Capítulo 25: Aurora

1445 Words
O final da tarde tingia as paredes de pedra da Villa Marino com um tom alaranjado. Alessio estava de pé atrás da sua imensa mesa de carvalho, as mãos repousando sobre uma pequena caixa de veludo n***o. O olhar dele sobre mim não era como o de Mattia, admirando algo único. O olhar do meu pai era o de um fanático adorando o seu próprio reflexo. — Ajoelhe-se, Aurora — ele instruiu, a voz mansa, mas inquestionável. Dobrei os joelhos sobre o tapete persa, abaixando a cabeça. O farfalhar do meu vestido recatado foi o único som no escritório. Alessio contornou a mesa e parou na minha frente. Senti o peso frio do metal tocando a pele do meu pescoço, deslizando pelo exato lugar onde as marcas roxas dos dentes do Sottocapo estavam cuidadosamente escondidas sob a gola alta e a maquiagem pesada que peguei com Caterina. O fecho estalou na minha nuca. — Pode se levantar. Quando fiquei de pé, abaixei o queixo para observar o presente. Era um crucifixo de prata maciça, adornado com uma única pérola branca e imaculada no centro. — Uma jovem pura e de alma radiante merece carregar o peso da virtude no peito — Alessio discursou, os olhos escuros brilhando com uma devoção cega. Ele tocou a pérola com a ponta do dedo áspero. — Você abraçou a sua penitência com uma graça que me enche de orgulho, minha filha. O seu serviço aos miseráveis de Messina provou que o sangue dos Marino corre limpo nas suas veias. Você é a nossa luz no meio dessa escuridão. Engoli em seco, forçando uma expressão de gratidão serena. O metal do crucifixo parecia queimar a minha pele suja. — Obrigada, papai. Eu vivo para honrar o nosso nome. Alessio sorriu levemente, um repuxar contido nos lábios duros. Ele recolheu as mãos para trás das costas e deu um passo para longe, assumindo novamente a postura de Capo. — É exatamente por isso que tomei uma decisão — ele anunciou, e o tom solene fez o ar nos meus pulmões congelar. — Um tesouro como você não pode ficar guardado para sempre. Em breve, você terá um noivo. Um homem de extremo valor, que seja um espelho da santidade e da honra dos Marino. Um casamento que unirá forças e abençoará a nossa linhagem. O meu coração afundou como uma pedra atirada no fundo do Estreito de Messina. A bolha de fantasia violenta e perfeita que eu havia construído naquele quarto alugado estourou de uma vez só. O chão pareceu sumir. Um casamento arranjado. Um mafioso qualquer, escolhido a dedo pelo meu pai, que me trancaria em outra casa, me forçaria a abrir as pernas para firmar um contrato e me usaria como uma incubadora sagrada. Essa era a minha realidade. Não havia saída para a filha primogênita de um chefe da Cosa Nostra. A minha devoção simulada, que eu havia usado para manipular o meu pai e encontrar o meu d***o, agora estava sendo usada para forjar as correntes do meu próprio casamento. Puxei o ar com dificuldade, murmurando uma concordância submissa antes de pedir licença para me retirar. Caminhei pelos corredores da fortaleza em um estado de choque dormente. O peso da cruz de prata balançava contra o meu peito, zombando da minha ilusão. Quando empurrei a porta do meu quarto e entrei, dei de cara com Beatrice sentada na beirada da minha cama, os braços cruzados e a expressão indecifrável. — Ele te deu a sentença, não foi? — Beatrice perguntou, a voz baixa. Ela olhou para o crucifixo brilhando no meu pescoço. — O dote da virgem. É o destino de todas nós, Aurora. Fechei a porta atrás de mim e encostei as costas na madeira, fechando os olhos por um segundo. Beatrice se levantou, caminhando pelo quarto com uma inquietação nervosa. — Talvez as economias que eu venho escondendo... — ela começou, mas a própria voz vacilou, morrendo no ar. Ela soltou uma risada amarga, balançando a cabeça diante da própria ingenuidade. — Não servem para nada. O dinheiro que eu tenho guardado não serve para libertar nós três. É só uma esperança pequena. Uma ilusão de merda, Aurora. O mesmo tipo de ilusão estúpida que você sente por esse carrasco de Palermo. A menção a Mattia acendeu a raiva dentro de mim. O medo do casamento arranjado evaporou, substituído pelo instinto de defesa do meu próprio veneno. — Faça o que quiser com as suas moedas, Beatrice — rebati, a voz dura e afiada cortando o ar do quarto. — E eu faço o que eu quiser com o meu homem. A minha irmã parou no meio do tapete, me encarando como se eu tivesse enlouquecido. — Seu homem? — Ela cuspiu a palavra, a incredulidade estampada no rosto. — Você está se ouvindo, Aurora? Ele não é o seu homem. Ele é o assassino do próprio Don, o homem acima do nosso pai! Ele é um monstro que está te usando de marmita enquanto está entediado em Messina! Avancei dois passos, os punhos cerrados na lateral do corpo. — Saia do meu quarto e vá tomar o seu banho — ordenei, o tom gélido que eu havia herdado do próprio Alessio. — Está anoitecendo. Temos o nosso serviço de caridade em poucas horas. Beatrice não recuou. Ela cruzou os braços, os olhos faiscando de desafio e desespero. — E depois você vai rezar no colo do seu Sottocapo, não é? — Você não faz ideia do quanto eu vou rezar a noite toda — retruquei, a minha mente já viajando para o quarto escuro, para as mãos ásperas, para o chicote. Faltava apenas essa noite... Beatrice deu um sorriso torcido e m*****o, uma última cartada na tentativa desesperada de me salvar de mim mesma. — Aproveita. Porque a Caterina e eu vamos dizer ao papai que não queremos mais ir para esse serviço voluntário. Diremos que estamos exaustas, que vimos coisas horríveis na rua. O meu sangue gelou nas veias. A respiração travou na garganta. — Você não ousaria. — Tente a sorte — Beatrice sibilou, erguendo o queixo. — Ele não vai deixar você descer a montanha sozinha para fazer sopa para os pobres. Nunca. O risco é alto demais sem nós duas como desculpa de um grupo. E se você chorar dizendo que precisa ir rezar, ele vai dizer para você se ajoelhar na capela aqui da Villa. Acabou, Aurora. O seu Sottocapo vai sair correndo de volta para Palermo no exato instante em que vir que não vai mais ter a b****a da primogênita disponível para ele. A fúria me atingiu de forma cegante. Não pensei. Não hesitei. Avancei contra a minha irmã como uma víbora. A minha mão direita disparou para frente, agarrando o queixo de Beatrice com uma força absurda. Meus dedos apertaram a pele fina, as minhas unhas afundando profundamente nas bochechas dela até deixarem marcas brancas ao redor da pressão. Ela ofegou pelo choque, arregalando os olhos, mas eu não a soltei. Colei o meu rosto no dela, os nossos narizes quase se tocando. — Vai dizer ao papai que não quer mais dedicar o seu tempo com generosidade? — Sussurrei, a voz pingando veneno, meus olhos arregalados com a mesma loucura que eu via nos olhos de Mattia no escuro. — Experimente. Diga não a Alessio Marino sobre um chamado da Igreja. E você vai levar uma surra no pátio que vai arrancar a pele das suas costas em tiras. Apertei os meus dedos com mais força no rosto dela, ignorando o gemido de dor que escapou dos lábios da minha irmã. — Alessio vai destruir você, Beatrice — rosnei, cada sílaba carregada de uma promessa sombria. — Principalmente quando ele souber... — Das minhas economias? — Beatrice engasgou, a voz estrangulada, os olhos cheios de lágrimas pela dor no maxilar, mas tentando manter a bravura. — Eu duvido que você contaria. Você não entregaria a sua própria irmã. Soltei o rosto dela com um empurrão violento. Beatrice tropeçou para trás, perdendo o equilíbrio e caindo sentada na beirada da cama, arfando e massageando as bochechas vermelhas onde as minhas unhas haviam afundado. Olhei para ela de cima, a minha respiração pesada, a humanidade escorrendo pelo ralo e abrindo espaço para a mulher que eu descobri sozinha que precisava ser para sobreviver nesse mundo. — Vá se banhar para a noite — ordenei, ajeitando o crucifixo no meu peito com uma frieza que me assustou. — Porque eu sei muito bem que você prefere alimentar os passa-fome lá embaixo do que dormir com as costas ardendo em carne viva por causa das chibatadas do nosso pai.
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