NARRADO POR ELENA
Acordei com o barulho insistente do despertador às 6:30 da manhã. Três bipes. Três chances de ignorar a vida e me virar pro lado. Mas eu não era esse tipo de mulher. Não mais.
Rolei os olhos no teto por uns segundos. Respirei fundo. O cheiro do meu creme noturno ainda estava na fronha — cheiro de lavanda e disciplina.
Hoje era Laser Day.
A sexta-feira mais corrida do mês.
Levantei da cama direto pra cozinha. Café preto forte, sem açúcar. Do jeito que eu gosto. Meus pés descalços encontraram o chão gelado, mas eu não liguei. Gosto da sensação de controle que a rotina me dá.
Depois do café, prendi o cabelo em um r**o alto, vesti o jaleco rosa claro com o nome bordado no peito: Elena Martins | Estética Avançada. Respirei fundo mais uma vez antes de sair.
O salão fica a apenas quatro quadras de casa. Uma caminhada leve me ajuda a alinhar os pensamentos.
E lá estava ele.
Meu espaço.
Vidro espelhado, letreiro iluminado, o perfume de lavanda que eu mesma escolhi no difusor. Três cabines de atendimento, uma recepção delicada, e uma equipe que me respeitava — e aprendia comigo.
— Bom dia, chefe! — sorriu Carol, minha assistente, enquanto organizava os horários.
— Bom dia, querida. Agenda cheia? — perguntei, mesmo sabendo a resposta.
— Lotada. A primeira já chegou. Cliente nova.
— Vamos começar, então. Hoje vai ser puxado.
Comecei a atender. Uma após a outra. Mulheres diferentes, histórias diferentes, mas quase todas com o mesmo tom:
“Como você aguenta fazer isso o dia todo?”
“Nossa, queria ter a sua disposição.”
“Você parece calma o tempo todo...”
Eu sorria. Sempre sorria.
Porque por dentro… nem sempre era calmo.
Em alguns momentos, entre um atendimento e outro, eu olhava pela janela. Meu salão ficava exatamente na esquina da rua principal, em frente ao Posto Central de Saúde.
Um entra e sai constante de pessoas. Ambulâncias. Motocicletas. Médicos apressados.
Uma figura me chamou atenção naquele fim de manhã.
Um homem alto, de camisa polo branca, óculos escuros e a pasta de couro na mão. Caminhava com calma, mas com postura de quem tinha tudo sob controle.
— Esse é novo? — murmurei para Carol, que estava ao meu lado no balcão, agendando horários.
Ela olhou para onde eu olhava, deu uma risadinha maliciosa.
— Ahhh, doutor Diego? Ele é o novo ultrassonografista. Chegou semana passada.
— Ah...
— Tá curiosa, chefe?
— Eu? Jamais. — respondi com o melhor tom blasé que consegui.
Mas a verdade é que fiquei, sim.
Era raro eu prestar atenção em alguém.
Ainda mais num homem.
Não depois de tudo que vivi.
🕑 Horas depois...
Já passava das 18h. As últimas clientes saíam sorrindo, vermelhinhas, satisfeitas.
Eu estava exausta. Corpo tenso, pernas doendo. Mas a cabeça ainda acesa.
Estava terminando de fechar a caixa quando Marina me ligou.
— Amiga, churrasco aqui em casa mais tarde, hein! Não tem desculpa!
— Ai, Má… hoje? Laser Day hoje me destruiu.
— Você vai vir sim! O Cristian chamou o novo médico também. Vai ser divertido.
— Médico? — minha voz escapou antes que eu pudesse disfarçar.
— O Diego, gata. Novinho, lindo e recém-solteiro. Sua cara!
— Você é terrível. — respondi rindo.
— Eu sou casada, mas não cega. E nem boba. Você precisa sair do casulo.
Suspirei. Talvez ela tivesse razão. Talvez.
— Tá bom. Eu vou. Mas só porque vai ter carne assada! Ahaha
— E vinho.
— Aí você me ganhou.
Desliguei o telefone com um sorriso pequeno, mas verdadeiro.
No fundo, alguma coisa dentro de mim… vibrava.
Talvez fosse apenas o cansaço.
Ou talvez…
Não.
Era só o vinho.
__Capítulo 2: DIEGO NARRANDO – a primeira manhã dele na cidade, rotina no posto, e comentário sobre “a mulher do salão da esquina”.