Capítulo 3

962 Words
NARRADO POR DIEGO Assim que saí do estacionamento do posto de saúde, o sol já começava a descer no horizonte, tingindo tudo com aquele laranja caloroso de fim de tarde típico do interior. Meu Corolla Cross preto, recém-retirado da concessionária, deslizava pelas ruas de Jardins com a tranquilidade de quem não está com pressa — e, ao mesmo tempo, com a mente cheia de ruídos. Hoje o dia foi pesado. Mais do que eu esperava.
Mas havia algo... um detalhe minúsculo, que pairava na minha cabeça desde cedo: a mulher do salão. Aquela figura serena, focada…
A forma como ela organizava tudo.
Algo nela me lembrou de coisas que eu pensava que tinha esquecido. Mas sacudi os pensamentos. Essa fase é nova. E ela começa do zero. Quando entrei na garagem de casa, minha mãe já estava regando as plantas da varanda. O cheiro de terra molhada misturado com lavanda me acertou em cheio. Um tipo de conforto que só existe quando a gente volta pra onde tudo começou. — Oi, meu filho! Como foi o dia? — ela perguntou com um sorriso aberto, ainda segurando o regador. — Corrido. Mas bom. As pessoas são bem receptivas aqui. Ela assentiu, orgulhosa. — Vai tomar banho? O churrasco do Cristian é cedo. Tua camisa branca tá passada no seu cabide. Subi as escadas com passos lentos. Passei em frente ao quarto do Henrique, que estava com o fone no pescoço, jogando alguma coisa no videogame. O Lucas, meu outro irmão, estava no chão, encostado no armário, mexendo no celular. — Não vão sair hoje? — perguntei, abrindo a porta do banheiro que ainda divido com eles. — Tá maluco? Tem UFC hoje. — Henrique respondeu sem tirar os olhos da tela. — Prioridades, né? — murmurei, entrando e trancando a porta. O banheiro… bom, era um campo de batalha.
Pasta de dente aberta, toalhas no chão, shampoo sem tampa. Suspirei, tirei a roupa e entrei no banho quente. Fechei os olhos e deixei a água correr. A pressão da água parecia aliviar a tensão nos ombros. Pensava no dia. Nos exames. Em algumas histórias que me tocaram… E, inevitavelmente, nela. Elena. — Diego! — escutei meu pai chamar do andar de baixo. — Vem cá antes de sair. — Já vou! — gritei, desligando o chuveiro. Me enxuguei rapidamente e vesti a calça jeans escura com corte reto, o cinto discreto, e a camisa branca que minha mãe deixou separada. O relógio clássico no pulso e um perfume leve. Nada chamativo, mas marcante. Desci as escadas ajustando as mangas da camisa. Meu pai estava na sala de leitura, com um copo de uísque e os óculos no meio do nariz. Ele é o tipo de homem que parece que nasceu com um terno. Mesmo em casa, a postura dele intimida. — Sentou a caneta em muita gente hoje? — provoquei, encostando na porta. Ele sorriu de lado. — Só nos que mereciam. E você? Como foi o primeiro dia no posto? Sentei no sofá da frente e respirei fundo. — Intenso. O SUS é uma montanha-russa. Mas… gosto disso. Do contato real, sabe? — Sei. Você escolheu essa área por isso, não foi? Assenti. — Mesmo vindo de uma família de advogados e empresários, eu queria estar com as pessoas. Sentir que o que eu faço muda alguma coisa. Mesmo que seja um pouco. Ele se ajeitou na poltrona, me encarando com aquele olhar firme que eu conheço bem. — Isso é o que me orgulha em você, Diego. Você não seguiu o caminho mais fácil. Você tem convicção. — Tô tentando reconstruir tudo, pai. Vida, carreira… confiança. Ele levantou o copo num brinde solitário. — E tá fazendo do jeito certo. Vai ao churrasco, conhece gente nova. Talvez conheça alguém que valha a pena. Sorri sem responder. Meu pai era discreto, mas nem ele conseguia esconder a torcida pra que eu seguisse em frente. Peguei as chaves do carro e me despedi: — Manda um beijo pra mãe. — Aproveita. E presta atenção. Às vezes, a vida muda no meio de uma conversa qualquer. Subi no carro e segui pela rua principal. O GPS mental já decorava Jardins. Era engraçado como tudo parecia mais lento aqui — mas, ao mesmo tempo, mais verdadeiro. No caminho, passei novamente pelo salão. Estava fechado agora, mas a fachada iluminada refletia luzes suaves. Parecia… convidativo. O nome dela ainda brilhava em letras elegantes. Elena Martins. A imagem dela voltou, involuntária: os cabelos longos, a postura firme. E eu me peguei imaginando como seria sua voz. Seu jeito de rir. Ou de olhar de perto. Estacionei na frente da casa do Cristian e desci do carro. O som do churrasco já ecoava no quintal. Risadas, música sertaneja de fundo, cheiro de carne assando e vinho aberto. Um típico encontro de interior. E era tudo o que eu precisava. Cristian apareceu no portão com um sorriso de canto a canto. — Achei que ia dar pra trás, doutor. — Prometi, né? Ele me puxou pra dentro com um abraço caloroso. — Tá bonito, hein. Essa camisa branca vai render assunto. — Ridículo. — ri, entrando. — Marina tá lá dentro com as meninas. E, aliás, a Elena já chegou. Elena.
O nome caiu como uma gota gelada na espinha. — Ela é a mulher do salão? — perguntei, tentando parecer casual. Cristian me lançou aquele olhar de “te conheço melhor do que você acha”. — É. E você vai gostar dela. Confia. Antes que eu pudesse responder, ouvi a voz de Marina vindo de dentro: — Diego! Vem pegar sua taça, homem! Respirei fundo, ajeitei a postura, e entrei. Essa noite estava só começando.
E algo me dizia que depois dela…
Nada mais seria igual.
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