, os dedos enroscados no cabelo castanho dele.
Mattia levantou o rosto, os olhos verdes brilhando na penumbra como as pupilas de um predador noturno. Não havia remorso na expressão dele. Havia apenas uma frieza clínica e uma obsessão devastadora.
— Eu encontrei a desculpa para Palermo — ele revelou, o tom de voz raso e direto, sem tentar enfeitar a própria monstruosidade. — Um estivador qualquer do porto, pai de família, que falou o nome errado no bar. Eu o executei ontem à noite. Coloquei uma bala no meio da testa dele em um beco sujo, joguei o corpo em uma vala e mandei a foto para Romeo dizendo que era um espião. Duas crianças ficaram sem pai apenas para que eu tivesse a desculpa oficial de ficar mais três dias nessa cidade e f***r você.
O ar sumiu dos meus pulmões. O peso daquela confissão deveria ter me causado repulsa. Deveria ter feito com que eu gritasse, empurrasse aquele assassino para longe e fugisse batendo na porta. Um homem inocente morreu apenas para ser o álibi da nossa luxúria.
Mas a minha sanidade estava podre há muito tempo. Saber que ele havia destruído uma família inteira, cometido uma atrocidade irreparável, apenas para sentir a minha maciez...
Isso mandou uma onda de calor líquida e obscena direto para o meio das minhas pernas. Minha respiração ficou entrecortada. Apertei os braços ao redor do pescoço dele, colando os nossos corpos, minha i********e úmida latejando contra a perna dele.
Mattia sentiu a minha reação. Ele soltou um sorriso de canto, c***l e sombrio, os dedos longos apertando a minha garganta com firmeza, sentindo a minha pulsação descontrolada sob a sua palma.
— Eu preciso entrar na sua casa, santuzza — ele exigiu, o aperto no meu pescoço ficando deliciosamente perigoso. — Eu perdi noites demais esbarrando na vigilância do seu pai. Eu não posso matar quinze guardas e cães de ataque na sua porta e esperar que Romeo não perceba a guerra que eu iniciei. Me dê a falha na segurança. Por onde eu invado a fortaleza de Alessio?
Sorri no escuro. Uma euforia correndo nas minhas veias. A filha prestativa já não existia. Eu era um reflexo espelhado da corrupção dele.
Toquei o seu rosto liso com as duas mãos, meus olhos cravados nos dele.
— Você não vai invadir a fortaleza, Sottocapo — sussurrei, saboreando as palavras. — Você não vai pular muros nem matar mastins. Se não podemos ter o meu quarto na Villa, nós vamos fazer do meu jeito.
Mattia estreitou os olhos, a desconfiança e o interesse faiscando no verde das íris. Ele afrouxou um pouco a mão no meu pescoço.
— Explique.
— O fanatismo do meu pai é a nossa chave — revelei, o plano que eu vinha construindo tomando forma. — Alessio acredita em sacrifícios para limpar a alma. Amanhã de manhã, eu vou implorar a ele por uma provação. Direi que as misérias que vi neste refeitório me marcaram tão profundamente que eu preciso passar uma noite inteira em oração constante. Pedirei para fazer uma vigília isolada, em um quarto humilde e alugado no meio de uma das habitações pobres da cidade, para rezar pelos pecadores sem os luxos da Villa Marino.
Mattia permaneceu em silêncio absoluto, a mente estratégica dele dissecando cada palavra minha em milissegundos.
— Alessio é obcecado por santidade — continuei, a respiração ofegante misturando-se à dele. — Ele vai autorizar. Carmine e Salvatore ficarão plantados na rua de terra, vigiando a porta de entrada e o perímetro pelo lado de fora até o amanhecer, para garantir a minha segurança. Eles jamais ousarão entrar para não interromper o meu "contato com Deus".
Passei a ponta da língua nos lábios, inclinando o rosto até que a minha boca estivesse a milímetros da dele.
— Eles vão guardar a rua inteira — sussurrei. — Mas lá dentro, no escuro do quarto simples, sem paredes de pedra grossa e sem o meu pai no corredor... lá dentro estaremos sozinhos a noite toda. E nós poderemos fazer absolutamente tudo.
Um silêncio pesado engoliu a despensa. A tensão era tão sólida que eu podia cortá-la com uma faca.
Mattia me encarou, o peito subindo e descendo devagar. Ele viu, naquele instante, o quão funda a escuridão havia chegado em mim.
Ele levou a mão espalmada até a minha nuca, puxou o meu rosto para frente e me deu um beijo profundo, selvagem e dominador, engolindo os meus gemidos enquanto aprovava a minha ruína.