NARRADO POR DIEGO
Assim que saí do estacionamento do posto de saúde, o sol já começava a descer no horizonte, tingindo tudo com aquele laranja caloroso de fim de tarde típico do interior.
Meu Corolla Cross preto, recém-retirado da concessionária, deslizava pelas ruas de Jardins com a tranquilidade de quem não está com pressa — e, ao mesmo tempo, com a mente cheia de ruídos.
Hoje o dia foi pesado. Mais do que eu esperava.
Mas havia algo... um detalhe minúsculo, que pairava na minha cabeça desde cedo: a mulher do salão.
Aquela figura serena, focada…
A forma como ela organizava tudo.
Algo nela me lembrou de coisas que eu pensava que tinha esquecido.
Mas sacudi os pensamentos. Essa fase é nova. E ela começa do zero.
Quando entrei na garagem de casa, minha mãe já estava regando as plantas da varanda. O cheiro de terra molhada misturado com lavanda me acertou em cheio. Um tipo de conforto que só existe quando a gente volta pra onde tudo começou.
— Oi, meu filho! Como foi o dia? — ela perguntou com um sorriso aberto, ainda segurando o regador.
— Corrido. Mas bom. As pessoas são bem receptivas aqui.
Ela assentiu, orgulhosa.
— Vai tomar banho? O churrasco do Cristian é cedo. Tua camisa branca tá passada no seu cabide.
Subi as escadas com passos lentos. Passei em frente ao quarto do Henrique, que estava com o fone no pescoço, jogando alguma coisa no videogame. O Lucas, meu outro irmão, estava no chão, encostado no armário, mexendo no celular.
— Não vão sair hoje? — perguntei, abrindo a porta do banheiro que ainda divido com eles.
— Tá maluco? Tem UFC hoje. — Henrique respondeu sem tirar os olhos da tela.
— Prioridades, né? — murmurei, entrando e trancando a porta.
O banheiro… bom, era um campo de batalha.
Pasta de dente aberta, toalhas no chão, shampoo sem tampa.
Suspirei, tirei a roupa e entrei no banho quente. Fechei os olhos e deixei a água correr. A pressão da água parecia aliviar a tensão nos ombros. Pensava no dia. Nos exames. Em algumas histórias que me tocaram… E, inevitavelmente, nela. Elena.
— Diego! — escutei meu pai chamar do andar de baixo. — Vem cá antes de sair.
— Já vou! — gritei, desligando o chuveiro.
Me enxuguei rapidamente e vesti a calça jeans escura com corte reto, o cinto discreto, e a camisa branca que minha mãe deixou separada. O relógio clássico no pulso e um perfume leve. Nada chamativo, mas marcante.
Desci as escadas ajustando as mangas da camisa. Meu pai estava na sala de leitura, com um copo de uísque e os óculos no meio do nariz. Ele é o tipo de homem que parece que nasceu com um terno. Mesmo em casa, a postura dele intimida.
— Sentou a caneta em muita gente hoje? — provoquei, encostando na porta.
Ele sorriu de lado.
— Só nos que mereciam. E você? Como foi o primeiro dia no posto?
Sentei no sofá da frente e respirei fundo.
— Intenso. O SUS é uma montanha-russa. Mas… gosto disso. Do contato real, sabe?
— Sei. Você escolheu essa área por isso, não foi?
Assenti.
— Mesmo vindo de uma família de advogados e empresários, eu queria estar com as pessoas. Sentir que o que eu faço muda alguma coisa. Mesmo que seja um pouco.
Ele se ajeitou na poltrona, me encarando com aquele olhar firme que eu conheço bem.
— Isso é o que me orgulha em você, Diego. Você não seguiu o caminho mais fácil. Você tem convicção.
— Tô tentando reconstruir tudo, pai. Vida, carreira… confiança.
Ele levantou o copo num brinde solitário.
— E tá fazendo do jeito certo. Vai ao churrasco, conhece gente nova. Talvez conheça alguém que valha a pena.
Sorri sem responder. Meu pai era discreto, mas nem ele conseguia esconder a torcida pra que eu seguisse em frente.
Peguei as chaves do carro e me despedi:
— Manda um beijo pra mãe.
— Aproveita. E presta atenção. Às vezes, a vida muda no meio de uma conversa qualquer.
Subi no carro e segui pela rua principal. O GPS mental já decorava Jardins. Era engraçado como tudo parecia mais lento aqui — mas, ao mesmo tempo, mais verdadeiro.
No caminho, passei novamente pelo salão. Estava fechado agora, mas a fachada iluminada refletia luzes suaves. Parecia… convidativo. O nome dela ainda brilhava em letras elegantes. Elena Martins.
A imagem dela voltou, involuntária: os cabelos longos, a postura firme. E eu me peguei imaginando como seria sua voz. Seu jeito de rir. Ou de olhar de perto.
Estacionei na frente da casa do Cristian e desci do carro.
O som do churrasco já ecoava no quintal. Risadas, música sertaneja de fundo, cheiro de carne assando e vinho aberto. Um típico encontro de interior. E era tudo o que eu precisava.
Cristian apareceu no portão com um sorriso de canto a canto.
— Achei que ia dar pra trás, doutor.
— Prometi, né?
Ele me puxou pra dentro com um abraço caloroso.
— Tá bonito, hein. Essa camisa branca vai render assunto.
— Ridículo. — ri, entrando.
— Marina tá lá dentro com as meninas. E, aliás, a Elena já chegou.
Elena.
O nome caiu como uma gota gelada na espinha.
— Ela é a mulher do salão? — perguntei, tentando parecer casual.
Cristian me lançou aquele olhar de “te conheço melhor do que você acha”.
— É. E você vai gostar dela. Confia.
Antes que eu pudesse responder, ouvi a voz de Marina vindo de dentro:
— Diego! Vem pegar sua taça, homem!
Respirei fundo, ajeitei a postura, e entrei.
Essa noite estava só começando.
E algo me dizia que depois dela…
Nada mais seria igual.