JAMES MOORE
Passo a manhã inteira fazendo ligações, cobrando favores e desbravando por inteiro a vida de Maia e Alejandra, tentando achar o fundamento da recusa dela em ter um emprego muito melhor do que trabalhar naquele muquifo de bar.
Sem surpresa, descubro que, para o Governo, Alejandra Mondego é uma sombra. A mulher não possui seguro social, documentos e nada que indique sua existência em solo americano.
Encosto na cadeira e suspiro, sem saber como lidar com esse problema exatamente. Damon não pode de forma alguma ser vinculado à uma ilegal. Isso apenas seria a munição que Edmund precisa para mostrar a fragilidade de Damon em comandar a companhia nos seus próprios termos.
Alejandra é uma ponta solta que não posso deixar existir ou todo o trabalho que nós dois tivemos vai por água abaixo.
Nós dois estamos constantemente tentando provar às nossas famílias que seguir a vida da forma que escolhemos dá certo. Cada fracasso nosso é uma vitória deles e isso eu não permito.
Não permitirei que meu pai assista enquanto eu estou arruinando um negócio de bilhões por um equívoco tão simples. Edmund não irá mostrar que está certo e que seus métodos são melhores.
Tomo um banho e visto o terno em uma velocidade absurda, sempre correndo e nunca parando para não ser pego desprevenido. Na minha profissão meu foco é cem por cento e mais se eu puder, pois normalmente faço mais de uma coisa ao mesmo tempo.
É estressante e, se não busco um tempo para me desligar, certamente eu já teria pifado. Quem me olha fantasiado de advogado, não imagina quão definidas as coisas são para mim entre o pessoal e o profissional. Não sou o cara que chega em casa, coloca uma música clássica, bebe um destilado e trabalha organizadamente.
Eu literalmente chego arrancando a fantasia, pegando uma cerveja e aproveitando do meu sossego.
Meus pais sempre foram muito formais, uma soberba aristocrata advinda de todo o reconhecimento que eles tem no país. Então a separação foi natural e, apesar de amá-los, somos muito diferentes. Eu precisava do meu espaço, sem alguém ditando como cada coisa deve ser. As coisas devem ser como eu deixo e acabou.
Gosto de entrar no personagem de advogado e amo quando eu saio dele, pegando minha prancha de surf, o carro e me perdendo nas ondas do Pacífico nos escassos momentos em que posso fazer isso.
São os poucos instantes em que não estou fazendo todas as coisas no mesmo segundo, resolvendo o problema de qualquer um que saiba meu número de telefone ou ignorando uma reunião de família em Nova York.
Não gosto de pensar que tenho duas versões, apenas foco cem por cento naquilo que faço. Se for o prazer, nele me empenho. Se for o trabalho, até minha alma labora.
Entro na sala de Damon sem sequer cumprimentá-lo, pois os problemas são mais urgentes.
— Você me deve um favor tão grande que nem em três vidas poderá me pagar!
Maia e Damon me encaram como se eu fosse um extraterrestre pronto para fulminá-los. Mas a verdade é que fulminado serei eu, no segundo em que a chispas pulam dos olhos da florista prontas para me matarem quando eu digo que eles devem se afastar da mexicana.
Acho que dizer que Alejandra é um perigo para nós não foram as palavras corretas a serem usadas, apesar de traduzirem exatamente o que eu penso.
— A mulher não tem documentos! — Eu insisto.
— Eu pedi que a colocasse em algum trabalho e não que arranjasse um número do seguro social ou que se casasse com ela! — Maia definitivamente vai atear fogo na minha cabeça.
— Então, mente brilhante, me diz onde vou arranjar um trabalho para ela em que ninguém questione a inexistência dos seus documentos ou a vincule com a imagem da empresa?
— Na sua casa.
No fundo, sem precisar demonstrar minha verdadeira reação, eu ri. Eu gargalhei como um insano que acaba de perder o último neurônio. Damon sabe o tamanho do absurdo e sua cara, assim que proferiu as palavras, o delata.
Ele sabe que trato meu apartamento como um verdadeiro refúgio, nem meus pais entram lá direito. Não levo mulheres, a limpeza é realizada por uma empresa e ninguém se mete na minha zona.
Sim, zona.
Como um legítimo amante do trabalho, meu espaço reflete em essência a forma como eu levo minha vida. Arquivos, pastas e tudo o que se pode imaginar em todo lugar. O motivo? Posso estar esquentando um macarrão com queijo quando uma ideia brilhante de um caso surge.
Ou quando o telefone toca e alguém, normalmente Damon, precisa urgente de um conselho legal.
Damon tem seu escritório para isso e eu minha casa. Ela toda, todinha, sem espaço para mexicanas ilegais guardadoras de segredos.
Mas, quando vejo, por algum motivo não pensado, não planejado e saído do grande nada do qual eu sempre tiro minhas grandes ideias, estou concordando em abrigar Alejandra Mondego no meu recanto.
Inclusive me vejo concordando em buscá-la naquele antro e ser o seu anfitrião.
Mas onde raios eu estou com a cabeça?
Ignorando o fato de que terei uma “colega” de apartamento capaz de me fazer cometer um crime federal, elaboro a nota que vamos emitir à imprensa acerca do relacionamento relâmpago entre Maia e Damon. Precisamos convencer a imprensa, as famílias e cada ser que respire em toda Los Angeles.
Mas, principalmente, temos que convencer Miguel Hidalgo, grande empresário espanhol que nos abrirá as portas para a Fórmula 1. Esse é o contrato bilionário no qual Damon elabora o projeto dos carros, Hidalgo os promove e eu ganho fartos honorários.
Não que eu precise que portas sejam abertas, pois já sou reconhecido o bastante no que faço em advocacia empresarial. Mas, Damon dá um trabalho do c****e e me obriga a resolver questões criminais como homens no bar sendo espancados, familiares na elaboração de contratos de noivado e imigração.
Essa é a nova seara que ele me obriga a desbravar.
Corro para todo canto o dia inteiro e, quase perdendo a hora, mando uma mensagem para Alejandra, graças a Maia que me deu o número que ela tanto recusou.
“Me espere na entrada do bar. Não entre”.
“Quem é?”
“Você sabe”.
Provoco-a por mensagem ao perceber que a morena claramente tem o pavio curto. Não que eu seja a pessoa mais paciente, mas é divertido estar do outro lado, de quem provoca. Deslizo pela estrada em direção à rodovia que leva aos limites do Estado e lá vejo Alejandra esbravejando na entrada do bar.
Ela faz isso com certa constância.
Noto a pequena confusão sempre existente quando essas mulheres estão envolvidas e me aproximo, atento.
— Você me deve dinheiro, Travis! — Ela grita. — Eu trabalhei o mês inteiro! Mas, que merda!
— Você não faz seu serviço completo há meses, não me venha com essa sua p**a! Se continuar fazendo alarde, chamarei a polícia!
— Cretino!— Apenas me aproximo em tempo de evitar uma tragédia, pois a mulher avança sobre ele pronta para esbofetear o homem. Se ele reagir, será seu fim.
Quando eu percebo estou segurando-a com meus braços, imobilizando-a, seus pés agitados flutuando em revolta, quando eu a movo como se nada pesasse.
— Me solta!
— Hei! — Digo com as mãos em sinal de rendição. — Sou eu!
— Meu Deus, você… O que faz aqui? Desde quando frequenta esse lugar?
— Não frequento. Vim buscar você.
— Me buscar? Está bêbado?
— Queria, porém não. Podemos sair daqui?
— Não, enquanto ele não me pagar o que deve.
— Essa mulher é maluca! Se aceita um conselho, fique longe dela e da amiga! — O cara avisa, deixando-nos do lado de fora. Ela ameaça ir atrás dele, mas eu a impeço.
— Vamos e depois, com calma, você exige o que te pertence.
— Se eu não exigir agora, eu nunca mais verei a cor desse dinheiro! E eu ainda não entendi o que faz aqui?
— Maia pediu que eu a buscasse.
— Me buscar? — Acho que a falsa noiva esqueceu de enviar o recado mais importante de todos: o destino de Alejandra. Ótimo! Larguem tudo nas mãos de James desatador de nós! Bravo!
— Ainda está cedo, mas você pode encontrá-la na floricultura.
Invento que apenas vim oferecer uma carona. Uma carona sem sentido, porém carona. Não acho que seja uma boa ideia apenas soltar “então, vamos para minha casa onde você vai viver enquanto resolvo a burocracia da sua vida”. Eu provavelmente seria morto e largado nessa estrada.
— Maia? Quem são vocês de verdade? De repente dois ricaços decidem que a gente existe? Não caio nesse conto do bom samaritano! Carona! Ora essa…
— Que conto? Olha, não tem nada disso, apenas vamos para a floricultura. — Ela segue olhando para o interior do bar. — Ele está chamando a polícia. Quer mesmo isso? — Jogo a isca, ciente que ela irá pegar.
— Uma carona! E apenas porque quero saber onde ela está se metendo.
— Ela já é bem grandinha, não é?
— Não tem idade para uma pessoa enganar outra, Doutor James. Se tivesse, provavelmente você estaria desempregado.
Touché.
Aponto para o carro enorme e ela suspira resignada, os olhos a todo instante voltando para o tal Travis. Maia precisa amansá-la para que eu faça algo.
Seguimos a viagem em silêncio assistindo a noite cair.
— Obrigada. Perdi os mil dólares que ele me devia, mas pelo menos não fui presa. Por que eu ia ser presa assim que matasse aquele pendejo!
— Não precisa agradecer. Converse com Maia. Te fará bem. — Insisto, pois essa mulher arrumando confusão em bares é um perigo e mais um problema iminente para eu resolver.
— Esse seu amigo…
— Não vou falar por ninguém. — Aviso encarando-a assim que chegamos em frente à floricultura. — Sei que está preocupada por ela e, acredite, eu também estou por ele.
— Acha que ela quer dar um golpe? — Pergunta de forma irônica.
— Acha que ambos devem ter cuidado. Eu não a conheço, assim como você não o conhece. Mas, ainda bem que eles possuem nós dois para zelarmos, não é?
— Com toda a certeza, porque eu não confio em nenhum de vocês.
— A recíproca é verdadeira. — Suspiro. — Olha, Damon não fará nada contra ela, pois um escândalo a mais arruinará sua reputação.
— Isso ele fez sozinho. — Ela critica acerca das notícias de jornais que eu não consegui abafar. Por sorte eu mesmo não era noticiado, pois minha mãe armaria um acampamento na frente do meu apartamento para me colocar na linha.
— E se algo acontecer, com toda a certeza você fará questão de não deixar para lá.
— Garantiria manchete do ano, tenha certeza.
— Ótimo, então, podemos entrar em acordo e…
— Eu não faço acordos. — Ela é incisiva. Acho graça, pois ela está dentro do meu carro nesse momento porque a sua amiga fez um acordo. Um contrato para um relacionamento de aparências.
— Você fala como se eu pedisse sua alma como pagamento. — Ela morde o lábio demonstrando certa indignação com minhas palavras.
— Não sabe o quão barato uma pode ser comprada por aí. Fique tranquilo. Eu não serei um problema, desde que vocês não se tornem um. Isso não é um acordo.
— Parece um. — Comento, desafiando-a. — É uma promessa?
— Pode apostar.
Ela diz e sai com facilidade do carro, caminhando em direção a calçada com seu corpo esguio envolto em jeans e camiseta que tem o talento de atrair a atenção.
Foco, James!