O sol da manhã entrava pelas frestas das venezianas, mas o calor já pesava no meu quarto. Eu encarava meu reflexo no espelho da penteadeira, lutando com a escova de cerdas gastas que insistia em prender nos meus nós.
Diferente de Aurora e Caterina, que carregavam o loiro herdado da nossa mãe, meus cabelos eram escuros, uma herança genética de algum antepassado distante que Alessio Marino parecia tolerar apenas porque eu era a mais silenciosa e cautelosa das três.
Minha escova estava arruinada. A de Caterina, no quarto ao lado, estava no mesmo estado. Mas Aurora... Aurora sempre dava um jeito de gastar cada centavo da pequena mesada que papai nos permitia — um prêmio por "bom comportamento" — em escovas de marca, cremes e itens de toalete.
Eu nunca entendi por que ela precisava de tantas escovas, mas naquele momento, eu só precisava de uma que funcionasse.
Caminhei pelo corredor e bati na porta dela. Silêncio. Bati novamente. Nada.
— Aurora? — Chamei baixo.
Presumi que ela estivesse dormindo ou que tivesse descido para o desjejum mais cedo, então entrei. O quarto estava vazio, o que significava que ela provavelmente estava no banheiro compartilhado do final do corredor.
Fui direto para a penteadeira dela, mas antes que minhas mãos alcançassem a escova de cerdas de javali, meus olhos travaram em um pedaço de papel deixado displicentemente sobre o tampo de mármore.
Não era um exercício de latim. Era a caligrafia desleixada de um homem.
Incapaz de conter a curiosidade que corroía o meu juízo, eu li. E cada palavra era como um soco de impureza que eu nunca imaginei que existisse no mundo real.
"Você me fez sujar meu escritório, santinha... queria passar meu rosto na sua b****a da mesma forma que você passou seu batom para me mostrar ela. Perfeita em todos os sentidos. Preciso disso, preciso de você sentando na minha cara. Estou indo para Messina, arrumei uma desculpa com Romeo, o Capo de Palermo me deu permissão para ir até aí novamente. Me aguarde, vou comê-la feito a c****a que preciso que você seja. Apenas minha e de mais ninguém. Espere me ver amanhã de manhã. – Il tuo Diavolo."
O papel tremeu entre meus dedos. O horror subiu pela minha garganta, gelado e paralisante. Eu li de novo, querendo acreditar que era um erro de interpretação, mas não havia erro.
Um homem estava vindo... um homem que falava com o Capo Romeo Rossi... o Sottocapo. Aquele homem grande, de ombros largos e olhos verdes que víamos de relance enquanto ele negociava com papai.
Aurora estava em contato com ele? Como? Como eles se encontrariam sem que o sangue corresse pelos corredores desta villa?
— O que você quer mexendo nas minhas coisas? — A voz de Aurora chicoteou o ar atrás de mim.
Virei-me bruscamente. Ela estava parada à porta, o rosto úmido do banho, mas os olhos... os olhos estavam em chamas. Ela avançou e arrancou o papel da minha mão com uma violência que me fez recuar.
— Está dando uma de Caterina enxerida? Você não tem mais idade para isso, Beatrice.
— O que significa isso, Aurora? — Minha voz saiu trêmula. Olhei para a porta aberta e a abaixei para um sussurro urgente. — Você está trocando cartas... cartas eróticas com o homem de Palermo?
— Não é da sua conta, Beatrice. Por que não vai encher o saco da anjinha do papai? A Caterina também troca cartas com aquele tal de Ugo da vila dos pescadores.
— Meu Deus, Aurora, isso nem se compara! — Eu sibilei, sentindo o pânico subir. — Eles são amigos conversando sobre coisas simples e puras.
Aurora soltou uma risada curta e debochada.
— Puras? Caterina tem dezoito anos, Beatrice. Ela não é mais uma criança.
— Mas a questão não é essa! Você não está conversando com um menino comum da sua idade. Aquele homem é um assassino, uns dez anos mais velho que você!
— Ele não passa de sete anos mais velho que eu, Bea. Deixe de ser exagerada — ela retrucou, guardando a carta dentro de um livro pesado sobre a cama. — E não venha com essa moralidade barata. Você também ficava olhando quando ele vinha. Todas nós olhamos quando aparece alguém que não cheira a incenso e mofo.
— Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra! Se papai descobrir que você está se engaçando com o Sottocapo dos Rossi... ele te mata. Se não te matar, vai castigar todas nós do pior jeito possível. Levamos anos para conseguir essa liberdade mínima, essa mesada para comprar nossas coisas que ele permite, mesmo que não possamos sair de casa. Você vai arruinar tudo!
Aurora deu um passo à frente. A expressão dela mudou. A irmã que eu conhecia, a companheira de tédio e orações, desapareceu. No lugar dela, havia algo frio, afiado e sombrio.
— É por isso que ele não vai descobrir. E você não vai contar. Se não...
— Se não o quê, Aurora? — Desafiei, embora meu coração estivesse disparado. — Eu não preciso contar, você mesma vai vacilar. E se fosse o papai quem tivesse entrado aqui agora e lido esse monte de... baixaria?
— Nossa, cuidado com as palavras pesadas — ela ironizou, aproximando-se ainda mais. — Mas que bom que não foi ele. Que bom que foi você, porque você vai ficar de boca fechada e não vai se meter nos meus assuntos. Nunca mais entre aqui.
— Você não pode me impedir. Você perdeu o juízo, precisa de alguém que te traga de volta!
— Não fale comigo como se fosse minha irmã mais velha. Eu nasci primeiro. Você não se mete em nada se eu mandar. E eu estou mandando.
— Deixe-me perguntar de novo — eu disse, cruzando os braços, tentando manter a postura. — Se não, o que acontece?
Aurora inclinou a cabeça, um sorriso gélido brincando nos lábios.
— Eu conto ao papai onde você esconde todo o seu dinheiro.
O ar sumiu dos meus pulmões. O suor começou a brotar na minha testa.
— Você vem juntando desde os dezoito, Bea. Dois anos guardando cada centavo. Deve ter um valor bem interessante escondido sob aquele fundo falso do armário. Para quê? Comprar uma televisão? Ele nunca deixaria. Um computador? Nem a p*u. Você quer fugir de casa, Beatrice.
— Mentira — eu gaguejei, sentindo o chão fugir sob meus pés.
— O papai não vai acreditar em nada do que você inventar depois que eu mostrar o seu "tesouro" de fuga para ele. Então, façamos assim: você não sabe de Mattia, eu não sei do Ugo da Caterina, e ninguém sabe do seu dinheiro. Estamos todas bem. Tchau.
Ela começou a me guiar fisicamente em direção à saída, a mão firme no meu ombro. Quando cheguei ao corredor, ela fechou a porta na minha cara sem a menor hesitação.
Voltei para o meu quarto em transe. Meu corpo tremia. Eu me sentei diante do espelho e peguei minha escova r**m novamente, refletindo sobre aquele lado de Aurora que eu nunca tinha visto.
Éramos irmãs, nos dávamos bem, e agora tudo parecia prestes a desmoronar por causa de um homem de Palermo. Aurora tinha acabado de ameaçar as duas irmãs diretamente para proteger seu pecado.
Alguém bateu à porta. Caterina entrou, com o rosto sonolento e os cabelos loiros bagunçados.
— Bea? Me empresta uma escova? A minha está horrível.
Eu olhei para ela, a caçula que não sabia de nada, e lembrei das palavras de Aurora ameaçando seu amor platônico. O perigo não estava apenas vindo de Palermo.
Ele já estava dentro de casa.