Um retorno bem promissor

3255 Words
        A manhã de segunda feira era ensolarada e morna. Respirei fundo umas três vezes antes de sair da cama, tomei banho e modelei meus cabelos com o Chris tinha mandado, encarei três vezes a bancada da penteadeira, segui os conselhos do meu amigo e usei lápis de olho e rímel, além de um brilho labial leve. Deixei os óculos na bancada e coloquei as lentes de contato, mandaria fazer uma armação de óculos mais bonita naquela tarde.         Os gêmeos Murray, só para variar, já estavam lá em casa, Steve ficou de boca aberta enquanto eu descia as escadas para ir para a cozinha. Anunciei um “bom dia” para ouvir "que m***a é essa?" da boca de meu irmão mais novo e um "não parece a sua irmã" de Peter, enquanto eles devoravam tigelas de cereal com leite. Benjamin apareceu na escada logo depois. -       Bom dia - ele sentou na banqueta - tá gatinha, hein. -       Deixa de ser boboca – respondi encarando ele. -       Verdade, ficou bonita mesmo - ele sorriu - não que você fosse f**a, ninguém achava isso… -       Eu era esquisita, ainda sou, só estou tentando disfarçar para não passar outro humilhante ano naquele inferno que vocês chamam de escola – suspirei. -       Discutimos sobre isso esses dias…- Ben disse distraído. -       Quem? - encarei ele perplexa. -       Dan e eu, ora… - ele sorriu tranquilo - sabe, já era hora de você ser mais menininha, claro, como eu disse, do outro jeito me dava pouco trabalho… -       Trabalho? – eu o encarava. -       Você sabe, os rapazes caindo à sua volta como moscas mortas - ele aproximou do balcão falando baixinho - o pobre Steve ali, m*l respirou depois que você passou. -       Ele é uma criancinha, Ben… - eu ri alto. -       Criancinha? Sei - ele deu um gole no café e me encarou - tem dois meses para o seu aniversário de dezesseis anos, o papai quer saber da festa. -       Sem festa, eu já falei - encarei meu irmão com sangue nos olhos. -       A vovó vai ficar decepcionada – Ben debochou. -       Problema é dela - eu tinha muitos problemas com minha avó, o principal era que ela agia naturalmente como se nós todos tivéssemos mãe e não precisássemos de ajuda, isso se acentuava no dia de Ação de Graças, quando ela simplesmente esperava uma ceia perfeita em nossa casa para ela, meus tios e algum amigo i****a dela - não vou fazer festa para agradar minha avó, Benjamin. -       Pensaremos em alguma coisa então – ele disse ainda esperançoso de me convencer. -       Certo.         Enquanto eu comia e tomava o meu café e preparava o almoço dos meus irmãos e o meu, que naquele dia eram sanduíches de salada de frango, suco de uvas natural e brownie de chocolate com castanhas - o brownie era para todos, eu sempre embalava quatro pedaços extras para os Murray, o Chris e o Dan, esse último o Ben colocava na lancheira dele e entregava no horário do almoço.         Saímos sem muitas conversas em direção à Toyota Rav4 do meu irmão, eu estava muito ansiosa pelo efeito da minha produção enquanto tamborilava no painel ao som de Dark Necessites do Red Hot Chilli Peppers. Assim que deixamos os rapazes na escola, Ben desligou o som: -       Olha só - ele anunciou - tenho uma ideia. -       Que ideia? - questionei. -       E se você fizesse exatamente o que ninguém imagina que vai fazer? – ele disse. -       Como o quê? – perguntei. -       Como ir nas festas, ir aos jogos, ter um namorado… - ele sorriu. -       Ninguém quer namorar comigo, Benjamin, ninguém me chama para sair porque eu ainda sou esquisita - eu sorri sem graça enquanto ele estacionava. -       Posso te falar uma coisa? - ele parecia envergonhado. -       Não seja mais desagradável, do que minha vida é, por favor – eu pedi. -       Ninguém te chama para sair porque eu não deixo - ele disse de repente - todo mundo tem medo de mim, então quando alguém tem a brilhante ideia de te chamar para sair eu apareço e digo que "não é boa ideia" e aí desistem… -       Você… - fiz uma pausa para engolir meu choro, não queria borrar a minha maquiagem - tá me sabotando? -       Quando você fala assim parece h******l – ele disse ainda mais envergonhado ainda. -       E é h******l, Benjamin! Eu faço tudo por você, e você sai por aí dizendo para as pessoas não me convidarem para sair e eu fico achando que sou no mínimo nojenta, escrota ou qualquer coisa porque não consigo ser - pausei novamente - uma adolescente normal? -       Não era muito a minha intenção…- ele disse. -       Claro, percebo que tinha ótimas intenções – gritei furiosa. -       Olha o que aconteceu com o Oliver Lincoln ano passado... – ele disse -       O desafio provavelmente - fiz uma pausa - era encarar você, não eu… Benjamin, você é um i****a.         Sai do carro furiosa e batendo a porta, antes mesmo que Ben dissesse mais alguma coisa. Eu tive vontade de jogar o almoço dele na lata de lixo ou contar para todo mundo que ele não gostava de tomar banho, mas me controlei, na verdade, me distrai. De repente, a movimentação de alunos estava anormalmente interessante: a maioria dos garotos estava olhando diretamente para mim com olhares incrédulos e a maioria das garotas olhava para mim de forma perplexa e com ar de inveja. Respirei fundo e encarei as longas escadarias: usava meu Ray Ban modelo aviador com lentes polarizadas, Chris estava no topo das escadas me esperando, assim que cheguei perto dele abri um sorriso e disse "bom dia", o que fez muitas pessoas cochicharem entre si: -       Garota, você está maravilhosa - Chris me abraçou e andamos juntos até os nossos armários. -       Acho que tem uma explicação para a minha total falta de sorte - eu ri - além de realmente parecer meio esquisita… -       E qual seria? - Chris me encarou.          Contei rapidamente o que Ben me falou, ele disse um "era de se esperar" e completou com um sonoro "agora vão ver o que é dar trabalho" bem na hora que Ben vinha pelo corredor, o que não vimos foi Dan logo atrás que precisou parar, olhar novamente para mim por duas vezes para só então conseguir dizer "eu nunca concordei com essa ideia do Benjamin, só para deixar claro" e sair rapidamente pelo corredor.          O primeiro dia de aula foi atipicamente interessante, poderia até mesmo dizer que foi um retorno bem promissor… Percebi muitos garotos estranhos conversando com meu irmão que apresentava uma visível irritação repentina cada vez que eu me aproximava, mas isso não chegou a ser um problema, porque eu estava mais irritada com ele. As aulas da tarde eram sempre as mais chatas ou eu estava ansiosa demais para ir embora, Chris tinha aulas de expressão artística, então eu saia sozinha pela porta em direção ao estacionamento e a Jeep Renegade vermelha de Daniel Monroe, na metade das escadas eu já pude ver ele, com o uniforme do treino de football conversando com mais dois garotos, que ele fez questão de dispensar assim que me viu descer as escadas. -       E aí - disse assim que cheguei perto dele no carro - cansado do treino? -       Eu nem sei porque estou de uniforme - ele riu - conversamos todo o período. -       Maravilha - eu ri.         Entrei no carro, sinceramente eu tinha esquecido do que Daniel havia dito na noite anterior. -       E então? Vai querer saber? - ele perguntou antes de ligar o carro. -       Saber o que? - perguntei distraída enquanto encarava Monroe nos olhos com meu olhar incrivelmente sexy com as sobrancelhas novas. -       Não me olha desse jeito, Anna - ele riu sem jeito - cê sabe, o que eu te disse ontem, sobre te contar uma coisa que você não poderia contar uma coisa para o Benjamin… -       Tá prometido - disse.  -       Certeza? Não tá falando só porque tá com raiva dele, não? - ele estava sério. -       Absoluta. Meu irmão… - encarei novamente Dan - eu não tô nem aí para o meu irmão, olha a m***a que ele anda fazendo, Dan. -       Beleza. Tenho um amigo, um amigão… - ele começou. -       Uhmm - disse interessada. -       … quase um irmão. E ele gosta muito de você, de verdade, deve fazer uns dois ou três anos que ele é meio obcecado…- ele riu. -       Olha, não vou cair no seu papo – disse muito séria. -       É sério e não é o AJ que faz as tarefas de química para mim, não…- ele rapidamente corrigiu. -       Ufa - Austin Jordan era um garoto magrelo, baixinho que não falava com ninguém, a não ser com o Dan, e isso somente às vezes. -       Eu não mentiria para você. É verdade, Anna - ele sorriu - você precisa confiar em mim. -       Ótimo. Eu confio. Quem é o amigo? – perguntei curiosa. -       Problema é esse - ele coçou a cabeça - ele é super inseguro com isso, ele acredita que você nunca ia gostar dele. -       Tá de brincadeira comigo, Daniel Monroe? -       Não eu não estou, Anna Marie Anderson - ele não parecia estar brincando - e nem te contaria se eu duvidasse disso… É sério. -       Tá, beleza - respirei fundo, ficar conversando com garotas dentro do carro no estacionamento da escola não era bem o tipo de Daniel Monroe - vamos? -       Tudo bem - ele ligou o carro e a encarou - posso dar o seu telefone para ele? Aí ele te chama, cês se falam, se conhecem melhor e você descobre se pode dar uma chance para ele, você vai ver que ele é bem gente boa. -       Conheço ele? – perguntei curiosa -       Ah, sim, da escola, mas quer saber? Ele ouviu você dizer alguma coisa sobre "amigos babacas do meu irmão" e aí ficou mega inseguro, agora ele acha que você precisa conhecer ele de verdade, tipo, conhecer ele além do que já conhece, para conseguir ter uma boa impressão. -       Tudo bem, pode dar o número - respondo decidida - na pior das hipóteses tenho um contato bloqueado. -       Você é c***l, Anderson – ele riu – Mas ok, acho que fez a coisa certa - ele por fim engatou a marcha e saiu - e a propósito, acho que ele deve estar muito impressionado com seu novo estilo - ele me olhou sorrindo - acho que todo mundo está. -       Não - eu ri sem jeito, meu Deus, como eh podia ficar tão boboca perto daquele garoto - acho que ninguém percebeu. -       Ah não - ele grita e me dá um tapinha na coxa - toooodo mundo reparou, os caras não falavam de outra coisa a não ser "olhem a irmã do Ben Anderson", seu irmão quase enlouqueceu, foi uma boa vingança pelo que ele aprontou, e enquanto isso as garotas diziam "eu só queria saber de onde surgiu aquele corpão, deve ter tomado hormônios"... -       Credo - devolvi o t**a - Deus me livre. -       Deus abençoe né, Anna - ele ria - metade da escola quer ser você e a outra metade quer ser quem está com você.         A conversa mudou de rumo quando passamos por um animado grupinho de cheerleaders de outra escola, automaticamente Daniel lembrou-se de sua postura de crush de todas as garotas começou a falar dos jogos e da promissora temporada que estava por vir. Pegamos Vincent na escola, eu tinha certeza de que Daniel ia querer entrar e tomar café, mas ele apenas despediu-se de mim no carro lembrando-me que me buscaria na manhã seguinte.         Vincent estava anormalmente mau humorado naquela tarde. Correu para o quarto e m*l me respondeu quando perguntei se ele queria café e um misto quente, como eu entendi "sim" no grunhido dele, preparei o lanche e subi as escadas com duas canecas grandes de café, três mistos e brownie. Bati na porta do quarto dele, mas ele abriu, saiu e fechou e fomos para o meu.         Vin era bem diferente de Ben. Enquanto o meu irmão mais velho crescera fino como uma vara de bambu, o mais novo era mais proporcional. Ben tinha um metro e noventa, e era muito magro. Vin, estava com um e oitenta e poucos e tinha quase duas vezes e meia a largura do Ben. Provavelmente não seria tão alto, mas seria muito forte. Eu sempre dizia que ele era gordinho, porque até pouco tempo ainda tinha bochechas quase infantis, mas o rosto estava mudado, parecia mais um dos garotos da minha turma do que um dos garotos da turma dele. Estávamos sentados no tapete, Vin folheava o jornal do dia distraído. -       O que aconteceu? - perguntei. -       Nada, Anna - ele não me olhou nos olhos. -       Vincent, alguma coisa aconteceu – eu insisti. -       Sim, Anna, algo que minha irmã não tem como resolver e que eu não quero que meu irmão ou o Daniel resolvam por mim - ele respondeu irritado - estou cansado de todos querendo resolver meus problemas. -       Deus me livre querer seus problemas - debochei enquanto bagunçava o cabelo dele - tenho uns quantos sozinha e muitos que eu também não divido para que não tentem resolver por mim - dei uma piscadinha - mas se você quiser apenas conversar, estou aqui... -       É uma garota - ele despejou antes que eu terminasse meu discurso de irmã maravilhosa - é a garota mais linda que eu já vi em toda a minha vida. -       Tudo bem - sorri - e o que tem de errado? -       Ela nunca vai olhar para mim, você não faz ideia do quanto ela é inteligente… E eu sou só um i****a do football. -       Ah não - dei-lhe um beijo na testa - essa hierarquia do fundamental termina ano que vem, no high school os esportistas é que fazem sucesso com as meninas. -       Mas eu não quero fazer sucesso com as meninas, Anna, quero que a Emília Bones olhe para mim, não para o i****a do football. -       Isso foi pesado. O que te faz pensar que ela acha você um i****a? -       Ah, ele estava com as outras garotas no intervalo e disse "não acredito que vocês estão paquerando esses idiotas do football". -       Tudo bem - respirei fundo - quais as chances de aproximar-se dela sem as amigas? -       Porque? -       Olha, na frente de outras garotas, a maioria das garotas não é muito sincera. -       Acho que o professor Binns vai marcar um trabalho em dupla. -       O Binns de história? -       Isso - os olhos azuis de Vincent iluminaram-se de repente - é isso, mas o professor é quem escolhe, normalmente. -       Tudo bem, eu poderia ajudar. -       Como? -       O Binns foi o meu professor favorito. Posso levar brownie para ele amanhã ou depois e pedir que escolha a… - não lembrei o nome da garota. -       Emilia Bones. -       … isso, pedir que escolha a Bones como sua dupla. -       Vai ser estranho - Vin disse de repente. -       Super normal - e era mesmo, as garotas viviam fazendo aquilo.         A conversa sobre Emilia Bones se estendeu até um suado e fedido Benjamin aparecer na porta gritando que o treinador estava doido e mais um monte de baboseiras que ignoramos, e quando Ben se jogou no meu tapete já estávamos falando dos resultados da nova formação do Seattle Seahawks. Papai chegou logo em seguida disso. Ele parou na porta do meu quarto: -       Se não é o meu bando de gatos siameses favorito enrolados no tapete - ele riu - como foi a escola?         Uma sequência de "bom" "normal" e "péssimo" seguida de algum questionamento que m*l ouvimos respondido da mesma forma. -       Tudo bem então. O que querem para o jantar? -       Você vai cozinhar? - perguntei muito interessada. -       Claro que sim - ele suspirou - pensei em uma carne de porco assada, molho picante, batatas… -       Ótima idéia - gritou Vincent - estou indo descascar batatas - e logo levantou-se. -       Que carne? - perguntou Benjamin. -       Peguei um lombo no caminho - ele suspirou - vou tomar banho e logo estarei lá na cozinha com vocês.         Movimentação normal de jantar: eu fazia algumas coisas, Vin fazia outras e Ben colocava a mesa. Papai desceu dizendo ter ouvido um barulho no meu quarto: meu celular. Corri escada acima, havia algumas mensagens de texto de um número desconhecido: -       Oi Anna. -       Anna, tudo bem? Sou eu, o amigo do Daniel Monroe.         Respirei profundamente. Não havia foto - óbvio, porque alguém que estava escondendo a identidade usaria foto? Pensei duas, três vezes. -       Oi, garoto misterioso, estou bem e você?          Enfiei o celular no bolso traseiro do meu jeans, mas logo tirei porque havia recebido outra mensagem. -       Estou bem. Me desculpa por isso tudo… É que realmente eu sou bem inseguro. -       Tudo bem - respondi. -       E então? Tá fazendo o que de bom aí? -       Ah, nada demais e você? -       Lendo - ele enviou uma foto de "O Retrato de Dorian Grey" -       Legal, eu gostei desse livro - respondi - no fim das contas a gente acaba refletindo bastante. -       Já leu? -       Sim, faz uns dois anos, eu gosto de ler. -       Eu também gosto, mas leio pouco, não tenho tido muito tempo… -       Eu posso chamar você mais tarde? Tenho que me juntar aos meus irmãos em um atípico jantar com o papai. -       Tudo bem, estarei te esperando. -       Até logo.         Enfiei novamente o celular no bolso e desci as escadas correndo. -       Tava fazendo o que? - perguntou Vin quando me joguei no sofá ao lado dele. -       Ah, respondendo umas coisas pro Chris. -       Certo - ele bagunçou meu cabelo - posso te pedir um favor? -       Pode sim, irmãozinho. -       Me empresta uns livros legais? -       Claro, só pegar no meu quarto. -       Tá, mas qual? -       Eu não sei, Vin, não sei o que gosta de ler. -       Eu não gosto - ele suspirou - mas acredito que eu preciso ler, pode ser que assim… -       Tudo bem - eu ri baixinho - quer parecer menos i****a? -       Ei - ele deu um t**a na minha cabeça. -       Vou escolher alguns para você, mas não vale pegar só para postar fotos da capa nas histórias do i********: ou no Snapchat. -       O que tem o Snapchat? - interrompeu Benjamin. -       Sucesso do Snapchat - disse Vin disfarçando - um vídeo. -       Ah, sim - Ben riu - aquele dos… -       … jogadores da NBA passando a bola um para o outro? - meu pai gritou da cozinha. -       Isso aí - disse Vincent - o extraterrestre aqui - e puxou meu pescoço - ainda não viu. -       Ah, Anna, em que mundo você vive?         Ignorei os deboches para tentar salvar a reputação do meu irmãozinho caçula, não podia entregar ao Ben e ao papai que ele ia começar a ler livros não obrigatórios para impressionar uma garotinha. Fiquei satisfeita com minha lealdade, tão satisfeita que eu quase me esqueci do meu admirador secreto e de que eu estava realmente furiosa com o Benjamin naquele dia. 
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