A cabeça dele caiu no chão com um baque surdo. Eu o decapitei com dois golpes, o pescoço se rompeu sob a espada medieval, meu presente de noivado e bilhete de liberdade. Meu pai, Alessio Marino, Capo de Messina, me olhava com aqueles olhos frios e profundos que lembravam um morto. Ele piscou uma última vez, apesar de separado do corpo.
Agora estava morto de verdade.
E eu não ligava para o que Don Vittorio, Capo dei Capi da Cosa Nostra, faria. Não pertenceríamos mais a ele, não seríamos mais vassalos da Máfia Vermelha. Que ele e seus filhos queimassem no inferno junto do meu pai, eu viveria como eu quisesse, como uma igual ao lado do meu novo marido.
Começar a contar a história pelo final talvez não tenha sido uma boa ideia, então vamos voltar ao início, o começo de tudo.
Eu nasci vinte e dois anos atrás, como quase tudo na máfia, eu era o fruto de um contrato. O Don Vittorio, líder de tudo, organizou um casamento para dobrar o meu pai e conquistar o apoio dele sem derramamento de sangue. Basicamente, Messina serviria o novo rei da Sicília, e meu pai receberia em troca uma esposa “santa”.
Eu não conheci muito minha mãe, ela morreu quando eu tinha seis anos, mas os criados dizem que ela era uma cópia do meu pai: uma fanática. Capaz de matar, se banhar em sangue e dizer que estava servindo aos propósitos de Deus. Tudo sempre foi assim, comigo e minhas duas irmãs mais novas, eu era a mais velha e fui a primeira a conhecer as imposições e contradições do meu pai.
Alessio era um homem frio, sempre andando com um terço de prata na mão, sempre lendo a bíblia em cada canto escuro, obrigando-nos a orar e rezar pela ordem estabelecida em casa e na ilha. Tínhamos que ser tudo o que ele queria, tudo o que sonhava em sua mente doentia.
Castas, santas, virgens. Filhas inocentes e perfeitas.
Eramos castigadas pela menor das coisas, sair sem permissão, comprar maquiagem, escutar músicas estrangeiras... tudo que ele considerasse pecado. Quando menstruei pela primeira vez, ele me deu uma aula de educação s****l distorcida.
Sexo era errado, o prazer era proibido. A m*********o me levaria ao caminho da perdição. Todo tipo de bobagem religiosa. Como resultado, eu me viciei em me tocar, o prazer que ele tentou banir com uma lavagem cerebral desde que nasci, eu abracei como se fosse um bote salva-vidas.
Minhas irmãs não tinham nada a ver com isso, então eu não ensinei nada a elas, minha revolta era apenas minha, no entanto, eu as defendia da tirania do Capo Alessio sempre que possível. Eu aceitava ser castigada em triplo por elas, então de um jeito ou de outro, todas descobrimos que odiávamos aquele homem.
E até meus vinte e um anos, completados ano passado, eu nunca amei ninguém. Como seria possível? Sem sair de casa, minha prisão sagrada, com a vigilância constante dos guardas do meu pai e do próprio Capo, o amor seria inalcançável para mim.
Eu era a mais velha, portanto, seria forçada a um acordo um dia, teria minha virgindade leiloada, entregue a um desconhecido para firmar algum aliança dentro dessa maldita máfia. Havia escapatória, mas eu me recusava a me enforcar, seria como declarar que meu pai tinha me vencido.
Com o tempo, apenas aceitei a minha condição. E meus orgasmos escondidos eram minha revolta secreta, um alívio de estresse mais que bem-vindo.
Em vez de usar apenas os dedos, passei a utilizar escovas de cabelo também, coisas que ele comprava com a maior inocência, ignorando a mente fértil de uma jovem adulta; assim passei a considerar que eu mesma tinha tirado minha virgindade, com objetos longos e grossos, com superfícies lisas para não machucar a minha i********e.
Perdi as contas de quantas vezes molhei meus lençóis e escondi os gemidos para minhas irmãs não me escutarem nos seus próprios quartos.
Eu era apenas outra triste história de uma “virgem santa” que seria vendida na hora que seu pai considerasse a hora adequada, sem homens até o casamento.
Homens desejáveis, no caso, pois se eu quisesse, teria arrastado para o meu quarto os seguranças que me comiam com os olhos, mas eles eram feios e nojentos.
Sendo o Capo de uma província importante, meu pai costumava receber homens de outras cidades, diferentes territórios da Cosa Nostra, às vezes eu e minhas irmãs ficávamos vagando pelos corredores para ver se aparecia algum bonitinho. As mais novas eram quietas, mas eu sabia o que eu queria fazer.
Eu tinha completado vinte e um anos mês passado na época, meu peito ardia, eu estava perdendo minha juventude e os prazeres da vida não ficavam mais perto de mim, eu precisava de alguém para me saciar, alguém que parecesse um homem de respeito, que acendesse um fogo que eu jamais tive.
Então eu o vi deixando o escritório do meu pai, eu não sabia ainda, mas seu nome era Mattia, Sottocapo de Palermo, isso significava que ele era o braço direito de Romeo Rossi, o filho mais velho do Don Vittorio e herdeiro da Cosa Nostra.
O Sottocapo tinha uma posição alta dentro da Máfia Vermelha, talvez conhecesse até o Chefão, mas não foi isso que me atraiu, eu nem sabia quem ele era a princípio mesmo. O homem era bonito. Seus olhos verdes encontraram os meus, sua pele bronzeada contrastava com tudo e todos dentro da minha prisão.
Ele piscou para mim quando passou, e eu descobri que eu o queria nesse momento.
E eu não sabia o que fazer para alcançá-lo, para fazê-lo me tirar de casa, do alcance do meu pai e das suas ordens. Amor à primeira vista são coisas de romances, e eu não sabia o que minha vida era, apenas que queria preencher o vazio dentro de mim. Literalmente.
O homem apareceu outros dias, as criadas escutaram, eu descobri o seu nome e o que ele fazia: negociando sobre produtos nos portos para o Capo Romeo. Mattia de fato era importante para o herdeiro da máfia enviá-lo até aqui para negociar com meu pai.
Alessio não era amigo de ninguém, muito menos dos Rossi e de quem era mais chegado a eles. Mas eu pouco me importava com isso, eu queria o Sottocapo.
— Isso é loucura, Aurora — disse-me minha irmã mais nova uma noite, seu nome era Caterina. — Volte para o seu quarto ou papai irá te matar.
— Eu não ligo — respondi. — O homem da Capital está aqui, eu vou vê-lo mais essa vez, quem sabe seja a última vez que ele aparece.
— É perigoso — sussurrou Beatrice, a nossa irmã do meio. — Não deixa papai te ver.
— Vão dormir — mandei, e cada uma botou a cabeça para dentro dos seus quartos e fechou as portas.
Eu, com toda minha ousadia em um vestido azul, avancei pelos corredores da prisão, pois eu me recusava a ver essa coisa como um lar.
Minutos depois, eu fiquei espiando a porta do escritório do meu pai. Meia hora se passou e nada, a conversa lá dentro devia estar mais tediosa que a minha espera. Alessio não bebe e não fuma, e não deixa que seus convidados o façam também. E mafiosos adoram seus vícios.
O Sottocapo devia estar doido para ir embora. Eu não o julgava, ninguém suportava aquele falso santo hipócrita dos infernos. Acho que minha raiva já seria capaz de decapitar ele naquele dia, eu ficava pensando como seria bom se Mattia o provocasse e meu pai morresse de um infarto.
Instantes depois, quando eu estava quase desistindo de esperar, a porta se abriu. O Sottocapo saiu, a expressão séria, mas não tinha matado Alessio de raiva. Eles apertaram as mãos e os guardas vieram acompanhando Mattia até a saída.
Eu dei meia volta e voltei pelo corredor, meu coração martelando no peito. O que fazer para forçar um encontro com esse homem? Um encontro que não o matasse, longe da vista dos guardas...
— Eu posso ir ao banheiro? — A voz grave do Sottocapo indagou aos guardas do meu pai. — Eu não vou conseguir segurar até o hotel.
Os guardas suspiraram de irritação, mas eu sorri. O banheiro de hóspedes ficava para o lado do corredor onde eu me escondia. Mattia não sabia, mas tinha acabado de preparar o nosso encontro.
Eu corri com passos leves e entrei no banheiro masculino.