O calor de julho na Sicília era uma presença física que nos castigava com nosso próprio suor. Uma praga úmida e sufocante que grudava a camisa nas costas e transformava o ar em uma massa pesada nos pulmões.
Descendo a estrada sinuosa dos Colli San Rizzo e deixando o frio da montanha para trás, eu já sabia que a tarde seria desse jeito. O asfalto parecia ondular, derretendo sob os pneus do meu carro enquanto eu dirigia a esmo.
A viagem de volta para o nível do mar deveria ser um alívio, a conclusão de uma mentira bem-sucedida, mas o volante de couro queimava sob as minhas mãos. Alessio já havia feito a ligação para Palermo no meio da tarde.
O Capo de Messina reportou diretamente a Romeo Rossi que os livros contábeis estavam imaculados. A auditoria falsa havia acabado. Pelas regras da Cosa Nostra, eu deveria pegar a rodovia A20, encarar as três horas de asfalto cruzando a costa norte e desaparecer no horizonte até a capital.
O meu trabalho não existia mais.
Mas eu não conseguia ir embora.
Acelerei o carro ao entrar nos limites urbanos de Messina, cruzando a Viale della Libertà. O sol da tarde castigava o capô escuro do sedã, enquanto a brisa salgada do Estreito de Messina invadia o carro pela janela aberta, trazendo o cheiro de óleo diesel dos grandes navios atracados no porto.
Parei em um semáforo perto da Piazza del Duomo. Turistas suados se aglomeravam sob as sombras ralas dos prédios históricos, tomando granita de limão e apontando para o relógio astronômico da Catedral, completamente alheios ao sangue que corria no submundo da mesma calçada que pisavam.
O contraste me embrulhou o estômago. Eu era o Sottocapo da Famiglia Rossi. Minha função era gerenciar a brutalidade de Palermo, manter os políticos nos nossos bolsos e os portos funcionando.
No entanto, minha mente estava presa no andar de cima daquela Villa nas montanhas.
Cada vez que eu respirava, a memória física me atingia com a força de um soco no estômago. O meu corpo inteiro cobrava a presença dela. Eu lembrava da maciez absurda da pele de Aurora sob os meus dedos calosos.
Lembrava do aperto insano da i********e dela me engolindo no escuro do quarto, contorcendo-se em um silêncio forçado para não alertar a casa.
A lembrança do desespero úmido e quente que escorreu pelas minhas coxas, o calor da garganta dela tomando tudo o que eu tinha a oferecer... tudo isso fazia meu sangue engrossar e latejar direto na minha virilha.
Eu precisava f***r a filha de Alessio de novo. Era uma urgência enraizada nos meus nervos, uma fome crua que nenhuma p**a de luxo em Palermo seria capaz de saciar. Mas para isso, eu precisava de uma desculpa. E, sendo o Sottocapo, justificar o abandono das minhas obrigações e mentir para Romeo seria não apenas difícil, mas uma traição direta.
Continuei dirigindo, sem rumo, cruzando a cidade de norte a sul. Vi o dia morrer lentamente sobre a água turva do Estreito, as luzes da Calábria começando a piscar do outro lado da costa, enquanto eu consumia cigarro atrás de cigarro.
Precisava encontrar um motivo para não voltar. Uma justificativa que fizesse Romeo me ordenar a ficar.
Quando a noite finalmente engoliu a cidade, eu direcionei o carro para a parte mais feia e esquecida de Messina. Longe dos cartões-postais do centro e da brisa do mar. Entrei no bairro de Mangialupi.
Era um labirinto asfixiante de ruas estreitas, prédios de reboco encardido caindo aos pedaços e varais pendurados nas janelas que formavam tetos de tecido velho. Um reduto ignorado por Deus e habitado pelo que restava da escória.
Cachorros magros reviravam lixo nas esquinas e homens sem futuro fumavam nas calçadas, observando o meu carro caro cruzar o território deles com hostilidade.
Estacionei a dois quarteirões de um bar sombrio, sem nenhum letreiro na fachada, iluminado apenas por uma lâmpada amarela que piscava perto da porta.
Tirei o paletó e joguei no banco do carona. Arranquei o coldre de couro das costas, que marcava demais a camisa, e enfiei a Beretta diretamente na parte de trás da calça, cobrindo o cabo metálico com o tecido.
Empurrei a porta de madeira gasta e entrei.
O ar lá dentro fedia a cigarro vagabundo, mofo, suor acumulado e cerveja quente. Homens com rostos marcados por cicatrizes m*l curadas e vidas fodidas jogavam cartas em mesas de madeira riscada. Naquele buraco imundo, o nome Rossi não significava p***a nenhuma.
O respeito ali era medido por quem puxava a faca ou o gatilho primeiro. Naquele balcão, eu não era a autoridade de Palermo. Eu era apenas Mattia Santoro, um nome comum entre dezenas de desgraçados.
Encostei no balcão de fórmica descascada e pedi um copo do uísque mais barato e vagabundo que eles tinham. O ventilador de teto rangia no alto, girando devagar, apenas empurrando o ar sufocante de um lado para o outro.
Bebi o primeiro gole, o álcool de péssima qualidade queimando a garganta. Foi quando a salvação chegou até os meus ouvidos.
Dois homens velhos, com mãos incrivelmente grossas e dentes amarelados, conversavam na mesa logo atrás de mim. As vozes eram roucas e misturadas com o som do bar, mas não o suficiente para passar despercebidas por alguém treinado para caçar a morte nas entrelinhas.
— Aquele Vittorio ainda vai ter a garganta cortada — um deles resmungou, cuspindo um pedaço de tabaco mastigado no chão de cimento. — Trapani não vai manter ele vivo para sempre.
Parei com o copo a centímetros da boca. Girei levemente a cabeça, cravando os olhos no espelho sujo atrás das garrafas de bebida para observar o reflexo da mesa.
Se fosse em qualquer taverna de beira de estrada no continente, "Vittorio" seria apenas o nome de um padeiro caloteiro ou de um velho endividado. Mas ali? Em Mangialupi? Onde as paredes respiravam a escória da máfia?
Falar os nomes "Vittorio" e "Trapani" na mesma frase, com uma promessa de morte, mudava tudo.
Trapani era a cidade onde o Don morava, o reduto impenetrável da Tenuta Rossi, e Vittorio era o próprio Don, pai do meu Capo. Aquele homem sujo falando merda em um bar a centenas de quilômetros dali era alguém do nosso mundo.
Teria sido um soldado descartado da Cosa Nostra? Um rato da 'Ndrangheta tentando atravessar o Estreito para ganhar terreno na Sicília?
Não fazia diferença. O i*****l, fosse quem fosse, tinha acabado de me entregar o meu trabalho em uma bandeja de prata suja de cerveja.
Deixei uma nota amassada sobre o balcão, suficiente para pagar a bebida e evitar atenção, e caminhei para fora antes que eles notassem que estavam sendo ouvidos.
Voltei para o meu quarto de hotel no centro, já passando das onze da noite. Abri as portas duplas da sacada, deixando o barulho distante das buzinas e o ar quente entrarem no quarto. Peguei o telefone sobre a cômoda e disquei o número direto de Palermo.
— Achei um homem que quer ver o seu pai morto em um bar — eu disse assim que a linha atendeu, sem nenhum rodeio. — Se fosse em qualquer outro lugar eu ignoraria, coisa de bêbado. Mas pela forma como falaram de Trapani, quero investigar o sujeito.
O silêncio do outro lado durou apenas dois segundos. Romeo Rossi não perdoava ameaças, nem mesmo as mais irrelevantes. Varrer o lixo era a nossa especialidade.
— Investigue, Sottocapo — a voz do meu Capo soou seca e pragmática pelo alto-falante. — Descubra a sujeira do sujeito e mate. Depois volte. Você é o meu braço direito, Palermo vira um caos sem você.
— Si, signore.
Desliguei o aparelho, jogando-o sobre o colchão intocado.
Caminhei até a varanda, encostando as duas mãos no parapeito de pedra e inspirando o ar escuro do porto. A autorização oficial estava dada. Eu tinha um homem para investigar, um civil para arrastar para um beco e uma garganta para cortar em nome da Famiglia Rossi.
E isso me daria exatamente o que eu queria: dias inteiros nas sombras da província, com todo o tempo do mundo para descobrir como atravessar a vigilância de Alessio Marino e invadir o quarto de Aurora, afundando dentro dela até ela esquecer que outros homens existiam.