ESCRITÓRIO DE MATEU E LORENZO - 17H30
O dia estava chegando ao fim quando Lorenzo me chamou até a sala deles.
— Preciso que revise isso aqui, bonequinha.
Ele me entregou uma pasta grossa de documentos. Bonequinha. Ele já havia me chamado assim antes, mas nunca em um tom tão... provocativo.
Peguei a pasta sem encará-lo diretamente, mas senti o peso do olhar de Mateu em mim. Ele estava recostado na cadeira, os dedos batendo lentamente sobre a mesa. Observando.
Como sempre fazia.
Era sufocante, aquela sala compartilhada, pois sempre sentia o olhar do outro em mim enquanto era forçada a segurar minha atenção naquele que havia me chamado.
Virei as páginas sem realmente ler nada. Por que, de repente, parecia que o ar naquela sala estava mais denso?
— Algum problema, senhorita Jasmine?
A voz de Mateu veio baixa, carregada de ironia.
Levantei os olhos e encontrei os dois me observando com atenção. Meu estômago revirou.
— Não, senhor.
— Boa menina.
Lorenzo sorriu, como se soubesse exatamente o efeito que aquelas palavras tinham sobre mim.
Me apressei em sair da sala antes que eles percebessem o quanto me deixavam inquieta.
Mas, no momento em que saí, ouvi a voz baixa e grave de Mateu murmurando algo para Lorenzo.
— Ela sente.
Engoli em seco, acelerando o passo.
Eu sabia que eles estavam certos.
Eu sentia.
E esse era exatamente o problema.
...
LORENZO
O escritório estava escuro, iluminado apenas pelo brilho frio do abajur sobre a mesa. Mateu ainda estava ali, mergulhado em pensamentos, olhando para um ponto fixo na parede, mas eu sabia muito bem quem ocupava a mente dele.
Agarrei um copo de uísque e entrei sem bater, um sorriso de canto nos lábios.
— Você ainda está por aqui...
Mateu ergueu o olhar, mas não moveu um músculo.
— Você também.
Ri, fechando a porta atrás de mim e me jogando na poltrona da frente. Peguei a garrafa de uísque e me servi, soltando um suspiro exagerado.
— Acho que sei o que está te deixando tão tenso.
Ele não respondeu, mas apertou os dedos sobre a mesa. Bingo.
Cruzei os braços e deixei o sorriso se alargar.
— Jasmine.
Dessa vez, o maxilar dele travou. Ele poderia tentar esconder, mas eu conhecia aquele olhar.
Mateu não estava apenas interessado nela. Ele estava obcecado.
— Anda observando ela também, não anda?
Continuei, girando o copo nas mãos.
— Cara, não minta dizendo que não percebe como aquela boca morde aquela maldita caneta toda vez que está concentrada.
Soltei um riso baixo, balançando a cabeça.
— Nossa... Como eu queria ser ela.
Mateu soltou o ar pelo nariz, cruzando os braços.
— Ela é perigosa.
Arqueei uma sobrancelha, divertido.
— Perigosa? Não seja dramático, Mateu.
— Você não percebe?
Ele finalmente me encarou.
— Ela não é como as outras. É diferente.
Meu sorriso aumentou.
— E isso só deixa tudo melhor.
Mateu ficou em silêncio, mas a tensão no ar se intensificou.
A questão era simples. Nós dois sempre compartilhamos as mesmas mulheres, nos divertimos com elas e seguimos em frente. Mas Jasmine... ela estava quebrando esse ciclo.
O problema?
Nenhum de nós estava disposto a deixá-la escapar.
Levantei-me, estalei os dedos e dei um tapa no ombro dele.
— Beleza, se você não quer nem tentar ganhar essa aposta, o problema é seu.
Inclinei-me sobre ele, baixando a voz.
— Mas eu vou me esbaldar naquela bonequinha.
Virei-me para sair, mas antes de dar dois passos, ouvi a voz dele atrás de mim.
Baixa. Fria.
— Vai pensando.
O sorriso malicioso tomou meu rosto. Eu sabia.
Mateu podia fingir que não queria brincar. Mas ele odiava perder.
E, a partir dali, a sedução passaria para um nível ainda mais intenso.
...
JASMINE
Havia algo diferente.
Eu não sabia dizer exatamente o quê, mas sentia.
Nos últimos dias, Mateu e Lorenzo pareciam… mais presentes. Não que antes não fossem. Sempre estavam ali, imponentes, controlando tudo com a segurança de quem mandava naquele império. Mas agora era diferente.
Os olhares duravam segundos a mais. As palavras eram mais arrastadas, carregadas de um peso que fazia meu corpo reagir. E os toques…
Bom, os toques estavam começando a me deixar insana.
Como naquela manhã.
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Escritório - 9h45
Segurei a xícara de café com as duas mãos, tentando afastar o cansaço enquanto revisava uma planilha no computador. Luana estava ao meu lado, comentando alguma fofoca do departamento financeiro, mas eu m*l ouvia.
Minha atenção estava voltada para os dois homens encostados na mesa da recepção, conversando baixo entre si.
Mateu e Lorenzo.
Eu tentei, eu juro que tentei não reparar em como estavam ridiculamente bonitos naquela manhã. Mateu de terno preto, Lorenzo com a gravata frouxa, como se tivesse acabado de sair de uma reunião entediante.
Mas o pior de tudo era como me olhavam.
— E eu achando que você estava prestando atenção no que eu dizia…
Luana murmurou ao meu lado, e eu engasguei com o café.
— O quê? Não, eu só…
— Aham.
Ela riu, cutucando meu braço.
— Relaxa, Jasmine. Qualquer mulher com um pingo de sanidade ficaria assim.
Franzi o cenho.
— Assim como?
— Assim… nervosa.
Ela deu um gole no café e se inclinou para falar mais baixo.
— Percebeu como eles estão diferentes nos últimos dias?
Meu coração deu um salto.
Então não era coisa da minha cabeça.
— Diferentes como?
Tentei soar despreocupada.
— Como se estivessem caçando.
Luana lançou um olhar discreto para os dois.
— E você, minha amiga, é o alvo.
Engoli em seco, sentindo o rosto esquentar.
— Você está exagerando.
— Ah, é?
Ela sorriu.
— Então me diz por que Lorenzo está vindo para cá com aquele sorriso de cachorro que roubou um frango assado?
Meu estômago se revirou.
Merda.
...
Lorenzo estava se aproximando.
E, claro, Mateu vinha logo atrás.
Como dois predadores encurralando a presa.
— Bom dia, bonequinha.
Lorenzo foi o primeiro a falar, a voz carregada de charme.
Bonequinha.
Por que aquele apelido fazia um arrepio subir pela minha nuca?
Mateu parou ao lado dele, e eu senti a eletricidade no ar.
— Você está muito concentrada, senhorita Jasmine.
A voz dele era baixa, calculada. Ele adorava me deixar nervosa.
— Trabalho duro, senhor.
Respondi, me forçando a manter a calma.
Lorenzo sorriu de lado.
— Gosto disso.
Engoli em seco.
— Do quê?
Ele se inclinou um pouco, a voz quase um sussurro:
— De ver você se esforçando tanto. Aposto que você é assim em tudo o que faz, não é?
Meu Deus.
Meus olhos dispararam para Mateu, esperando que ele interrompesse aquela conversa absurda, mas ele apenas cruzou os braços, me observando.
Ele não ia impedir. Ele estava gostando.
Minha garganta secou.
— Eu… eu tenho que terminar esse relatório.
Mateu sorriu de leve, como se se divertisse com meu nervosismo.
— Não vamos te atrapalhar, então.
Mas antes que eu pudesse me sentir aliviada, Lorenzo fez algo inesperado.
Ele ergueu a mão e passou o polegar pelo canto da minha boca.
Minha respiração falhou.
— Tinha um restinho de café aqui.
Ele piscou, o sorriso preguiçoso nos lábios.
Meu coração disparou.
Foi só um toque. Simples. Mas aquilo fez alguma coisa dentro de mim mudar.
E eu sabia.
Sabia que, a partir daquele momento, tudo estava prestes a sair do controle.