NARRADO POR DIEGO
A casa já estava quase em silêncio. Cristian tinha apagado as luzes da churrasqueira, a maioria das pessoas já tinha ido embora, e os poucos que ficaram estavam espalhados pela varanda da frente, conversando baixo ou arrumando suas coisas pra ir também.
Fiquei ali sentado no quintal, com a taça de vinho ainda pela metade, observando a fumaça leve que ainda subia da grelha. O céu estava limpo, cravejado de estrelas. Jardins tinha dessas coisas — o tipo de céu que a gente não vê mais nas cidades grandes.
Cristian apareceu com duas garrafas long neck e jogou uma pra mim.
— Tá com cara de quem tá pensando mais do que devia.
Peguei a garrafa no ar e dei um gole antes de responder.
— Só refletindo.
— Sobre?
Respirei fundo. Já era madrugada, e a bebida me dava aquela coragem tranquila. Olhei pra ele de lado, com um meio sorriso cansado.
— Sobre a merda que foi minha última relação. Sobre como eu não vi o que tava bem na minha frente.
Cristian se ajeitou na cadeira, como quem já sabia pra onde a conversa ia.
— A Laura, né?
Assenti.
— Terminei de vez, cara. Sem volta. Aquilo ali… não era amor. Era hábito. Apego. Sei lá. Fui burro de insistir tanto. — Dei mais um gole. — E o pior não foi o fim. Foi como terminou.
Cristian franziu a testa, curioso.
— Achei que você tinha terminado depois de umas discussões sobre distância, planos diferentes e tal…
Soltei uma risada curta, amarga.
— Foi isso que eu falei pra maioria. Mas a verdade? Peguei ela com o Fernando.
Ele arregalou os olhos.
— Fernando… o seu amigo? Da faculdade?
— Esse mesmo. — Bebi o resto da garrafa de uma vez. — Me senti um i****a. Confiava nele. A gente era parceiro de plantão, já viajamos juntos. Ele sabia de tudo. E ela... bem, ela se fez de vítima depois.
— c*****o, mano… eu nem sei o que dizer.
— Não precisa. Só precisava falar. — Apoiei os cotovelos nos joelhos. — Depois que vi, eu só saí. Não falei nada. Não gritei. Só fui embora. E nunca mais voltei.
Cristian ficou em silêncio por uns segundos, respeitando meu momento. Então deu um gole na cerveja e olhou pro céu.
— Isso explica muita coisa. Desde que você voltou pra Jardins, tá com aquele olhar de quem tá aqui… mas não tá.
— É. Tem sido difícil estar presente, sabe? Mas hoje... hoje foi diferente.
Ele virou o rosto pra mim, curioso.
— Por quê?
Dei de ombros, meio hesitante.
— A Elena.
O nome saiu antes que eu percebesse que já estava preso na minha garganta.
Cristian ergueu uma sobrancelha.
— É mesmo? Gostou dela?
— Ela tem uma energia diferente. Não é do tipo que fala pra agradar. Não fica tentando chamar atenção. — Pausei, recordando da cena. — Mas quando ela tá no ambiente… você sente.
Cristian riu, concordando.
— Elena é assim mesmo. É intensa, mas contida. Firme, sabe? Sempre foi centrada, desde que a gente se conhece. Trabalha muito. Não se mistura com qualquer um.
— E ela é… linda. — Admiti, sem rodeios. — Sexy pra caramba, mas sem precisar mostrar demais. Aqueles olhos… são os olhos de alguém que enxerga além da superfície.
Cristian cruzou os braços.
— Tô vendo que cê reparou mesmo, hein.
— Eu reparei, sim. — Olhei pro ponto onde ela estava sentada horas antes. — Mas ela parece… reservada. Como se tivesse construído um muro em volta. E só deixa passar quem ela realmente confia.
— Bingo. É exatamente isso. Elena já teve umas decepções. Não só com homens, mas com amizades também. Ela se cerca de poucas pessoas. E o círculo dela é fechado.
Assenti, absorvendo cada palavra. Me atraía ainda mais saber disso. Talvez porque eu também estivesse me reconstruindo. E pessoas assim — que vivem com intensidade silenciosa — me despertavam algo que eu não sabia nomear.
— Ela comentou sobre trocar de carro, né? — comentei, mais leve agora. — Disse que queria algo como o Uno, mas mais confortável.
Cristian riu.
— É! Aquela máquina dela já fez mais quilômetro do que muito caminhão de entrega. Mas ela cuida como se fosse uma Ferrari.
— Achei isso admirável. Sabe? Tem gente que compra carro pra ostentar. Ela tem um porque é útil. Porque faz parte do dia a dia dela. E mesmo assim, ela trata com zelo.
— É. Elena é prática. Pé no chão. Mas quando se entrega pra alguém… é inteira.
Ficamos em silêncio por um instante, olhando pro escuro da noite. A brisa da madrugada já era mais fria, e a garrafa esvaziava devagar.
— Você vai seguir ela no Insta? — ele perguntou, como quem lança uma isca.
— Ela já me seguiu. Hoje à noite. Antes de sair daqui.
— É mesmo?
Assenti.
— Ainda não aceitei. Nem olhei o perfil. Mas quando vi a notificação… confesso que meu peito deu um salto.
Cristian me olhou com um sorriso malicioso.
— Vai com calma, Diego. Você tá voltando a se abrir agora. Mas se for pra tentar algo com a Elena… vai com verdade. Sem joguinho.
— Eu não tenho nem vontade de jogar, Cristian. Tô cansado disso. — Olhei pro céu, sincero. — Se ela me der espaço… eu vou.
Ele levantou a garrafa como um brinde.
— Então que venha algo diferente dessa vez, né?
— Que venha.
Batemos as garrafas num leve "tim-tim", e brindamos àquilo que ainda nem sabíamos o que seria.
Mas algo dentro de mim dizia… que ela seria mais do que apenas uma lembrança de uma noite bonita.