Capítulo 1

649 Words
NARRADO POR ELENA Acordei com o barulho insistente do despertador às 6:30 da manhã. Três bipes. Três chances de ignorar a vida e me virar pro lado. Mas eu não era esse tipo de mulher. Não mais. Rolei os olhos no teto por uns segundos. Respirei fundo. O cheiro do meu creme noturno ainda estava na fronha — cheiro de lavanda e disciplina. Hoje era Laser Day.
A sexta-feira mais corrida do mês. Levantei da cama direto pra cozinha. Café preto forte, sem açúcar. Do jeito que eu gosto. Meus pés descalços encontraram o chão gelado, mas eu não liguei. Gosto da sensação de controle que a rotina me dá. Depois do café, prendi o cabelo em um r**o alto, vesti o jaleco rosa claro com o nome bordado no peito: Elena Martins | Estética Avançada. Respirei fundo mais uma vez antes de sair. O salão fica a apenas quatro quadras de casa. Uma caminhada leve me ajuda a alinhar os pensamentos. E lá estava ele. Meu espaço.
Vidro espelhado, letreiro iluminado, o perfume de lavanda que eu mesma escolhi no difusor. Três cabines de atendimento, uma recepção delicada, e uma equipe que me respeitava — e aprendia comigo. — Bom dia, chefe! — sorriu Carol, minha assistente, enquanto organizava os horários. — Bom dia, querida. Agenda cheia? — perguntei, mesmo sabendo a resposta. — Lotada. A primeira já chegou. Cliente nova. — Vamos começar, então. Hoje vai ser puxado. Comecei a atender. Uma após a outra. Mulheres diferentes, histórias diferentes, mas quase todas com o mesmo tom: “Como você aguenta fazer isso o dia todo?”
“Nossa, queria ter a sua disposição.”
“Você parece calma o tempo todo...” Eu sorria. Sempre sorria.
Porque por dentro… nem sempre era calmo. Em alguns momentos, entre um atendimento e outro, eu olhava pela janela. Meu salão ficava exatamente na esquina da rua principal, em frente ao Posto Central de Saúde. Um entra e sai constante de pessoas. Ambulâncias. Motocicletas. Médicos apressados. Uma figura me chamou atenção naquele fim de manhã. Um homem alto, de camisa polo branca, óculos escuros e a pasta de couro na mão. Caminhava com calma, mas com postura de quem tinha tudo sob controle. — Esse é novo? — murmurei para Carol, que estava ao meu lado no balcão, agendando horários. Ela olhou para onde eu olhava, deu uma risadinha maliciosa. — Ahhh, doutor Diego? Ele é o novo ultrassonografista. Chegou semana passada. — Ah... — Tá curiosa, chefe? — Eu? Jamais. — respondi com o melhor tom blasé que consegui. Mas a verdade é que fiquei, sim. Era raro eu prestar atenção em alguém. Ainda mais num homem. Não depois de tudo que vivi. 🕑 Horas depois... Já passava das 18h. As últimas clientes saíam sorrindo, vermelhinhas, satisfeitas. Eu estava exausta. Corpo tenso, pernas doendo. Mas a cabeça ainda acesa. Estava terminando de fechar a caixa quando Marina me ligou. — Amiga, churrasco aqui em casa mais tarde, hein! Não tem desculpa! — Ai, Má… hoje? Laser Day hoje me destruiu. — Você vai vir sim! O Cristian chamou o novo médico também. Vai ser divertido. — Médico? — minha voz escapou antes que eu pudesse disfarçar. — O Diego, gata. Novinho, lindo e recém-solteiro. Sua cara! — Você é terrível. — respondi rindo. — Eu sou casada, mas não cega. E nem boba. Você precisa sair do casulo. Suspirei. Talvez ela tivesse razão. Talvez. — Tá bom. Eu vou. Mas só porque vai ter carne assada! Ahaha — E vinho. — Aí você me ganhou. Desliguei o telefone com um sorriso pequeno, mas verdadeiro. No fundo, alguma coisa dentro de mim… vibrava. Talvez fosse apenas o cansaço. Ou talvez… Não. Era só o vinho. __Capítulo 2: DIEGO NARRANDO – a primeira manhã dele na cidade, rotina no posto, e comentário sobre “a mulher do salão da esquina”.
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